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Kapittel 5: Konklusjon – Forsvaret fra fagmilitært domene til politisk ”hot spot”

5.2 I hvilken grad skjedde det en maktforskyvning?

Na esfera produtiva, o binômio taylorismo-fordismo25 caracteriza-se centralmente pela produção em série/massa, alta divisão/fragmentação do trabalho no interior de cada indústria, elevado controle de tempo e movimento laboral e dicotomia entre planejamento- execução na produção (ANTUNES, 2005a). Em linhas gerais, “baseava-se na produção em massa de mercadorias, que se estruturava a partir de uma produção mais homogeneizada e enormemente verticalizada” (ANTUNES, 1999, p. 36), com controle científico-gerencial e crescente simplificação/fragmentação do trabalho.

A efetivação do taylorismo-fordismo como organização produtiva dominante em escala global ocorreu pós-1945. Esse processo foi consequência de movimento histórico conturbado com a conjugação de um conjunto de fatores inerentes ao desenvolvimento do capitalismo, que elevou o binômio, além de organização do trabalho na esfera produtiva, para o âmbito geral da organização social (política, econômica e cultural) e consolidou-o, associado às teses keynesianas, como um regime de acumulação (HARVEY, 2007).

Como demonstra Kuenzer (2004), o trabalho fordista exigiu uma determinada concepção de mundo, a rigidez e a hierarquia da fábrica moldavam o comportamento humano. Para preparar/conformar os trabalhadores aos desígnios expropriatórios, os sistemas de ensino deveriam ajustar-se ao modelo vigente. Para a autora isso consolida projetos pedagógicos dualistas e fragmentados. O objetivo educacional central consistia em atender às demandas de formação de trabalhadores e administradores com uma explícita segregação entre as ações intelectuais e instrumentais26.

[...] a base taylorista/fordista originou tendências pedagógicas que, embora privilegiassem ora a racionalidade formal, ora a racionalidade técnica nas versões sempre conservadoras das escolas tradicional, nova e tecnicista, sempre se fundamentaram no rompimento entre pensamento e ação. (KUENZER, 2004, p. 83).

25 As inovações organizacionais e tecnológicas consolidadas na primeira metade do século XX foram resultados

de tendências já em curso (BRAVERMAN, 1980; HARVEY, 2007; PINTO, 2010). Desse modo, a égide taylorista-fordista, para além de invenções de Taylor e Ford, é resultado do controle histórico capitalista sobre a produção.

26 Ao observar a organização da educação brasileira a partir da criação Ministério da Educação, 1932, até as leis

5.540/1968 e 5.692/1971, é perceptível como a expansão do ensino às camadas populares se dá com ênfase na profissionalização. O ápice desta focalização técnico-instrumental é a obrigatoriedade do ensino de 2º grau (atual ensino médio) ser profissionalizante, fato decretado pela Lei 5.692/1971, revogada pela Lei 9.394/1996.

Em linhas gerais, podemos sintetizar as características do objetivo formativo da produção taylorista/fordista em: a) Ensino técnico-instrumental para a massa dos trabalhadores e formação intelectual para um pequeno grupo de controladores da produção, já que de acordo com as necessidades da produção os trabalhadores recebem os ensinamentos técnicos; b) Ensino propedêutico e científico, com poucas exceções, restrito à classe dominante e aos planejadores da produção; c) Fragmentação curricular: o conhecimento é tido como disciplinar e com pouca ligação entre as distintas ciências; d) Elevada padronização dos processos formativos, expresso em cursos, metodologias, currículos e avaliação. Há uma ênfase em modelos hierarquicamente estabelecidos, os quais preconizam uma aprendizagem homogênea, em massa (conforme o regime de produção); e) Formação especializada: o objetivo central é adestrar os trabalhadores para o exercício de funções isoladas e específicas. Todos esses fundamentos manifestam-se tanto na formação quanto no trabalho docente, devendo seguir a mesma lógica (racionalista-fragmentária) da esfera produtiva (KUENZER, 2004).

De certa forma, no âmbito da educação superior, o regime de acumulação imputava a existência de dois grandes modelos de educação superior, o humboldtiano e o napoleônico. Por um lado, mantinha-se a concepção de universidade tendo como centro a produção do saber propedêutico e autônomo que concebe a sua função a partir da indissociabilidade entre ensino e pesquisa, ou seja, o modelo germânico/humboldtiano (SGUISSARDI, 2004). Tratava-se da formulação clássica de universidade com forte apego à busca pela verdade, sendo a investigação, a pesquisa seu principal objetivo. Como destaca Santos (1999), tal modelo, desde o final do século XIX, apresentava-se desarmônico às exigências sociais impostas pelo capital liberal (que exigia formação mais prática aos interesses produtivos).

Em função das demandas capitalistas, buscando aproximar a vinculação da universidade com a produção material, proliferou-se também a concepção instrumental- pragmática de educação superior, formada a partir da junção de faculdades isoladas de formação profissional (o modelo napoleônico)27. De modo geral, ambos os modelos estiveram hegemonicamente, durante o apogeu fordista, limitados à classe dominante e, principalmente o segundo, à pequena fração da classe trabalhadora (SANTOS, 1999) – em que pese o processo de resistência e luta dos trabalhadores pelo acesso a todos os níveis de ensino.

27 Sguissardi (2004) destaca que o Brasil tem suas primeiras universidades, a partir da década de 1920,

De fato, ambos os modelos estavam, em última instância, controlados pela lógica burguesa. A universidade de pesquisa constituía-se em instrumento fundamental para a produção de conhecimentos e, por conseguinte, avanços científico-tecnológicos (por isso também o interesse do capital com tal modelo, principalmente na área das engenharias, que produz conhecimentos úteis ao mercado capitalista). A “universidade de ensino” seria também fundamental para responder às demandas mais pragmáticas, diretamente vinculadas às mudanças produtivas, para auxiliar na formação de mão-obra e acompanhar o avanço científico-tecnológico da indústria. Como veremos adiante, com a decadência do regime fordista, a vinculação da educação superior com a produção capitalista deverá ser estreitada.

Observemos que o regime de acumulação taylorista-fordista impulsionou o crescimento econômico, em escala planetária, do capitalismo até meados da década de 1970. Isso pressupôs a consolidação de um “pacto social” (entre o Estado, capital e trabalho)28, e ocorreu em contexto de expansão do mercado consumidor. A reconstrução de economias centrais (na Europa e Japão) no pós-guerra e o processo de industrialização tardia em alguns países periféricos como o Brasil (na busca por força de trabalho a menor custo) possibilitaram o crescimento do mercado. Tudo com aval da política imperialista dos Estados Unidos, utilizando instrumentos político-econômicos e militares.

Como destaca Harvey (2007), o processo conflituoso de consolidação do fordismo como regime de acumulação era atenuado pelo crescimento econômico, com grande controle das crises capitalistas. Entretanto, já na década de 1960, o regime dava sinais de esgotamento. A saturação dos mercados, com a reconstrução das economias devastadas na 2ª Guerra Mundial e a efetivação da industrialização tardia de alguns países periféricos, somado às reivindicações/conquistas laborais (ANTUNES, 1999), eram sinais de que o “pacto” precisaria ser rompido. A partir da década de 1970, o crescimento econômico taylorista- fordista entrou em decadência. Dentre os elementos que levaram a esse esgotamento destacam-se a) a queda da taxa de lucro em função do excesso de produção em relação ao consumo; b) a elevação no preço do petróleo com aumento dos custos produtivos (capital constante) e c) a ampliação de direitos trabalhistas e dos salários (capital variável) nos países mais industrializados.

28 “O Estado teve de assumir novos (keynesianos) papéis e construir novos poderes institucionais; o capital

corporativo teve de ajustar as velas em certos aspectos para seguir com mais suavidade a trilha da lucratividade segura; e o trabalho organizado teve de assumir novos papéis e funções relativos ao desempenho nos mercados de trabalho e nos processos de produção. O equilíbrio de poder, tenso, mas mesmo assim firme, que prevalecia entre o trabalho organizado, o grande capital corporativo e a nação-Estado, e que formou a base de poder da expansão de pós-guerra, não foi alcançado por acaso – resultou de anos de luta.” (HARVEY, 2007, p. 125).

Na lógica burguesa, essa decadência foi tida como consequência da rigidez fordista. A crise econômica é “entendida” como resultado do modelo produtivo rígido, incapaz de acompanhar as demandas do mercado em permanente mutação (HARVEY, 2007). Desse modo, ao “ignorar” o caráter estruturalmente contraditório da produção capitalista, os apologetas do capital indicam a necessidade de modificações no regime de acumulação e, fundamentalmente, na organização do trabalho, para recuperar a lucratividade da era de ouro do capital29.

Na superfície, essas dificuldades podem ser melhor apreendidas por uma palavra: rigidez. Havia problemas com a rigidez dos investimentos de capital fixo de larga escala e de longo prazo em sistemas de produção em massa [...]. Havia problemas de rigidez nos mercados, na alocação e nos contratos de trabalho [...]. E toda tentativa de superar esses problemas de rigidez encontrava a força aparentemente invencível do poder profundamente entrincheirado da classe trabalhadora [...]. A rigidez dos compromissos do Estado foi se intensificando à medida que programas de assistência (seguridade social, direitos de pensão etc.) aumentavam sob pressão para manter a legitimidade num momento em que a rigidez na produção restringia expansões da base fiscal para gastos públicos. [...] Por trás de toda a rigidez específica de cada área estava uma configuração indomável e aparentemente fixa de poder político e de relações recíprocas que unia o grande trabalho, o grande capital e o grande governo. (HARVEY, 2007, p. 135-6).

A rigidez produtiva taylorista-fordista, e todo aparato social que lhe sustentava, responsável pela recuperação econômica pós-crise de 1929, com crescimento extraordinário pós-1945, passa a ser concebida como elemento impedidor do crescimento econômico pós- 1970. Esgotava-se ao mesmo tempo o regime de acumulação taylorista-fordista, o pacto social que lhe sustentava, e, fundamentalmente, a organização rígida do trabalho. Em suma, o modo de produção capitalista entrava em mais um momento de profunda crise.

Diante desse quadro, os defensores do capital enfatizam que a recuperação da economia capitalista passa fundamentalmente por ajustes político-econômico-sociais que adéquem a produção às novas demandas do mercado. Seria necessário instituir mecanismos flexíveis para superar a crise do regime rígido. Nessa perspectiva, tratava-se, então, de mais um processo de enfrentamento a uma nova crise conjuntural do sistema capitalista, exigindo apenas a adoção das medidas corretas para superá-la.

Nesse processo, é exaltada a centralidade do conhecimento como elemento fundamental para ultrapassar as intempéries do sistema socioeconômico vigente. O papel da universidade (com base no tripé ensino-pesquisa-extensão) e, fundamentalmente, o seu “distanciamento” do mundo produtivo são elementos que aprofundam a crise do mundo do

trabalho. Com isso, como alertam Ferreira e Oliveira (2011, p. 40) “o papel social da universidade vem ganhando significativa centralidade, ao ser exigida uma nova relevância social [...] e, enfatiza-se, a perspectiva das suas finalidades sociais frentes as demandas econômicas”.

Como destacam Machado & Bianchetti (2011), em escala mundial é no final da 2ª Guerra Mundial que se registra a primeira aproximação direta entre economia, governo, ciência e universidade, com a tendência adotada pelo governo Roosevelt nos EUA30. Esses autores ainda destacam que, nas décadas posteriores, o conhecimento científico, assim como a defesa da educação das massas, será considerado elemento preponderante no desenvolvimento dos países, assentados na Teoria do Capital Humano, conforme formulação de Schultz (1973). No Brasil, especialmente no âmbito da Pós-graduação, que se consubstanciou em lócus de formação de pesquisadores, essa aproximação da universidade com o mercado/economia ocorreu a partir da última década do século passado, no contexto da contrarreforma da educação superior31 (MACHADO & BIANCHETTI, 2011).