Modalities of Governance and Contradictions in Somalia
5. HYBRIDITY: ACTORS AND THEIR INTERACTION
E o que seria este sentido da vida?
Em primeiro lugar esclarecemos que o sentido da vida não está para nós associado à
“problemática finalidade e fim” do mundo como um todo, ou ao sentido do destino que vem
ao nosso encontro, das coisas que nos sucedem. As possíveis respostas positivas a estes
problemas pertencem propriamente ao domínio reservado da metafísica que não é o objeto
desta dissertação.
Ainda, não falaremos de questões associadas à moral de costumes para definirmos o
sentido da vida, pois abordamos de passagem o tema ao falarmos de “bem supremo”, virtudes
racionais e morais.
Discutiremos sucintamente o conceito de sentido da vida para o indivíduo porque é
precisamente neste sentido que encontraremos definições para o sentido do trabalho. Cumpre
esclarecer que, para o indivíduo, apesar de parecer um pleonasmo, o sentido da vida é um
problema caracteristicamente humano.
Para Viktor E. Frankl, o sentido da vida é subjetivo. Ou seja, cada ser humano deve ter
um sentido para a sua vida. Não há um sentido único para todos os seres humanos.
“Permita-se-me fazer ainda uma observação a respeito da objetividade daquilo a que chamo sentido: a objetividade não exclui a sua subjetividade. Explico-me: o sentido é subjetivo na medida em que não há um sentido para todos, mas sim um sentido para cada um dos outros; entretanto, no caso concreto de que se tratar, o sentido não pode ser puramente subjetivo: não pode ser a mera expressão reflexo do meu ser, nos termos em que o subjetivismo e o relativismo o entendem e no-lo pretendem fazer crer. Assim, quando dizemos que o sentido é não só subjetivo, mas também relativo, apenas queremos salientar que está numa determinada relação com a pessoa, - e com a situação em que precisamente essa pessoa se realiza e se insere. Sob este prima, é claro que o sentido de uma situação é realmente relativo; é-o, assim, em relação a uma situação tomada, no caso concreto como irrepetível e única.
76 FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da Logoterapia e análise existencial.
A pessoa tem que atingir e captar o sentido, tem que apreendê-lo, percebê-lo e efetivá-lo, isto é, realizá-lo. O sentido portanto, em virtude da sua relação com a situação é também, por seu turno, irrepetível e único; e esta unicidade do “único que se impõe” faz com que o sentido, extraído da sua trans- subjetividade, em de ser algo dado por nós, seja para nós um dado, por muito que a percepção e realização deste dependa da subjetividade do saber e da
consciência humanos.”77
O sentido “esconde-se” em cada situação de nossas vidas. Temos também a
responsabilidade de interpretá-lo. “Contudo, na vida não se trata de uma atribuição de
sentido; o que se faz não é dar um sentido, mas encontrá-lo: encontrar, dizemos e não
inventar, já que o sentido da vida não pode ser inventado, antes tem que ser descoberto.”
78Para descobrirmos o sentido da vida, devemos observar a sua riqueza e para
percebermos a sua riqueza temos que nos apoiar em valores. Segundo Viktor E. Frankl, há
três categorias de valores: criadores, vivenciais e atitudinais.
Os valores criadores são como o próprio nome define aqueles relativos a atos criadores,
aqueles atos onde o ser humano intencionalmente cria, seja uma obra de arte, seja o seu
trabalho. Existe a ação do ser humano para criar algo que ele atribui um valor – um valor
criador.
Os valores vivenciais estão relacionados a experiências de vida, como por exemplo, ver
o pôr do sol, ou ouvir um pássaro e tirar valor para as nossas vidas em função daquele
momento vivido, experimentado.
Os valores atitudinais poderíamos dizer são mais fundamentais, pois determinam como
o homem se insere em uma situação de sua vida Daí, independente das oportunidades de
realizar o seu sentido por meio de valores criadores ou vivenciais o homem poderá realizar o
seu sentido dependendo da sua atitude perante a vida.
“A possibilidade de realizar estes valores de atitude sempre se verifica, portanto, quando um homem arrasta um destino perante o qual nada mais pode fazer que aceitá-lo, suportá-lo, tudo está no modo como o suporta, tudo depende de que carregue sobre si como uma cruz. Trata-se de atitudes tais como: a valentia no sofrimento, a dignidade na ruína e no malogro. Ora, desde que os valores de atitude se incluam na esfera das possíveis categorias
77 FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da Logoterapia e análise existencial.
Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante, 2003. 4. ed. pp. 1-171. pp. 75-76.
de valores, fica patente que a existência humana nunca na realidade e propriamente se pode considerar sem sentido: a vida do homem conserva o
seu sentido até “às últimas horas”, até o último suspiro. Enquanto está
consciente, o homem tem uma responsabilidade perante os valores, ainda que apenas se trate de valores de atitude. Enquanto tem um ser-consciente, tem também um ser-responsável. A sua obrigação de realizar valores não o deixa em paz até o último instante da existência. Por muito limitadas que venham a ser possibilidades da realização de valores, a realização de valores de atitude sempre continua a ser possível. Assim se demonstra, por outro lado, a validade da afirmação de que partimos: ser-homem significa ser- consciente e ser-responsável.”79
Definidas estas três categorias de valores, devemos incluir mais uma última categoria de
valor. Viktor E. Frankl, citando Max Scheler, lembra-nos de uma última categoria de valor,
denominado valor de situação que também é considerado essencial na busca do sentido da
vida. Segundo Frankl Scheler explica-nos que valores de situação dão à existência um caráter
único e irrepetível.
“[...] estes valores, é como se estivessem à espera de que a sua hora chegasse, à espera de que um homem aproveite a ocasião irrepetível de realizá-los; a ocasião que se deixa passar será ocasião perdida irremediavelmente e o valor de situação fica para sempre irrealizado – o homem desperdiçou-o.”80
Para definirmos sentido de vida podemos ainda afirmar que o sentido é o “guia do ser” e
se realiza sempre na tensão entre ser e dever-ser do homem. “O certo é que aquilo de que o
homem realmente precisa, não é de um estado isento de toda e qualquer tensão, senão de
certa tensão, uma sadia dose de tensão, - aquela doseada tensão que lhe provocam no ser as
exigências e solicitações de um sentido.”
81Há também aspectos essenciais ao sentido da vida que devem ser considerados. Estes
estão intimamente ligados ao conceito de vida no tempo: a irrepetibilidade, a
irreversibilidade e a fragmentação. Tomamos o exemplo ilustrativo de Viktor E. Frankl:
“O homem, efetivamente, assemelha-se a um escultor que trabalha com cinzel e martelo a pedra informe, de modo que a faz adquirir forma pouco a pouco. É como se o homem fosse modelando o material com que o destino o brinda: ora criando, ora experimentando vivências ou sofrendo, o homem procura ‘arrancar valores da vida, a golpes’, para a transformar quanto possível em valores criadores, vivenciais ou de atitude. Demais, nesta comparação com a atividade do escultor, podemos introduzir o elemento
79 FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da Logoterapia e análise existencial.
Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante, 2003. 4. ed. pp. 1-171. p. 83.
80 Ibidem. p. 91. 81 Ibidem. p. 105.
tempo; basta imaginar que, para terminar a sua obra de arte, o escultor dispõe apenas de um tempo limitado, desconhecendo contudo o momento em que a tem de acabar e entregar. Assim, nunca sabe quando será “exonerado”, ignorando mesmo se a exoneração ocorrerá no momento seguinte. Desta maneira, também ele se vê forçado, em todo o caso, a aproveitar o tempo, considerando o risco de deixar a sua obra em embrião, em fragmento. Diga-se, entretanto, que, caso a não pudesse terminar, nem de longe ficaria sem valor a sua obra. O “caráter fragmentário” da vida (Simmel) não prejudica de modo algum o seu sentido. Nunca poderíamos avaliar a plenitude de sentido duma vida humana com base na sua duração.”82
Finalmente, além de utilizarmos os valores vivenciais, criadores, atitudinais ou de
situação para engendrarmos o sentido de nossas vidas, contamos ainda com mais um elemento
fundamental que nos suporta na busca deste sentido: a nossa “insubstituibilidade”.
Para ilustrarmos o tema da insubstituibilidade, vamos nos remeter ao contexto dos
campos de concentração nazistas – uma situação de vida onde as “perdas” são tantas que não
se tem de onde extrair-se um sentido para a vida – e onde, os prisioneiros que ali
encontravam-se não tinham mais o que esperar da vida, portanto a busca de um sentido muitas
vezes esvaziava-se.
Estudos realizados em prisioneiros de campos de concentração indicam que aqueles que
sobreviveram à experiência de viver neste ambiente desumano o fizeram por possuírem um
sentido de vida externo e por contarem com a necessidade de concluir uma tarefa na qual eles
eram considerados insubstituíveis.
Extraímos um exemplo de Viktor E. Frankl:
“Numa conversa comum com dois desses prisioneiros cujo desespero se tinha ido agravando até os levar à decisão do suicídio, produziu-se uma vez um resultado desse tipo. Ambos estavam dominados pela sensação de que já
não tinham nada a esperar da vida. O que era indicado, no caso, era levá-los
a efetivar aquela viragem copernicana de que já falamos, declarando que, ao efetuá-la, a vida não poderia propriamente ser interrogada sobre o seu sentido, antes se tratava de responder-lhe às perguntas concretas, aos problemas por ela apresentados; de modo que o havia que fazer era que eles fossem responsáveis perante ela. E realmente em breve se tornou patente que – para além do que ambos os prisioneiros tinham a esperar da vida – era a vida deles que tinham missões bem concretas à sua espera. O certo é que, conforme se comprovou, um deles tinha publicado uma série de livros de geografia, mas sem a haver terminado; o outro tinha no estrangeiro uma filha que dele dependia e o idolatrava. A um, esperava-o uma obra; ao outro, um
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ser humano. Portanto, ambos estavam igualmente seguros naquele “caráter de algo único”, naquela insubstituibilidade que logra dar à vida um sentido incondicionado, a despeito do sofrimento. Afinal um deles era tão insubstituível para o respectivo trabalho científico como o outro para o amor da sua filha.”83