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Em Minas Gerais, as universidades públicas cresceram em ritmo acelerado a partir dos anos de 1960. De maneira geral, as universidades mineiras foram alocadas em cidades onde os grupos dominantes locais tinham interesse e poder para trazer um grande empreendimento federal ou estadual como é o caso da universidade pública. Sendo assim, algumas cidades como

Ouro Preto, com a Escola de Minas (1875), Belo Horizonte (1927), Juiz de Fora (1904), Viçosa (1922) e Alfenas (1914) já possuíam várias faculdades fundadas até os anos iniciais do século XX. Contudo, a demanda por conhecimento técnico e científico aumentou significativamente no pós-segunda guerra, em decorrência do desenvolvimento econômico vivido pelo Brasil no período. É desse momento a instalação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), criada em 1960, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), criada em 1969, da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), criada em 1964.

Segundo os dados atualizados e disponíveis no site do Ministério da Educação, Minas é o estado onde se encontra o maior número de instituições públicas somando 13 (treze) no total, como mostra a Figura 1.

Fi

gura 1 – Universidades públicas e privadas instaladas em Minas Gerais com Cursos de Geografia

A presença de Minas Gerais no âmbito educacional brasileiro é notoriamente reconhecida e discutida entre vários pesquisadores, entre eles historiadores e sociólogos. Em Minas tem-se a criação de uma instituição de nível superior no berço da economia colonial nos anos dourados do século XVIII. Fundada em 1875 através da iniciativa do Imperador D. Pedro II e dirigida pelo francês Claude Henri Gorceix, representou o espírito da pesquisa científica através da sistematização dos fatos e fenômenos.

A Escola de Minas de Ouro Preto era tida como modelo no contexto das escolas profissionais no século XIX. Apesar dos percalços em sua história, a Escola passou por várias intervenções da Província no intuito de manter sua condição. José Murilo de Carvalho afirma que as várias intervenções sofridas pela Escola deveram-se “não ao interesse de preservar uma escola superior de minas, mas ao interesse de preservar uma escola superior em Minas” (CARVALHO, 2012, p. 59).

O espírito cultural nutrido pelas elites mineiras revela o desejo pelo aprimoramento intelectual através do desenvolvimento científico traduzido na institucionalização da Escola de Minas, bem como mostra o interesse permanente em manter a importância de Minas Gerais no contexto brasileiro.

A pioneira escola de ensino superior mineira representou a importância da ciência para a Província e para a Colônia. Muitos de seus alunos atuaram nas expedições práticas de campo, oriundas de comissões estrangeiras no processo de catalogação de informações sobre o território. Outros alunos formaram posteriormente, o quadro de professores de outras instituições de ensino de grande relevância para o Estado, como a Escola de Engenharia de Itajubá e a Universidade de Viçosa (SCHWARTZMAN, 1979).

Esta tradição remonta, sem dúvida, ao passado de Minas Gerais como centro da economia nacional no século XVIII, quando as famílias abastadas mandavam seus filhos estudar na Europa, para vê-los mais tarde tentar reproduzir os ideais revolucionários do velho Mundo na Inconfidência aos portugueses. Terminando o período áureo, nem por isso Minas Gerais deixou de ser um importante centro populacional, cultural e político do país, exercendo uma liderança só sobrepujada pela própria Corte e que no final do século seguinte começaria a ser disputada por São Paulo (SCHWARTZMAN, 1979, p. 156).

Passados os anos de glória da mineração, Minas ainda tentava cuidar daquilo que talvez fosse o maior triunfo de suas elites: o espírito inconfidente arraigado às suas bases culturais. Dessa maneira, já no período republicano, manteve-se o estímulo à educação, como nos mostra Carvalho.

Com a República, foi também criada a Escola de Direito, em 1892; e em 1911 foram as escolas de Medicina e Engenharia, que em 1927 se reuniram, com a de Direito, para formar a Universidade de Minas Gerais. Algumas escolas secundárias de

qualidade foram formadas – católicas, como o Colégio Arnaldo; oficiais, como o Liceu de Ouro Preto e, mais tarde, o Ginásio Mineiro, seguindo o modelo do Colégio Pedro II (SCHWARTZMAN, 1979, p. 157).

A criação da Universidade de Minas Gerais, em 1927, na região central de Minas Gerais agregou as faculdades e as escolas superiores introduzindo a ideia de uma instituição autônoma, regida pelo próprio estado e com grande potencial para a pesquisa científica. Nesse sentido, a instalação da Universidade deve ser entendida como um esforço das classes dominantes mineiras, desejosas da retomada do crescimento econômico, ou seja, como uma das estratégias para que o estado ocupasse lugar de destaque junto ao Rio de Janeiro e São Paulo, carregados pelo surto da economia cafeeira.

Reunindo membros importantes na esfera política nacional, a elite mineira tinha clareza da necessidade de retomar o crescimento econômico, canalizando esforços no sentido de implantar infraestruturas e incentivar a industrialização no estado, bem como investir no campo do conhecimento. Dessa forma, as instituições de ensino superior acompanhando as reformas educacionais do início do século XX no Brasil e em Minas Gerais, constituíram-se num importante mecanismo de modernização ao longo do processo de retomada da posição do estado (ANSELMO, 2012).

No início do século XX, Minas Gerais desenvolveu uma economia diversificada, desempenhando atividades econômicas singulares em cada região. Essa situação conferiu a Minas um diagnóstico de atraso, colocando-a numa situação desfavorável frente ao crescimento econômico de outras áreas do país.

A heterogeneidade de Minas Gerais muito diz sobre a necessidade de se instalar universidades em áreas específicas do estado mineiro. Segundo Anselmo (2012), as instituições de ensino superior possuem um caráter estratégico no ordenamento do território justamente por atuar como elemento disseminador da ciência e da técnica. Assim, depreende-se que o desenvolvimento econômico e social dos lugares pode ser analisado a partir de várias vertentes, das quais as universidades, afirma-se aqui, são responsáveis pela geração de um conjunto de conhecimentos multiplicadores de produtos, técnicas, tecnologias e também de novos conhecimentos formando um ciclo da produção científica.

Neste conjunto de mudanças, os lugares vão adquirir um nível de especialização e concentração onde a ação voltada para estas “novas regiões” construídas a partir da valorização com base na competitividade, especialização e seletividade dos lugares, não deverá ser apenas o planejamento regional, mas sim outras estratégias de desenvolvimento local, no qual novas formas de aglomeração econômicas construirão novos espaços de produção possibilitando os

níveis de organização necessários para articular lugares e o aumento dos fluxos materiais e imateriais da produção provenientes dos lugares e regiões onde se instalam as universidades.

Para compreender como atuam as instituições de ensino superior em Minas, é necessário entender as diferenças regionais que atuam no campo político, econômico e social do estado.

Tomando como base as proposições de Diegues Jr. (1950); Whirt (1982), Dulci (1999) e Anselmo (2012), Minas Gerais é um derivado de regiões singulares, um Mosaico Mineiro no qual cada região guarda suas especificidades.

Essa divisão do estado em Mosaico foi utilizada pelo governo do estado para compor o Plano de Recuperação Econômica, na década de 1930, bem como respaldar o Binômio Energia e Transportes, implementados a fim de colocar Minas Gerais novamente entre as regiões mais ricas do país. Na verdade, a composição do Mosaico Mineiro se tornou economicamente relevante para o estado na transição para o século XX.

O Mosaico Mineiro mostrava as funções e disparidades, bem como as estratégias de recuperação econômica para cada região do estado. A Zona da Mata, tendo Juiz de Fora como expoente, correspondia ao modelo originário de industrialização com forte influência paulista e herança de uma burguesia enraizada na vida local; ao passo que no outro extremo verificam-se os empreendimentos da área mineira da SUDENE polarizada por Montes Claros. Nesta área, a partir da década de 1960, se estabeleceram várias indústrias atraídas por incentivos fiscais e por linha de crédito (DULCI, 1999, p. 192).

Por intermédio de diagnósticos das diversidades econômicas e políticas do estado, as classes dirigentes mineiras, a partir do início do século XX, buscaram, através de iniciativas de recuperação e de incentivos financeiros, equilibrar as contradições existentes. Na década de 1940, cresceram os investimentos em infraestruturas no estado com incentivo do governo federal, como a construção de estradas, das primeiras indústrias na região central, além de incentivos para o setor energético e de transportes (DINIZ, 1981).

Já na década de 1950, com o aquecimento da economia nacional, a industrialização, tanto na capital quanto no restante do estado, teve um pique de desenvolvimento. É nesse contexto que a criação de universidades públicas e de vários cursos de Geografia no interior de Minas Gerais, após os anos de 1950 evidencia, em princípio, uma forte articulação por parte do estado mineiro na organização e no planejamento de suas regiões.

Pretende-se analisar mais adiante, como a Geografia instituída por dentro dessas universidades mineiras foi importante para a consolidação da modernidade no estado, através da formação de licenciados e bacharéis.

CAPÍTULO 2