Ao se buscar informações sobre um lugar é comum a curiosidade sobre o cenário que o visitante vai encontrar ao chegar ao destino desejado. Nesta Formação Discursiva foram identificados trechos com detalhes sobre paisagens naturais, ritmos das cidades, descrições das ruas e detalhes arquitetônicos. Não se trata apenas do aspecto físico, mas da qualificação que o destino tem para oferecer ao visitante.
Flores & Mendes (2014) defendem que “o destino turístico deverá ser entendido e interpretado essencialmente como um sistema criado e desenvolvido na mente do turista” (p. 232). Para que isso seja possível, é preciso que seja feita a descrição para que o leitor possa, então, imaginar o destino turístico.
As paisagens naturais e as possibilidades de atividades são exemplificadas os trechos a seguir:
Com uns 300 metros de comprimento e uns 30 de largura, permanece como uma das praias mais encantadoras de Ibiza, com as suas areias finas, as suas águas de um azul turquesa e ideais
para crianças, os seus desportos aquáticos, agitada e muito procurada no Verão, tranquila e
solitária no Inverno — se caminhar para a sua esquerda, de frente para o mar, terá fortes probabilidades de ver um ou outro hippie andando sobre as rochas, ao encontro da gruta onde vivem, desprovidos de todos os confortos que o Cala Bassa Beach Club proporciona a turistas
que não têm qualquer problema em pagar 30 euros por um hambúrguer. (SD31; FD5; T1; grifo
nosso)
Bordejada de pinheiros, tem alguma ondulação nos dias mais ventosos e oferece um conjunto de actividades (aluguer de catamarã e caiaque, por exemplo) que não raras vezes retiram tranquilidade a um lugar sereno nos meses de Inverno e perfeito para caminhadas. (SD58; FD5; T1; grifo nosso)
Por toda a duna vêem-se cardos marítimos, com o seu verde seco, flores roxas e folhas bem recortadas que terminam em picos. (SD94; FD5; T2)
A descrição da praia na Sequência Discursiva 31 não apenas apresenta a descrição física, mas também a qualifica como um destino de verão. A partir do que é apresentado pelo repórter, compreende-se que é um local adequado para famílias e que, por ser “muito procurada” nos meses de calor, não deve ser fácil encontrar um espaço disponível quando as temperaturas estão elevadas. Para além disso, também qualifica a praia como um local para quem tem determinado poder aquisitivo, ao revelar o preço de um hambúrguer em conjunto com a expressão “não têm qualquer problema em pagar”, que indica que é um valor mais elevado do que o de costume.
Já o relato apontado na Sequência Discursiva 58 qualifica esta praia como um local que aparenta ser comumente frequentado por quem pratica esportes. Enquanto isso, quem visita as dunas
através da Sequência Discursiva 94 está destinado a vivenciar uma atividade em total contato com a natureza e a sua diversidade em contraste com os “picos” de areia.
Para além da paisagem descrita pela natureza, o cenário das cidades também é detalhado no suplemento Fugas.
Ao lado corre o rio Bambovita, aqui mais como um canal quase tapado pelas árvores que se alinham na avenida; ao fundo vemos edifícios cujas luzes se acenderão daqui a pouco, o arco azul de uma pequena ponte, mais atrás chaminés de fábricas. (SD168; FD5; T4)
(...) em poucas centenas de metros passamos por um palácio real neoclássico, avançamos para a antiga sede do partido comunista, puro classicismo soviético, diante da qual se encontra uma pequena igreja de estilo bizantino (...) (SD180; FD5; T4)
De volta à rua pedonal, com as suas casas de múltiplos matizes, amarelos, rosas, laranjas, verdes, azuis, vou perscrutando igrejas (a população é maioritariamente católica em Shkodër) e mesquitas, até que abandono o centro e tento chegar, à boleia, à Ura e mesit, uma bonita ponte na aldeia de Mes, com todo o cenário rural e pitoresco que a envolve. (SD271; FD5; T5)
A cidade cresceu para cima, em andares de enormes prédios virados para o mar. Entramos em Benidorm por ruas ladeadas por palmeiras, onde os cartazes e painéis iluminados fazem um percurso ao longo dos passeios, como que delimitando uma pista turística a percorrer: hotéis, casinos, parques aquáticos. (SD320; FD5; T6)
Descrever a cidade é uma forma de apresentá-la ao leitor. Cada pessoa tem um tipo diferente de preferência sobre o estilo do destino turístico que procura e qualifica-lo é uma maneira de representar o que o leitor vai encontrar se decidir, de fato, conhecê-lo pessoalmente. Enquanto a Sequência Discursiva 168 apresenta uma cidade que mescla a natureza com o cenário industrial, a Sequência Discursiva 180 representa a diversidade de regimes políticos através da identificação dos prédios citados. A Sequência Discursiva 271 distingue o local como uma região com diversidade religiosa e a Sequência Discursiva 320 caracteriza a cidade citada como amplamente edificada.
Reproduzir as edificações através de palavras também é uma maneira de colocar o leitor “dentro” dos prédios, situando-o conforme a narrativa.
Bem próximo do palácio do GrãoMestre, encontra-se a igreja Conventual de S. João, declarada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, um dos monumentos mais importantes da ilha de Malta. No seu interior, construído maioritariamente à base de mármore de Carrara, estão os túmulos da nobreza europeia do século XVI, nem mais nem menos do que 375 cavaleiros enterrados sob o solo da sala principal. O altar central é uma soberba peça em lápis-lazúli, uma capela dedicada à coroa catalã-aragonesa e, ainda dentro do templo, numa sala especialmente acondicionada, um dos mais valiosos tesouros da religião — um Caravaggio de 1608 que retrata a execução de São João. (SD512; FD5; T12)
O principal santuário do dente sagrado, um edifício rectangular de dois andares conhecido como Vahahitina Maligawa, ocupa a zona central de um pátio empedrado, sob um tecto dourado que aprisiona todos os olhares e que foi pago graças aos donativos de japoneses. (SD542; FD5; T14)
A importância histórica de conhecer a Igreja Conventual de São João é apresentada na Sequência Discursiva 512, ao mesmo tempo em que descreve o diferencial que o visitante vai encontrar, com os túmulos dos cavaleiros e as minúcias do altar central. Na Sequência
Discursiva 542 também se expõe detalhes para que o leitor possa imaginar o cenário. Usar termos como “rectangular”, “pátio empedrado” e “tecto dourado” auxiliam o leitor a relacionar com o imaginário, de maneira a ter referências sobre o que está a ser identificado. O suplemento Fugas apresenta não somente a descrição do local, mas do fluxo de pessoas que por ele passam.
Todos os sábados de manhã, as ruas que circundam o mercado ficam cheias de pequenos
agricultores que vêm de todo o concelo para vender os seus produtos. (SD145; FD5; T3; grifo nosso)
Na Rua Mercado de Levante, por trás da estação rodoviária, sente-se a agitação bem cedo
(abre às seis da manhã). Para além dos legumes e frutas, do mel e das azeitonas, há patinhos
bebés e codornizes dentro de gaiolas. (SD154; FD5; T3; grifo nosso)
Relatar o movimento de pessoas nos locais ajuda o visitante a se programar sobre o horário mais adequado para agendar uma visita. Nas Sequências Discursivas 145 e 154, por exemplo, o repórter enumera os momentos de maior fluxo de pessoas, os quais compreendem-se coincidir com a presença de mais feirantes nos Mercados, ou seja, maior oferta de produtos. Assim, o visitante sabe que estes são os melhores dias e horários para fazer compras, mas que talvez não sejam as melhores opções para quem deseja apenas dar uma olhada rápida e tirar algumas fotografias.