5 Analyse og drøfting
5.3 Utredningsrapportene sett under ett
5.3.1 I hvor stor grad brukes ideen om robusthet?
Só para a sua exclusiva diversão é que se retraíra, só para estar mais perto de si mesmo. Banhava-se em sua própria existência, não se desviando por nada mais, e achava isso maravilhoso (...) e, no entanto, vivia tão intensa e desvairadamente como nenhum libertino jamais viveu no mundo.
(A respeito de Grenouille, em “O perfume”)
Contemporaneamente, no senso comum ou mesmo entre profissionais da área psicológica, o processo terapêutico tem sido muito usado para propósitos de “cura” e/ou de restabelecimento do indivíduo à sociedade no seu lugar anteriormente ocupado.
Machado, Lima e Ferreira (2011), através de uma experiência grupal com nove mulheres entre 20 e 56 anos de idade, mostram como uma experiência grupal de escuta psicológica (evitando uma forma fixa, rígida e imutável) em Gestalt-terapia (referencial teórico que também foi usado neste trabalho), ajudou-as a buscar a superação de modelos de vida da cidade interiorana em que moram (Cariacica – ES) e a inventar novas formas de ser, de estar e de agir no mundo. Ao longo do processo, as participantes demonstraram vontade de mudança e tiveram a oportunidade de “exercitar outros modos de olhar o mundo e a si próprias, experimentar novos sentimentos, procurando aprender com os sintomas” (p. 111).
Timm, Pereira e Gontijo (2011), também em experiência com um grupo de mulheres, mas desta vez vítimas de violência doméstica, mostraram como os serviços de acolhimento psicossocial são bastante limitados – para não dizer que, muitas vezes, aderem a uma lógica normatizadora imposta pela sociedade, não respeitando a singularidade da pessoa – e propuseram uma clínica política para mulheres.
Pelo trabalho de Pereira, Timm e Bessoni (2014), também reconhecemos uma contribuição similar na crítica dos modelos de atenção psicossocial, na medida em que supera os limites de uma abordagem psicologizante, através da escuta no atendimento de mulheres
em seu discurso sobre a violência, na qual se busca, em suas narrativas pessoais, os elementos que não condizem com representações hegemônicas e que podem produzir contra-discursos emancipadores.
Tais iniciativas auxiliam a clínica psicológica a romper com esse modelo biomédico de atendimento, que visa somente à cura, e abarcar outros sentidos para o que pretende ser “terapêutico”.
Vemos com Foucault (1977) que o modelo biomédico de atendimento, o qual visa uma cura para um comportamento ou sintoma, surge com o nascimento da própria clínica em si (muito parecida com a que ainda temos atualmente). Enquanto que as disciplinas diretamente relacionadas a ela, como a Psicologia e a Psiquiatria, propõem um atendimento terapêutico para indesejados males psíquicos, resultando num controle de normatizações de comportamentos e pessoas (tão bem demonstrados em O alienista, de Machado de Assis) que serviram a interesse de terceiros.
O nosso ponto, neste capítulo, não consiste em denunciar certos modos perversos de se fazer psicologia, mas demonstrar como a própria ciência psicológica supera o modelo biomédico de atendimento, voltado apenas à erradicação de sintomas.
Para Polster (2001), a Psicologia, na sua função de psicoterapia, é por demais boa para ser limitada aos “doentes” – não em seu sentido pejorativo, como se convencionou chamar àqueles que freqüentam o consultório psicológico – pois não é usada como “cura” somente, mas também como crescimento pessoal, autodescoberta, formas de se viver mais feliz e etc.
Buscando na ficção literária um exemplo da importância da autodescoberta, vemos o apelo de José Maria para saber mais de si mesmo antes que abandone para sempre o mundo dos vivos (Corção, 2004, p. 168, grifo nosso):
Quem sou eu? Para que a vida tenha sentido, e para que a morte tenha alguma decência, eu preciso saber quem sou, por que vivo, por que morro e por que choro. De que me vale apreender o milhar de
relações do mundo exterior, se não consigo apreender a substancial realidade que me diz respeito? Que me adianta medir a distância do sol e analisar a configuração do átomo de urânio, se desconheço a largura, a altura, a profundidade de meu próprio ser? De que me serve ganhar o universo se ando
perdido de minha alma?
Maciel (2003) afirma que, tomando como papel da psicologia “antes de ela tornar-se uma ciência experimental que identifica e relaciona as variáveis de comportamento no sentido
de sua previsibilidade, replicabilidade e controle, é uma tentativa de refinamento da
experiência humana como autoconhecimento” (p. 38, grifo nosso).
Pereira (2005), ao analisar a cena analítica na sociedade contemporânea a partir da perspectiva dos próprios analisados, traz a perspectiva destes a respeito do seu próprio processo de análise (e aqui não tomamos o papel da análise em si, mas sim enquanto um processo terapêutico geral), mostrando que, apesar de, um dia, terem se dirigido ao analista na busca da cura, talvez imediata ou o mais rápido possível, de seus sintomas, em um segundo momento, tal vontade tornou-se secundária porque se abriu espaço ao prazer da fala e de uma “outra escuta” (p. 48).
Uma de suas entrevistadas relatou que:
“(...) a cena analítica veio a se constituir para mim não exatamente como uma solução para os meus sofrimentos, mas como um problema, um objeto de reflexão sobre o significado daquele encontro, daquele tipo de fala, daquele tipo de relação. Em uma palavra, tornou-se um motivo de estranhamento, de espanto, de admiração” (p. 24).
Chama a atenção essa ruptura com a ideia de que estar submetido a um processo terapêutico tem que, necessariamente, servir para algo imediato – muitas vezes uma demanda que não é da própria pessoa e sim de alguns a sua volta – desviando o foco de outras questões, também importantes e necessitadas de um espaço para se trabalhar:
Apesar de tantas mudanças e do desenvolvimento de tantas técnicas terapêuticas que prometem efeitos curativos rápidos, uma camada da classe média intelectualizada procura a cena analítica. Em um primeiro momento, o móvel é o sofrimento pessoal e a demanda é a de livrar-se dele. Porém, após um certo ponto do processo, alguma coisa muda. Tendo havido cura ou não daqueles sintomas que as levaram à análise, as pessoas aí permanecem. É justamente essa permanência na cena – que parece realizar um movimento suplementar para além da cura, gerando um efeito de outro tipo na existência dessas pessoas – o objeto da minha abordagem. Esse efeito parece ser o de trazer à tona a miséria simbólica a que estão submetidas no mundo atual, o que dá origem à demanda de constituição de uma cena na qual possam entregar-se a uma forma de existência contrária a de seu automatismo cotidiano e cultivar uma posição filosófica de admiração e desestabilização de si mesmas e do que as circunda, coisas que se perdem constantemente no seu cotidiano apressado e pragmático. Assim, uma outra queixa vai-se agregando à queixa inicial de uma vida pessoal sofrida: a de que foi o próprio mundo que se tornou sem encanto, sem poesia, em uma palavra, dessimbolizado (pp. 16-7).
E, mais a frente:
O que salta aos olhos aqui é a ideia de um investimento de tempo em uma atividade que não é regida por uma lógica de produção. Não que os freqüentadores do divã tenham uma vida ociosa; ao contrário, eles passam até a produzir muito mais, depois que entram em análise, até porque esse espaço custa caro. Mas é que a cena analítica torna-se, em suas vidas, uma espécie de parênteses que reverte, durante alguns minutos semanais, o seu percurso cotidiano. Em vez da pressa, a lentidão; em vez das falas concatenadas e atentas da vigília, as falas distraídas e desconcatenadas de um estado mais próximo do sono; em vez da atenção aos limites impostos a si mesmo, uma atitude de abandono, sem controle sobre
o tempo, que é deixado sob os cuidados de um outro, cuja presença se caracteriza por ser, simultânea e paradoxalmente, absoluta e rarefeita (pp. 30-1).
Percebemos, desse modo, como a situação de análise, nesse caso específico, e o processo terapêutico, como um todo, escapa do estigma negativo, por parte das próprias pessoas que usufruem desse espaço, de que a psicoterapia serviria apenas para quem está “doente” (e aqui não entramos na diferenciação do que é normal e do que é patológico). Ao contrário, vêem-na como um espaço para outras possibilidades de existência, conforme demanda de cada um. Não sendo um “processo ‘puramente racional’, esvaziado das paixões, das emoções” (Pereira, 2005, p. 211), mas também um lugar em que o verbal aceita a dimensão afetiva como parte de nossas representações, produzidas a partir de nosso corpo.
Nesta dissertação, buscamos realizar uma atividade baseada no ideal humanista de Rogers (2009), na qual se procura criar condições que promovam a “tendência para o crescimento”, isto é, a ânsia de se ampliar, de se expandir, de se autonomizar, de amadurecer, de se desenvolver, de se expressar e de se liberar.
Na formação do Clube do Livro Identidade, cujo objetivo primeiro é a discussão de obras literárias, as reuniões assumiram o que se poderiam chamar de características de grupo terapêutico, uma vez que, facilitadas por um psicólogo, as reuniões permitiram a autoexpressão de ideias e sentimentos, um maior autoconhecimento e acréscimos interpretativos pessoais à obra em questão.
CAPÍTULO 4 – REFERENCIAL PARA CONDUÇÃO E INTERVENÇÃO NO CLUBE