É significativo notar que em 1960, ano da inauguração de Brasília, da população de 140.164 habitantes do Distrito Federal, 52% não resi- diam no projeto de Lucio Costa25. Esse dado é fundamental para que se compreenda o desenvolvimento de Brasília enquanto cidade e como sua conformação se deu, desde os primórdios, num padrão disperso, fragmentado e fortemente marcado por questões socioeconômicas, alimentado também pelos princípios desenvolvidos no âmbito do
25 (Schlee, 2014)
Movimento Moderno.
Em 1956 já havia começado o recrutamento de mão-de-obra para a construção da cidade, o que avolumara rapidamente o fluxo de migran- tes para a região em busca de trabalho26. De acordo com o geógrafo Aldo Paviani:
Os operários foram para alojamentos dos canteiros de obras e barracos em favelas localizadas em pontos isolados, sobretudo nos arredores da Cidade Livre (Núcleo Bandeirante). Com Taguatinga, em 1958, abriu-se espaço para a primeira cidade-satélite. Para ela, foram transferidos milhares de operários e fave- lados, muitos com relutância, pois morariam distan- te dos locais de trabalho no Plano Piloto. (Paviani, 2010, p. 235)
O acelerado fluxo de populações advindas de migração com o objeti- vo de encontrar emprego fora, aparentemente, uma questão subdi- mensionada. Já dois anos antes da inauguração de Brasília, o Distrito Federal contava com Taguatinga, que já tinha seu destino como futura cidade-satélite do Plano Piloto27, com a consolidação cada vez maior do Núcleo Bandeirante – então Cidade Livre –, com assentamentos ante- riores à construção – Planaltina, Brazlândia – e com um conjunto de
26 (Paviani, 2010) 27 (Paviani, 2010)
Mapa contendo as divisões das Regiões Administrativas do Distrito Federal. Fonte: (Costa, 2011)
Figura 08:
ocupações provisórias.
Taguatinga, distando cerca de 21km do Plano Piloto, foi constituída e projetada como uma forma de se tentar conter ocupações irregulares indiscriminadas na área do Plano Piloto. A ela foram destinados ope- rários e uma parcela significativa da população mais pobre que se esta- belecera no Distrito Federal em função da construção da nova capital. Escreve Paviani:
Para evitar a favelização prematura da Capital, os go- vernantes abriram espaço, em 1958, para o primeiro núcleo periférico – Taguatinga. Para essa cidade-sa- télite foram transferidos os milhares de trabalha- dores que ocupavam as favelas próximas à Cidade Livre (Núcleo Bandeirante) e os alojados nos acam- pamentos das construtoras. (Paviani, 2006, p. 1)
No ano seguinte, em 1959, seriam criados também o Cruzeiro, hoje bairro adjacente ao Plano Piloto, e, em 1960, Sobradinho e Gama28. Imprescindível destacar que, à exceção do Cruzeiro, as outras duas áreas foram estabelecidas a considerável distância do Plano Piloto – 22km e 40km, respectivamente. Tanto Sobradinho quanto Gama fo- ram ocupações planejadas, com projetos desenvolvidos por arquiteto pertencente à equipe da Novacap29. Para Sobradinho, foram destinadas
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populações migrantes advindas do nordeste de Goiás, da Bahia e de ou- tros estados, enquanto que o Gama foi destinado, originalmente, para alojar parte da população que havia se estabelecido de forma precária na barragem do Lago Paranoá. Posteriormente essa mesma região recebeu habitantes advindos de outros assentamentos de população de baixa renda existentes no âmbito do DF.
Logo se vê que a realidade do Distrito Federal foi, desde o início, de aguda segregação socioeconômica30 no espaço. Ainda que isso fosse de encontro à recomendação de Costa31 explicitada no Relatório, foi um modelo de assentamento e expansão urbana que se manteve durante as décadas seguintes.
Não se pode ignorar, como previamente mencionado, que desde seu princípio o Distrito Federal experimentou taxas aceleradas de cresci- mento demográfico. Em 1970, apenas dez anos após a inauguração de Brasília, era registrada uma taxa de crescimento anual de 14,39%32 no DF. Isso representava um incremento de mais de 77 mil pessoas a cada ano. Como comparação, a taxa de crescimento anual nacional estava na
30 Como afirmaram Turkienicz e Comas ao discutir a história de Brasília: “A política habitacional do Distrito Federal tem se caracterizado por uma delibe- rada segregação espacial de diferentes níveis de renda e uma crescente elitização da área do plano piloto.” (Turkienicz & Comas, 2012, p. 350)
31 Ponto 17 do Relatório do Plano Piloto de Brasília. (Costa, 2014 [1957]) 32 (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Go- verno do Distrito Federal, 2007)
Taguatinga no ano de 1984.
Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal. Figura 09:
casa de 2,91%33. Alocar esse grande contingente de habitantes rapida- mente se tornou um desafio e a política de ocupação fragmentada do território foi mantida, caracterizando-se também por um forte caráter segregador no qual às populações mais pobres era sempre destinada a periferia distante.
Um exemplo dessa postura reside na origem de uma das então cidades- -satélites, hoje RA IX. Em 197134, ainda mais distante do Plano Piloto35, foi criada Ceilândia. Seu nome sintetiza a sua razão e a origem de sua população à época. O prefixo “CEI” nada mais era do que a sigla da “Companhia de Erradicação de Invasões”, entidade cuja responsabili- dade era a de eliminar as ocupações irregulares existentes na área do Plano Piloto. Para Ceilândia foram destinados os moradores de diver- sas favelas e atualmente essa Região Administrativa – antes anexada a Taguatinga – é a mais populosa do Distrito Federal.
Os exemplos que demonstram a política de urbanização adotada pelo governo são diversos, mas sempre caracterizados por uma lógica de perspectiva homogeneizante pautada por critérios de classe socioeco- nômica. Assim sucedeu mesmo nos casos de habitação voltada para a classe média que compunha escalões mais baixos do governo – como o Guará ou o Cuzeiro – ou para as classes econômicas mais abastadas
33 (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Go- verno do Distrito Federal, 2007)
34 (Paviani, 2012)
35 A distância oficial é de 26km.
– caso do Sudoeste e do Noroeste. O fato é que a política de expansão da cidade e de planejamento de novas áreas sempre foi marcada por um viés segregador e de classe. Águas Claras não é diferente nesse ponto. Outra situação que caracteriza36 a questão urbana do Distrito Federal diz respeito aos condomínios horizontais oriundos de ocupação irre- gular de terra. Hoje, uma parcela significativa da população ocupa essas áreas, algumas das quais já sofreram processo de regularização e hoje se encontram em situação legal ou em vias de alcançar esse status. São lo- cais ocupados por residências unifamiliares, em geral oriundos de ações de grilagem de terras. De acordo com a antropóloga Cristina Patriota de Moura, ao se referir a essas áreas:
(...) desde a década de 1980, Brasília tem apresentado uma rápida proliferação de áreas residenciais consti- tuídas por casas unifamiliares abrigando membros das camadas médias e elites. (Moura, 2010, p. 283)
Uma das principais consequências desse contexto urbano no DF é o reforço de uma lógica pendular de deslocamento no território. As gran- des massas de áreas residenciais acabaram por se tornar, em sua quase totalidade, “bairros dormitórios”, abrigando populações durante a noi- te e lançando-as para a área central ao amanhecer. Escreve Paviani, ao se referir a Brasília:
Ceilândia no ano de 1972.
Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal.
Figura 10: Foto de área do bairro Sudoeste (RA XXII). Fonte:
Com esse processo de povoamento, criou-se uma cidade polinucleada, onde os núcleos periferizados detêm, em sua maioria, atividade residencial. Esses assentamentos não possuem autonomia para reter os respectivos trabalhadores. (Paviani, 2010, p. 5)
Isso se deve à concentração de empregos no Plano Piloto e à forma bas- tante polarizada pela qual influencia todo o território. Salvo os casos de Taguatinga e, em alguma medida, Ceilândia, que hoje já abrigam oferta de empregos em número razoável, cotidianamente os habitantes do Distrito Federal – e municípios goianos limítrofes, em muitos casos – repetem a movimentação pendular que os leva de bairros fundamen- talmente residenciais para o Plano Piloto e, horas depois, no caminho inverso.
Outro aspecto desse processo torna relevante estabelecer paralelos com Águas Claras. Em geral, o modelo estabelecido – quando planejado – para as áreas destinadas às populações mais humildes foi de ocupação mais rarefeita, por unidades habitacionais unifamiliares, enquanto que às classes médias e altas o padrão habitacional estipulado foi mais próxi- mo àquele estabelecido no Plano Piloto de Brasília – à exceção de Águas Claras. Sudoeste e Noroeste, por exemplo, possuem seus edifícios sobre
pilotis, com densidade similar à proposta para o Plano Piloto e, ao me-
nos discursivamente, incorporam os modelos de Superquadras e cidade jardim. Paralelamente, no caso de regiões destinadas a populações de renda menos abastada, por mais que muitas vezes os traçados bastan- te racionais tenham sido inspirados em parâmetros similares àqueles do projeto de Costa, as habitações indicadas foram casas, residências
Vista aérea de Vicente Pires, área que sofreu parcelamento irregular e foi ocupada por diversos condomínios.
Fonte: Sítio eletrônico do Jornal de Brasília1
1 http://www.jornaldebrasilia.com.br/cidades/mais-uma- -etapa-para-legalizacao-de-vicente-pires-foi-concluida/
unifamiliares – ainda que contemporaneamente diversos edifícios já estejam presentes nessas localidades.
Isso reforça o ineditismo e o caráter sui generis do projeto urbanístico de Águas Claras. Nascida para a viabilização de um equipamento de transporte público de massas37 – o metrô – e como bairro de classe média, teve seu projeto caracterizado por um conjunto de elementos que ambicionavam negar urbanisticamente tudo aquilo que marcara negativamente o urbanismo do Plano Piloto e o modelo de expansão urbana do Distrito Federal.