3.8 Updated software
4.1.4 Experiments on the high-performance server
Moderno e a Brasília
O projeto do Plano Piloto esteve sob o crivo da crítica por muito tem- po. Não só ele, como a própria concepção de cidade elaborada pelo Movimento Moderno ao longo da primeira metade de século XX. É no projeto de Costa, porém, que a materialidade construída pôde ser ob- servada, analisada e julgada com mais ênfase sob o paralelo construído entre projeto e matéria, visto que por muitos críticos foi considerada a
37 (Campanhoni, 2013)
mais fiel realização dos preceitos da Carta de Atenas e do Movimento Moderno.
Entre os elementos mais marcantes das críticas orientadas ao projeto da nova Capital brasileira – e, novamente, aos preceitos do Movimento Moderno como um todo – pode-se destacar quatro: a valorização do automóvel em detrimento do pedestre; a dispersão urbana advinda do modelo de cidades-satélites e da suburbanização; a setorização mono- funcional; e um conjunto de elementos que configuram uma crítica mais ampla: a rarefação de sua malha urbana devido à abundância de espaços vazios e verdes e à desintegração do modelo da rua corredor. De forma mais ou menos enfática, todas essas características compõem traços importantes do Plano Piloto de Brasília.
De forma contundente, a crítica ao Movimento Moderno se consti- tuiu de maneira organizada e propositiva. Exemplos muito marcantes na história do campo jazem na obra de Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidade38, com sua forte crítica ao modelo de planejamento urbano baseado nos princípios do Movimento Moderno e aos elemen- tos que aponta como consequências negativas desse procedimento, e também no livro Complexidade e Contradição em Arquitetura39, de Robert Venturi, cujo sentido era uma crítica à própria linguagem ar- quitetônica advogada pelo Movimento Moderno. Décadas depois, em
38 (Jacobs, 2011[1961]) 39 (Venturi, 2004[1966])
Cidades do Amanhã40, Peter Hall faria pesadas críticas aos modernos, com especial agudez no caso de Le Corbusier, sintetizando várias per- cepções que vinham convergindo até o período.
Em 1989, um ano após a publicação do livro de Hall, o arquiteto Demetri Porphyrios, de postura similar à de Leon e Rob Krier41, pu- blica também uma contundente crítica à arquitetura e ao urbanismo defendidos pelo Movimento Moderno. Escreve:
(...) a lógica radicalmente racionalista do modernis- mo era a tabula rasa, o apagamento de rastros: zonea- mento urbano, a ideia da “cidade no parque”, o edi- fício isolado, o desaparecimento da rua e da praça, a destruição do quarteirão. Em suma, a destruição do tecido urbano. Tudo isso foi sistematicamente saudado pelos modernistas como um eficiente pro- gresso da engenharia social das cidades. (Porphyrios, 2013[1989], p. 110)
No mesmo ano, o antropólogo James Holston lançava o livro Cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia42. Em seus escritos, fez
40 (Hall, 2013[1988])
41 Rob e Leon Krier são irmãos e arquitetos luxemburgueses que desenvolve- ram fartas críticas às ideias do Movimento Moderno. Estão entre os principais proponentes do movimento do Novo Urbanismo (New Ubanism).
42 (Holston, 1993[1989])
coro às críticas desenvolvidas aos preceitos modernos, encontrando-os materializados no Plano Piloto de Brasília. Além da discussão que te- ceu acerca das origens da transferência da capital e do ideário que com- punha tal empreitada, Holston criticou o que chamou de “a morte da rua” e outros elementos que caracterizariam, sob sua análise, como res- ponsáveis por um definhamento da urbanidade da cidade.
Entretanto, as críticas e a ocorrência de polêmicas não começaram aí. Antes disso, os CIAM, os próprios fóruns estabelecidos pelo Movimento Moderno, experimentaram seguidas rupturas discursivas e mudanças de rumo. Em 1937, em Paris, apenas quatro anos após o Congresso em Atenas, reconhecem um primeiro equívoco e tratam de afirmar a importância do sítio no qual a cidade pudesse ser instalada e o “impacto das estruturas históricas” (Frampton, 1997, p. 329) no projeto e planejamento urbanos. O racionalismo da Carta de Atenas se mos- trara, para muitos, como excessivo e parecia implicar uma visão que “des-temporalizava” a cidade e a lançava num limbo contextual, igno- rando quaisquer aspectos culturais, sociais ou políticos. De acordo com Peter Hall, a ideia de que a “tábula rasa” universalista deveria ser a me- todologia adotada era marcantemente corbusiana. Ele destaca a seguin- te passagem escrita por Le Corbusier nesse sentido: “PRECISAMOS CONSTRUIR EM TERRENO LIMPO! A cidade de hoje está mor- rendo porque não é construída geometricamente!” (Hall, 2013[1988], p. 245). Assim, reforça a sua crítica a como o idealizador da Carta de Atenas encarava as formas de repensar as cidades.
Frampton afirma43 que é em 1953, no CIAM IX, que se pode localizar o ponto de clivagem que acabaria por erodir as bases do movimento e, posteriormente, culminaria em seu fim, no décimo e último CIAM. Durante os debates do CIAM IX, alguns arquitetos optaram por ques- tionar diretamente as quatro funções da cidade previstas na Carta de Atenas – que até aquele período ainda mantinham grande influência sobre os planejadores e projetistas urbanos de todo o mundo. Esses ar- quitetos estavam insatisfeitos com o idealismo corbusiano e também com o que consideravam abstrações funcionalistas. O que defenderam foi um modelo pautado pela “complexidade”, que acreditavam ser mais adequada à construção da identidade – e identificação – entre os habi- tantes e o espaço urbano da cidade. Frampton cita a seguinte passagem do documento produzido por esse grupo de arquitetos no CIAM IX:
O homem pode identificar-se de imediato com seu próprio lar, mas não se identifica facilmente com a cidade em que este está situado. “Pertencer” é uma necessidade emocional básica – suas associações são da ordem mais simples. Do “pertencer” – identida- de – provém o sentido enriquecedor da urbanidade. A ruazinha estreita da favela funciona muito bem exatamente onde fracassa com frequência o redesen- volvimento espaçoso. (Frampton, 1997, p. 330)
Em última instância e após um percurso de larga experimentação e
43 (Frampton, 1997)
debates, essa perspectiva galgou longevidade e hodiernamente pode ser localizada em síntese na Carta do Novo Urbanismo44, marco subs- tancial de um entendimento diferente do planejamento e projeto ur- banos daquele prescrito na Carta de Atenas ou nas elaborações de Le Corbusier.
Como se poderá notar, o projeto de Águas Claras, ainda que reconhe- ça valores em características específicas do projeto de Costa, foi estru- turado ao encontro das prerrogativas desenvolvidas pelos críticos do Movimento Moderno. Seus elementos centrais de composição urba- nística são semelhantes – quando não os mesmos – daqueles que foram gestados em meados das décadas de 1970 e 1980 pelo que acabou sendo denominado movimento do Novo Urbanismo, que foi formalizado no Congresso para o Novo Urbanismo no início da década de 1990. A circulação das ideias de arquitetos e urbanistas45 influentes e críticos do modelo de desenvolvimento urbano que vinha sendo largamente aplicado nos Estados Unidos e Europa logo conformou essa nova orga- nização. A síntese de suas ideias acabou por produzir a Carta do Novo Urbanismo.
Hoje paradigmática46, a Carta do Novo Urbanismo exemplifica de que
44 A Carta do Novo Urbanismo está disponível na íntegra no endereço ele- trônico: https://www.cnu.org/who-we-are/charter-new-urbanism
45 Entre outros: Christopher Alexander, Leon Krier, Rob Krier, Andrés Duany.
forma a crítica optou por endereçar os elementos considerados proble- máticos que foram listados no início deste tópico. A saber: o problema da setorização e das funções da cidade; a questão da dispersão urbana; o problema da valorização do automóvel e, de forma mais ampla, da mobilidade urbana e do pedestre; e, por fim, a questão da rua e do te- cido urbano, apontado como excessivamente rarefeito e descontínuo no caso das proposições do Movimento Moderno. Entre seus pontos, alguns merecem destaque, exemplificando as ideias que sintetiza:
8) A organização física da região deve estar apoiada numa rede integrada de alternativas de transporte. Sistemas de transporte público, de circulação pedo- nal e cicloviária devem maximizar a acessibilidade e
da Carta do Novo Urbanismo sobre o projeto de Águas Claras. Cronologi- camente, o projeto de Zimbres, de 1991, antecede o I Congresso para o Novo Urbanismo, que ocorreu em 1993 e, consequentemente, também o documen- to que sintetiza suas ideias, publicado em 1996. O que se objetiva demonstrar, porém, é que Águas Claras já incorporava elementos que se tornaram consis- tentes na crítica ao Movimento Moderno – ainda que, em particular, ao Plano Piloto de Brasília – e acabaram por se formalizar com ainda mais veemência em um documento que findou por se tornar notório no campo da arquitetura e do urbanismo. De toda forma, vale destacar também que o Novo Urbanismo começa a se consolidar de forma mais sistemática já a partir de meados da déca- da de 1980, reunindo arquitetos e urbanistas com proposições similares tendo como fim a transformação das cidades que consideravam que estavam sofren- do consequências negativas das ideias originadas no Movimento Moderno.
a mobilidade na região, reduzindo a dependência do automóvel.
10) A vizinhança, o bairro e o corredor são os ele- mentos essenciais do desenvolvimento e do redesen- volvimento na metrópole. Estes elementos formam áreas identificáveis, que encorajam os cidadãos a tomarem responsabilidade pela sua manutenção e evolução.
11) As vizinhanças devem ser compactas, amigas dos peões e incluir diferentes tipos de uso, como habi- tação, comércio e escritórios. Os bairros, que geral- mente enfatizam um uso principal, devem seguir os princípios da concepção das vizinhanças sempre que possível. Os corredores são ligações de vizinhanças e bairros a uma escala regional; podem ser desde ave- nidas e linhas férreas a rios e vias panorâmicas. (Car-
ta do Novo Urbanismo, 1996)47
A Carta do novo Urbanismo é um documento que foi produzido nos Estados Unidos e tem origem nas discussões sobre a dispersão urbana por meio dos subúrbios – processo alimentado pelo modelo rodovia- rista e de cidades-satélites – e nas reformas urbanas e suas consequências
47 Tradução disponibilizada no próprio endereço eletrônico da Carta do Novo Urbanismo.
para a cidade, também criticadas por Jane Jacobs na década de 1960. Os pontos enumerados no documento, porém, não se limitam a tratar dessas questões, mas sintetizam um conjunto de medidas consideradas importantes para o planejamento e projeto urbanos por um conjunto de pensadores do campo da arquitetura e urbanismo.