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I DEA W ORK – IDÈARBEID OG KREATIVITET

In document På vei mot en saksbehandler (sider 11-0)

Paulo Freire exerceu plenamente sua capacidade criadora e conseguiu ultrapassar as barreiras da mediocridade de uma vida inerte e de acomodação. Assim, Freire desafia a olhar. “Olhar vendo. Olhar sentindo. Olhar desvelando, Olhar transcedendo. Olhar ousando ir além do que se encontra diante de nossa visão limitada ou distorcida”. Desvela, desse modo, sua vocação ontológica “de ultrapassar limites”, na contínua busca da realização, movido pela consciência do inacabado e convicto de sua potencialidade para transformar e superar desafios presentes no contexto histórico do cotidiano (SILVA, 2006, p. 84).

Sua liderança ativa no movimento de alfabetização, na década de 1960, chegando a alfabetizar 300 adultos em 45 dias, despertando-os a partir da leitura da palavra a leitura do mundo, concorreu para seu exílio. Seu distanciamento do Brasil repercutiu na disseminação de suas sementes de denúncia-anúncio, mote de suas idéias alicerçadas na dimensão dialética da realidade, em diversas pátrias. Também no Brasil, mesmo sem sua presença física, seus conhecimentos continuaram a ser propagados. Diante do caminho percorrido por Freire, com trabalho árduo e determinado, manteve-se íntegro aos seus ideais, conquistando um reconhecimento internacional (SILVA, 2006).

O legado semeado pelo Educador pernambucano, não se limita ao trabalho com a alfabetização de adultos, e essa compreensão é essencial para que se evitem a fragmentação e a descontextualização de seu pensamento. Freire percebia seu trabalho muito mais como uma Teoria do Conhecimento do que metodologia de ensino, que se identifica bem mais com um método de aprender do que um método de ensinar (SILVA, 2006).

Encontro nos estudos desenvolvidos sob a orientação de Barroso uma identificação com os pressupostos freireanos, dos quais destaco, a ênfase de que é necessário que a educação possibilite o homem ser sujeito, constituir-se como indivíduo, estabelecer relações de reciprocidade, fazer cultura e história (MIRANDA; BARROSO, 2004).

Ao investigar acerca da propagação dos pensamentos de Paulo Freire no âmbito internacional com inserção na área da saúde, destacaram-se, entre outros, duas pesquisadoras - Minkler Meredith e Nina Wallerstein - que aplicaram os conhecimentos freireanos com enfoque na Educação em Saúde, apresentando publicações desde 1980 e 1987, respectivamente, trabalho que foi consolidado paulatinamente por ambas até os dias atuais (MINKLER; COX, 1980; WALLERSTEIN, 1987).

Meredith Minkler, PhD, é professora de Health and Social Behavior na School of Public Health, University of Califórnia at Berkeley e Nina Wallerstein é professora no Department of Family, Community, end Emergency Medicine, University of New Mexico School of Medicine. Ao longo dos anos, elas aprofundam estudos associando os pressupostos freireanos, como: participação, diálogo, consciência crítica, acesso a conteúdos articulados à realidade, o conhecimento como instrumento de possibilidades e de liberdade, valorização do saber popular, autonomia para realizar suas escolhas e caminhos; como fundamentos mobilizadores de uma complexa estratégia de “empowerment” (WALLERSTEIN; AUERBACH, 2004).

O conceito de constitui um dos núcleos filosóficos e uma das estratégias-chave da nova promoção da saúde como projeto que almeje a transformação do statu quo sociossanitário de um país. A palavra é utilizada em sua língua de origem pela inadequação no emprego de vernáculo em português com o mesmo significado. Na intenção de apreender um entendimento mais genérico deste termo, é apresentado por Carvalho (2005, p.62) como, “um processo, e ao mesmo tempo, um resultado de ações que afetam a distribuição de poder”, por possibilitar “que indivíduos e coletivos se preparem para responder, de maneira criativa, aos desafios biopsicológicos da vida social”.

Com o intuito de aprofundar reflexões, é destacada a divergência entre os que colocam a melhoria da saúde como objetivo final, enquanto, para outros, a saúde é um meio para alcançar a meta de justiça social (ROBERTSON; MINKLER, 1994).

A abordagem de ensino do Círculo de Cultura de Paulo Freire (BRANDÃO, 2005), constitui uma idéia que substitui a de ‘turma de alunos’ ou de ‘sala de aula’. A escolha por desenvolver um Círculo de Cultura, visa ensejar uma vivência participativa com ênfase no diálogo, campo profícuo para a reflexão-ação na elaboração coletiva de uma proposta sistematizada para uma educação em saúde emancipatória.

A denominação de Círculo culmina porque todos estão à volta de uma equipe de trabalho que não tem um professor, mas um animador de debates que participa de uma atividade comum em que todos se ensinam e aprendem. A maior qualidade da equipe de trabalho é a participação ativa em todos os momentos do diálogo (BRANDÃO, 2005).

Para Freire, o processo dialogal encontra na cultura o embasamento necessário para compreender no trabalho participativo uma produção de modos próprios e novos, solidários e coletivos de pensar, fomentando um aprendizado por todos juntos, e aquilo que constroem é outra maneira de fazer a cultura que os faz, por sua vez, homens, sujeitos, seres de história, palavras e idéias-chave (BRANDÃO, 2005).

É a conseqüência de uma reflexão que o homem começa a fazer sobre sua capacidade de refletir; a cerca de sua posição no mundo; sobre seu trabalho; a respeito do seu poder de transformar o mundo; no tocante ao encontro das consciências. O trabalho de problematização de uma realidade que a todos envolve deve conduzir o grupo à reflexão. A participação envolvia presença, criação de espaços de reflexão da ação popular troca de conhecimentos, oferta de informações necessárias ao povo, produção de grupos populares de apóio.

Assim Brandão (2005, p.103-4) apresenta em sua leitura do mundo o entendimento que:

Do mesmo modo como o homem depende da natureza para sobreviver e a natureza depende do homem para ter sentido, os homens dependem uns dos outros para sobreviverem e darem sentidos ao mundo e a si mesmos. Por isso mesmo, o diálogo não é só uma qualidade do modo humano de existir e agir. Ele é a condição deste modo e é o que torna humano o homem que o vive.

Círculo de Cultura é um grupo de trabalho, de pensar juntos, em equipe, com um animador de debates que participa de uma atividade comum em que todos se ensinam e aprendem, ao mesmo tempo. A maior qualidade desse grupo é a participação em todos os momentos do diálogo, que é o seu único método de estudo nos círculos. É de cultura, porque os círculos extrapolam o aprendizado individual, produzindo também modos próprios e renovados, solidários e coletivos de pensar (DAMASCENO, 2003).

O desenvolvimento do trabalho com aplicação do Círculo de Cultura requer que o pesquisador(a) esteja atento para o que se fala. As falas, as conversas, as frases, entrevistas, discussões, dentro ou fora do círculo, tudo está carregado dos temas da comunidade, seus assuntos, sua vida (FREIRE, 1983).

Tomando por princípio norteador o delineamento do "Método Paulo Freire" (LIMA, 1979), o desenvolvimento do Círculo de Cultura consiste de três momentos:

a) a investigação temática, pela qual aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia;

b) a tematização, mediante a qual eles codificam e decodificam esses temas; ambos buscam o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido; e

c) a problematização, por meio de que eles buscam superar a primeira visão mágica por uma visão crítica, partindo para a transformação do contexto vivido.

Constituindo uma estratégia da educação libertadora, o Círculo de Cultura é um lugar onde todos têm a palavra, onde todos lêem e escrevem o mundo. É um espaço de trabalho, pesquisa, exposição de práticas, dinâmicas, vivências que possibilitam a elaboração coletiva do conhecimento. Neste momento, serão ensejadas a apresentação dos participantes e informações sobre a organização e funcionamento do Círculo (FREIRE, 1999).

A técnica proposta por Freire consiste em fazer o conhecimento decorrer de uma substituição de elementos reais por elementos simbólicos: primeiro, figurados (cartazes), depois, verbalizados oralmente (discussão), para, finalmente, chegar à fase de sinais escritos padronizados – leitura (LIMA, 1979).

Em consulta à Biblioteca Virtual em Saúde, tendo como base de dados a Lilacs e utilizando as palavras círculo e cultura, foram identificados apenas três estudos - todas dissertações de mestrado apresentadas ao Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Uma das pesquisas aplicou o Círculo de Cultura com três famílias com história de alcoolismo (DINIZ, 1997); na outra, a vivência dos Círculos ocorreu com um grupo de enfermeiras-docentes para trabalhar a percepção destas a respeito da prática pedagógica que desenvolviam no ensino da Assistência de Enfermagem (GIORGI, 1997). O terceiro teve como sujeitos do estudo nove alunos, que trabalharam nos Círculos temas geradores relacionados ao processo ensino-aprendizagem (BRITO, 1997). Nos três estudos foram estimuladas na realização dos Círculos a consciência crítica, a construção participativa do conhecimento e as propostas de mudança, recomendando a realização do Círculo de Cultura em grupos de docentes e/ou docentes/discentes.

Destaco, ainda, dissertação fundamentada em Paulo Freire desenvolvida também por enfermeira e apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Como pesquisadora-animadora, a autora aplicou Círculos de Cultura com sujeitos portadores de Diabetes melitos tipo 2, rompendo com a tradição

autoritária e normatizadora da relação entre os serviços de saúde e a população. Os resultados apontaram para mudanças significativas de hábitos, atitudes e costumes no cotidiano de suas vidas. Além disso, evidenciou-se o fato de que, por intermédio da prática pedagógica os portadores do diabetes melitos vivenciaram uma afetividade entre os participantes do grupo, o que contribuiu para elevar sua auto-estima (DAMASCENO, 2003, p.50). Verifica-se a necessidade de acesso do(a) enfermeiro(a) aos conhecimentos que estruturam a proposta metodológica na educação de adultos por meio do Círculo de Cultura proposto por Freire, para dar ensejo a possibilidades e transformações nas ações de Educação em Saúde.

A reduzida produção de teses e dissertações nas áreas da saúde com aplicação do Círculo de Cultura vem reforçar a relevância da aplicação deste método de ensino e do estudo ora focalizado.

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