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Esse capítulo apresentou o referencial teórico que permite a fundamentação dos objetivos desta pesquisa, ou seja, investigar como o conceito de poder brando vem sendo aplicado na política externa brasileira e quais são as repercussões na mídia internacional. Com base neste referencial, cabe destacar as categorias de análise que servirão de guia para a coleta e análise de dados. De acordo com os critérios de Nye (2004), o conceito de poder brando pode ser identificado (conforme apresentado no item 2.6.1) das seguintes formas:

- cultura / atração cultural

- valores políticos (domésticos ou externos) - política externa

Os critérios adotados para investigar o caso brasileiro são os mesmos estipulados por Nye. Entretanto, desmembro alguns dos critérios em diferentes categorias, todas inspiradas nos exemplos utilizados por Nye (2004) ao longo da argumentação sobre o poder brando (como apresentado em 2.6). Uma contribuição desta pesquisa foi promover o diálogo entre os atributos ilustrados por Nye (2004) e os conceitos (expostos no item 2.2 do referencial teórico) que tratam de poder e hegemonia no sistema internacional (resumidos nas tabelas 3, 5 e 6). No entanto, não foi considerada nenhuma categoria que representa o poder econômico, ou financeiro. As categorias são:

- cultura / identidade cultural - ideologia / ideais

- valores políticos domésticos - legitimidade /credibilidade - autoridade moral

- política externa

- avanços científicos e tecnológicos - atuação comercial

Como citado acima, as categorias resultam do desenvolvimento do referencial teórico. Assim, a cultura e a identidade cultural representam os atributos de poder definidos por Halliday (2001), Guimarães (2002), Nye (2002; 2004) e de certa forma Ramonet (2003) quando ele trata do controle da mídia e das infovias de comunicação. A cultura vai ser representada por diversos símbolos e representações sociais que identificam o país, tais como esporte (futebol e recentemente o vôlei), música (samba e bossa nova), folclore (carnaval) e costumes (criatividade, como é conhecido o “jeitinho brasileiro” e, no âmbito negativo, a corrupção).

O papel da ideologia e dos ideais correspondem aos referenciais teóricos de Halliday (2001), Guimarães (2002), Gonçalves (2002) e Nye (2002; 2004). Além disso, a ideologia representa um fator estratégico para o sucesso de qualquer empreendimento político (Guimarães, 2002; Borjas, 2002). Essa categoria é facilmente identificada na análise do discurso da política externa brasileira, onde se prega o liberalismo econômico por meio do multilateralismo comercial com uma visão

paradigmática do estruturalismo (como visto no item 2.1). Como Gonçalves (2002) ressaltou, o racionalismo representa um intermediário entre as teses liberais e realistas, identificável no discurso da política externa brasileira.

Os valores políticos domésticos correspondem a um dos pilares do poder brando (Nye, 2004) sendo identificado pelas instituições do país e seus engajamentos internos. No caso brasileiro, eles são o combate pela erradicação da pobreza e da fome, luta por igualdade social e distribuição de renda, valorização da democracia e busca de desenvolvimento econômico. Cabe destacar que o caráter político também é realçado por Guimarães (2002).

A legitimidade e a credibilidade são recursos de poder relevantes na análise de Weil (2001), Kingdon (2003), Kissinger (1998) e representam um atributo de poder sob a ótica de Carr (2001). É possível considerar os adjetivos elogiosos (como por exemplo, responsável) referentes ao Brasil e ao governo Lula na análise de conteúdo da mídia internacional como fortalecimento desta categoria de legitimidade e credibilidade. De acordo com argumentos de Abdenur (1997), outros códigos podem ilustrar essa categoria, como diversidade étnica e cultural, cooperação internacional, convivência pacífica, atividade de inclusão, profissionalismo da diplomacia brasileira e massa territorial e demográfica.

A autoridade moral é explícita na argumentação de Kissinger (1998) e é freqüente na retórica do governo brasileiro (Silva, Amorim e Guimarães, 2003) como justificativa da realização da potencialidade de liderança do Brasil na sua tentativa de promover mudanças na geopolítica mundial. Essa categoria vai ser bastante explorada na análise de discurso, cujos códigos são: liderança do Brasil, capacidade de influência, potencialidade, representatividade, autonomia do país frente ao centro hegemônico e a força ética e moral inspirada na personalidade do presidente Lula.

A política externa engloba fatores como formação de tópicos da agenda, diplomacia, coalizões, fóruns multilaterais e acordos internacionais com participação brasileira. Esse é o atributo mais tangível de poder brando na concepção de Nye (2004) e facilmente identificável tanto na análise de conteúdo da mídia internacional quanto na análise de discurso da política externa oficial do governo brasileiro.

Os avanços científicos e tecnológicos correspondem a exemplos citados com freqüência por Nye (2004) para ilustrar o poder brando de países como Japão e Estados Unidos e representam um atributo de poder na ótica de Ramonet (2003), Guimarães (2002) e Strange (1996). Os códigos desta categoria correspondem à

produtividade agrícola (relacionado à Embrapa), indústria aeroespacial (Embraer), medicina, biotecnolgia e tecnologia genética, como pesquisas com células-tronco e o mapeamento de DNA (ácido desoxirribonucléico) de insetos.

A atuação comercial é distinta da análise econômica, considerada poder bruto, logo, fora dos limites do poder brando (Nye, 1991; 2002; 2004). Sua presença é justificada devido à relevância do papel de liderança mundial em algum determinado segmento, como por exemplo, o Japão ser o país com maior número de patentes e o segundo em usuários de internet. A inserção internacional do Brasil pode ser analisada nesse aspecto como liderança na exportação de café, carne de frango e bovina, por exemplo. Nesse atributo, o interessante não é o volume exportado ou a participação do produto na pauta de exportações, mas o reconhecimento da qualidade do produto brasileiro que o leva a ser o líder de exportação mundial, conseqüentemente, promovendo a imagem do país. Outro código inserido nessa categoria é o papel do Brasil no G-20.

Um resumo dos critérios, categorias e códigos de análise adotados nessa pesquisa é apresentado na tabela a seguir:

Tabela 7 – Critérios, categorias e códigos de análise

Critérios de Nye Categorias de análise Códigos correspondentes

Cultura / atração cultural

Cultura / identidade cultural

Futebol, vôlei, samba, bossa nova, carnaval, criatividade, corrupção

Ideologia / ideais Liberalismo, estruturalismo, multilateralismo, racionalismo

Valores políticos domésticos

Erradicação da pobreza, fome, desigualdade social, distribuição de riqueza, democracia, reforma agrária, desenvolvimento econômico

Legitimidade / credibilidade

Diversidade étnica e cultural, cooperação internacional, convivência pacífica, atividade de inclusão, profissionalismo da diplomacia brasileira, massa territorial e demográfica, biodiversidade, legitimidade, credibilidade, elogios (responsável) Valores políticos

Autoridade moral Liderança do Brasil, capacidade de influência, potencialidade, representatividade, respeito, autonomia, força ética e moral

Política externa Tópicos da agenda, diplomacia, coalizões e fóruns multilaterais, acordos internacionais

Avanços científicos e tecnológicos

Produtividade agrícola (Embrapa), indústria aeroespacial (Embraer), medicina, biotecnologia, tecnologia genética

Política externa

Atuação comercial Liderança mundial, liderança de exportação, papel do Brasil no G-20

O capítulo a seguir apresenta a metodologia utilizada na fase empírica da pesquisa com base no constructo teórico apresentado neste item.

Capítulo 3 – METODOLOGIA