Ao nos deter na forma não pura dos elementos masculinos e femininos, já integrados no menino e na menina saudável, teremos como foco de atenção a instintualidade que está sendo elaborada no interior das relações triangulares.
Na descrição do amadurecimento humano, Winnicott observa que o homem vai se tornando cada vez mais ele mesmo, ou seja, com maior preponderância do elemento masculino, enquanto a mulher torna-se cada vez mais três em uma – o bebê fêmea, a noiva com véu e a mulher de idade-anciã –, com maior preponderância do elemento feminino. No elemento feminino puro se observa uma busca pelo amor primitivo, enquanto no elemento masculino puro a busca destas raízes pré-genitais está ausente. Como esses elementos aparecem misturados em meninos e meninas saudáveis Winnicott determina variáveis que devem ser levadas em consideração para compreender a maior preponderância em um elemento: a questão da hereditariedade, as influências ambientais no setting pessoal e os padrões culturais gerais.
Na elaboração do elemento feminino nos meninos, por exemplo, existe a capacidade de se identificar com a mulher em relação à genitalidade feminina ou em relação ao seu papel de mãe. A segunda identificação é mais aceita culturalmente, sendo também menos disrruptiva, pois diz respeito a um tipo de fantasia e não à localização de uma função corporal, como acontece no primeiro tipo de identificação com a mulher em sua genitalidade feminina.
Na identificação do menino com o papel da mãe encontra-se um aspecto da homossexualidade e do erotismo anal que, na homossexualidade, manifesta um deslocamento das excitações para o ânus. Sobre os elementos masculinos e femininos em meninos e meninas, o autor afirma que:
É comumente aceito que há uma bissexualidade em todos os seres humanos, especialmente quando a fantasia é concernida, e na capacidade para identificação. O principal fator que determina o caminho que a criança cresce é o sexo da pessoa amada pela criança na idade crítica, isto quer dizer no período que agora está sendo considerado, depois da infância e antes do período de latência. É extremamente conveniente quando a sexualidade da criança se desenvolve principalmente a partir do aparato corporal, quer dizer, quando o menino é primordialmente masculino e a menina é primordialmente feminina (Winnicott, 1988, p. 48).
Por outro lado, a sociedade ganha em tolerar a homossexualidade, tanto quanto a heterossexualidade, pois há, para o autor, um valor no fato de o menino ter uma forte identificação com a mãe, apesar de ser socialmente esperado, também, que ele demonstre mais o elemento masculino.
Nas meninas também é tolerado e até incentivado o aparecimento de identificações a partir do elemento masculino. Existe, no entanto, como já referido anteriormente, uma regressão muito maior ao pré-genital, por causa da preponderância do elemento feminino. Engravidar e ter um seio capaz de alimentar é um problema que exige um desenvolvimento futuro, que só pode ser aceito no brincar e no sonhar que, nas meninas, se associa à idéia de uma capacidade de identificação com a mãe e com a mulher. Winnicott aponta que nas culturas em que esses aspectos são privilegiados, a capacidade para identificar o menino que há na menina é ausente. Contudo “os elementos masculinos e femininos estão sempre presentes” (ibid., p. 44).
No elemento feminino, em meninos e meninas, como já vimos, ocorre uma tendência de regressão à pré-genitalidade, enquanto na natureza do elemento masculino está a necessidade do encontro com o outro que não seja uma mera projeção, mas um encontro com suas características próprias.
Com esta consideração, afirmamos que faz parte da normalidade do adulto, e também da criança edípica, usar de todas as maneiras as excitações corporais no jogo sexual, inclusive as pré-genitais. Todavia, essas maneiras podem apontar para uma anormalidade se aparecerem de forma compulsiva, excluindo a genitalidade. Tal
comportamento sexual se constituirá numa perversão que tem sua origem no desenvolvimento emocional infantil, na qual podemos tanto o medo do desenvolvimento sexual maduro, quanto a busca de “satisfação de modos mais primitivos” (Winnicott, 1957, p. 154).
Winnicott nos mostra que no desenvolvimento da sexualidade nada se perde. Assim como em qualquer outro aspecto do amadurecimento, tudo é passível de ser usado como conquista do processo, porém, quando há um comportamento regressivo rígido, isto impede a sua continuidade que ruma para a conquista de uma genitalidade madura.
Assim, é visível que o sonho ou o jogo que busca pelas questões pré-genitais e pela maternagem são relativos ao elemento feminino, e machucam menos do que o brincar do tipo elemento masculino. O elemento masculino, em meninos e meninas, chama pela genitalidade que traz os conflitos inerentes das relações três corpos, enquanto as brincadeiras do tipo elemento feminino evocam a maternagem e estão livres dos conflitos edípicos. Essas últimas chamam pelo colo e pelo cuidado mais básico.
Nesta fase edípica, os elementos masculinos e femininos não puros participam na determinação da escolha de objeto no momento crítico das relações triangulares. Essa identidade pessoal não depende estritamente da instintualidade, ou seja, das zonas de prazer elaboradas imaginativamente. Melhor seria dizer que essa identidade pessoal depende, de um lado, das impressões subjetivas fincadas em uma raiz não sexual e, de outro, de uma impressão objetiva da realidade com participação dos instintos onde a criança deseja ser amada genitalmente. Essas impressões estão sempre presentes na vida da criança que está elaborando sua instintualidade genital e sua posição dentro do triângulo.
3.3.1 As identificações cruzadas
Nas identificações cruzadas Winnicott postula a importância do triângulo homossexual, ao lado do triângulo clássico. Nos meninos, por exemplo, embora haja, muitas vezes, o desejo de se casar com a mãe e dar-lhe filhos, há um amor que freqüentemente pode ser maior pelo pai do que pela mãe. Winnicott diz: “(...) ao mesmo tempo em que o relacionamento heterossexual é vitalmente importante, o relacionamento homossexual sempre existe e pode ser relativamente mais importante do que o outro” (ibid., p. 151). E continua: “(...) a criança normalmente se torna
identificada com cada um dos pais, mas a qualquer momento, principalmente com um deles, a figura parental não precisa ser do mesmo sexo da criança” (ibid., p. 151). Isto torna relativa à importância do triângulo clássico e gera outras compreensões do triângulo homossexual.
Há, em todas as crianças, uma capacidade de identificação com a figura parental do sexo oposto, entretanto, há uma conveniência em se identificar com a figura do mesmo sexo determinada pela própria constituição corporal, porém essa identificação nem sempre acontece e não deve ser entendida, a priori, como uma anormalidade. Dias escreve: “Para que seu processo identificatório transcorra de forma saudável, o ideal é que ela (a criança) se identifique com o genitor do mesmo sexo, mas não se pode postular um desenvolvimento não saudável se ela se identificar com o genitor do sexo diferente do seu” (Dias, 1998, p. 134).
Winnicott considera errado diagnosticar tal identificação como uma anormalidade, já que muitas crianças, nesta posição, só estão esperando a hora de se identificarem com o sexo oposto na relação triangular. Tal fenômeno, no Édipo, pode ser parte da vivência e da elaboração saudável, ainda que essa situação, conhecida por identificações cruzadas, pode ser à base de tendências homossexuais anormais.
No período de latência, as identificações cruzadas serão importantes para definir um padrão de comportamento que reaparece na adolescência e na vida adulta. Winnicott nomeia este fenômeno de “re-duplicação”, que pode ser tanto dos fenômenos saudáveis quanto dos patológicos. As identificações cruzadas, portanto, podem definir um tipo de defesa homossexual na neurose. Esta defesa pode ser tanto patológica, quanto pode definir “a base da saúde sexual” (Winnicott, 1957, p. 151).