Modalities of Governance and Contradictions in Somalia
5. The Ethiopian intervention
Para o melhor entendimento do que propomos, é importante adicionarmos que esta
explanação sobre o sentido do trabalho está relacionada com a História das Técnicas, do
Conhecimento, das Ciências e História Econômica, pois os fatos relacionados com essas áreas
compõem um conjunto de ações que nos contextualizam no desenvolvimento do trabalho.
De acordo com Ruy Gama em seu livro História da Técnica e da Tecnologia, se
quisermos localizar a preocupação com a História da Técnica de forma mais abrangente,
devemos falar de um autor alemão, que tem sido chamado “o pai da tecnologia”. Seu nome é
101 BLOCH, Marc. Advento e Conquistas do Moinho D´Água. Tradução de Maria Amérlia Mascarenhas
Johann Beckmann
102. Alguns motivos que o levam a ser considerado o pai da tecnologia estão
explanados abaixo:
“[...] Semanalmente, Beckmann realizava uma reunião científica, à qual deu o nome de Practicum camerale, e na qual fazia preleções sobre economia, administração e finanças, economia rural, política e comércio, assuntos sobre os quais escreveu manuais e tratados. Sem ter abandonado essa atividade, Beckmann orientou seu interesse pessoal na direção dos estudos históricos. Dedicou-se, pois, quase que exclusivamente, à história das artes e dos negócios, apoiado na vasta biblioteca da universidade. Sua obra “A History of Inventions”... é um dos resultados dessas pesquisas. Nela Beckmann procura, na mais remota antiguidade, o germe da história das técnicas, trazendo-a até os últimos progressos do seu tempo. Apresenta abundante e inestimável material sobre a história das origens e do progresso das artes mecânicas, ao qual atribui grande importância como aspecto da vida civilizada [...] Sua mente voltava-se para tudo o que fosse da prática, no conhecimento humano. [...] Já em 1777, publica uma Instrução sobre
tecnologia, onde afirmava o seu conceito de tecnologia através do subtítulo:
‘Para conhecimento dos ofícios, fábricas e manufatura, especialmente daquelas que têm contato estrito com a agricultura, a administração pública e as ciências cameralísticas”.103
Ruy Gama ainda nos chama a atenção para o fato de que a preocupação com a História
da Técnica vem se difundindo, de forma consistente desde 1930, mesmo por aqueles
pensadores mais focados na Filosofia da Ciência. Por isso, o autor cita dois autores que nos
ilustram tal preocupação. O primeiro texto é de Ludovico Geymonat de um ensaio
denominado “Técnica e Ciência”, e o segundo texto de Ciro Flamarion S. Cardoso, em
Agricultura, escravidão e capitalismo:
“Os mais competentes historiadores estão de acordo em reconhecer a grande utilidade que tem, para o estudo aprofundado dos caracteres de uma civilização (antiga ou moderna), a coleta de dados precisos e seguros acerca das conquistas técnicas que a mesma realizou, e acerca da função específica que os espíritos mais ilustrados foram atribuindo às investigações técnicas em comparação com as ciências puras.”104
“[...] as indicações metodológicas de Bloch e Febvre a respeito [da História das Técnicas] concordam com o que sempre afirmam sobre qualquer estudo histórico: a necessidade de não efetuar um corte artificial e radical entre o
aspecto analisado e o aspecto total em que se insere.”105
102 Johann Beckmann foi professor de Economia em Göttingen durante quarenta e cinco anos. Nasceu em Hoye,
pequena cidade no reinado de Hanover, em 1739 e morreu em 1811.
103 GAMA, Ruy (Org.). História da Técnica e da Tecnologia. São Paulo: Edusp, 1985. p. 6.
104GEYMONAT, L. Filosofia Y Filosofia de la Ciencia. Barcelona: edit. Labor, 1965. p.113 apud GAMA, Ruy
(Org.). História da Técnica e da Tecnologia. São Paulo: Edusp, 1985. p. 3.
105 CARDODO, C.F.S. Agricultura, Escravidão e Capitalismo. Petrópolis: Vozes, 1979. p.29 apud GAMA, Ruy
Como indicamos acima, para falarmos sobre o trabalho é importante darmos relevância
aos temas da técnica, tecnologia, invenções e conhecimento. Mas não podemos deixar de lado
o contexto em que tais acontecimentos ocorreram. Falaremos por este motivo de alguns
“movimentos” que acreditamos evidenciar o contexto no qual o homem e o trabalho estão
inseridos.
Porém, antes de avançarmos neste sentido, devemos nos ater a uma peculiaridade, que é
a falta de cultivo da história das tecnologias e das invenções, em especial daquela que se
refere aos períodos mais antigos.
Lynn White Jr., em seu artigo Tecnologia e Invenções na Idade Média, explora a
dificuldade em entender melhor as nossas responsabilidades sociais, devido ao reduzido
material disponível sobre essa época.
“Nossos vastos institutos técnicos continuam a revolucionar, em ritmo cada vez mais acelerado, o mundo em que vivemos, mas apenas um pequeno esforço vem sendo feito para localizar nossa tecnologia atual dentro de uma seqüência cronológica e para oferecer aos técnicos aquela consciência de suas responsabilidades sociais que só pode surgir na compreensão exata de suas funções históricas – poder-se-ia quase dizer, de sua herança apostólica [...] Se quisermos compreender algo da Idade Média e sua gradual metamorfose até alcançar os tempos modernos, não podemos negligenciar a tecnologia. E, no entanto, os que trabalham neste campo são tão poucos quanto é abundante a colheita. “106
Para Lynn White Jr., uma das explicações possíveis da dificuldade de se obter material
sobre a tecnologia referente a essa época seria a dificuldade de demarcação de fronteiras que o
próprio assunto carrega.
“Talvez a principal razão pela qual os eruditos têm hesitado em explorar o assunto seja a dificuldade na demarcação de seus limites: a tecnologia não reconhece fronteiras cronológicas ou geográficas. [...] O estudioso da história das invenções logo descobre que precisa destruir as fronteiras convencionais entre o grego e bárbaro, romano e germânico, oriental e ocidental. Pois a tecnologia medieval não compreende apenas o equipamento técnico herdado do mundo romano-helenístico e transformado pelo engenho inventivo dos povos do ocidente, mas também elementos derivados de três fontes externas: os bárbaros do Norte da Europa, o oriente próximo bizantino e muçulmano e o extremo oriente.”107
106 WHITE JR, Lynn. Tecnologia e invenções na Idade Média. Tradução de Sylvia Ficher e Ruy Gama. In:
GAMA, Ruy (Org.). História da Técnica e da Tecnologia. São Paulo: Edusp, 1985 p. 89.
Apesar de não existir uma compreensão clara e precisa de como algumas técnicas foram
desenvolvidas e divulgadas entre os povos da Idade Média, é fato que houve intercâmbio de
vários componentes que influenciaram a vida medieval. Lynn White Jr. cita o exemplo dos
“bárbaros” do norte da Europa (localizado nas planícies da Rússia e da Sibéria Ocidental,
estendia-se das Montanhas Altai até a Irlanda) que influenciaram a tecnologia romana.
“Estamos começando a compreender com que profundidade esse universo afetou as expressões estéticas da Idade Média. Mas, ainda antes das migrações germânicas, esses bárbaros já influenciavam a tecnologia romana e, em séculos posteriores, contribuíram com vários ingredientes próprios para a vida medieval: o uso de calças e o hábito de vestir peles, a casa compacta de aquecimento fácil quando comparada com a casa de pátio mediterrânea, as jóias cloisonné, a fabricação de feltro, o esqui, o uso de sabão de limpeza e da manteiga para substituir o azeite, a fabricação de barris e tonéis, o cultivo do centeio, da aveia, da espelta e do lúpulo.”108