Vimos anteriormente que o ponto de partida da epistemologia tradicional foi o paradigma cartesiano. Logo, tomada a dúvida de Descartes, a epistemologia naturalizada de Quine está a caminho da substituição ou de uma proposta de “mudança de assunto” e abandono
das questões tradicionais da filosofia (RITCHIE, 2012, p. 66)211. Afinal, se para Quine todas as respostas dadas na história da filosofia, de Descartes até Carnap fracassaram, por que deveríamos nos preocupar com uma questão que não podemos responder?
Bem, o caminho de Quine conduz ao barco de Neurath, construído sobre tábuas do conhecimento científico. Mas mesmo sobre essas tábuas não temos absoluta certeza de que nossas crenças sejam verdadeiras. De modo algum, porém, ele sugere que isso abale nossa confiança no sucesso da ciência: afinal, ela figura como a melhor explicação do nosso conhecimento. Deveríamos permanecer no barco, abertos à possibilidade de que o conhecimento futuro ou a experiência causassem a revisão de nossas crenças, guiados por padrões pragmáticos de simplicidade, conservadorismo, fecundidade, entre outros212. A dúvida cartesiana, entretanto, nos leva a reconhecer que há uma longa distância entre as interações causais com o mundo e as nossas crenças sobre o mundo. Então, por que Quine, ao contrário, se preocupa em descrever essa relação, por meio da psicologia? E mais, por que deveríamos nos impressionar com a psicologia em termos de previsibilidade, isto é, por que dizer que certos meios de aquisição de conhecimento são melhores do que outros? No início deste capítulo destaquei que a questão tradicional epistemologia era sobre “o que é conhecimento?” Ao conceito de conhecimento como crença verdadeira adicionou-se um elemento normativo: a justificação. É a justificação que nos diz quando é certo acreditar em algo e quando não é. Ao abandonar o conceito de justificação em favor de uma epistemologia de caráter eminentemente descritivo, Quine nos aconselha a “levar a sério aquelas teorias e ideias que procedem da pesquisa empírica” (RITCHIE, 2012, p. 71). A verdade relativa às nossas crenças, na visão quineana, é imanente à nossa teoria do mundo. De acordo com seu naturalismo, ele vê juízos de verdade como feitos a partir de
211 O naturalismo substitutivo de Quine elege a segunda opção indicada por Claudio Michelon Júnior, na medida em que há duas opções para a filosofia após a virada linguística: ou bem oferecer uma interpretação dos termos e enunciados jurídicos em termos cuja referência são fatos brutos, ou bem considerar que a maneira pela qual tradicionalmente damos conta dos fenômenos jurídicos é repleta de equívocos e deve ser abandonada” (MICHELON JÚNIOR, 2004, p. 57).
212 Gary Kemp entende que o aspecto normativo dessa afirmação quineana não é a priori, mas deriva do seu aspecto descritivo empírico. Assim: “In successful science, rather, we typically begin with theories that do have some record of successful empirical prediction, and alter them with a view to making more and even better predictions. Such alteration or hypothesis-formation is not precisely rule-governed; rather there are general maxims of conservatism, simplicity and familiarity in addition to the imperative to maximize correct prediction of observation. Standards for what count as good science are therefore set by science itself: science shows us what sort of theories work, and also how they might be improved. Experience teaches us what sort of theories we ought to try, and which we ought not to. Normative epistemology, then, is a bit like engineering or medicine, in that its aim is to derive prescriptions for how to do something - in this case how to formulate theories - based on what has been successful in the past and what not. In fact the analogy with medicine is perhaps more than analogy, as both epistemology and medicine are partly struggles pitting knowledge of nature against nature” (KEMP, 2006b, p. 72).
dentro da nossa teoria do mundo, ou seja, da própria ciência. E nada mais é necessário para discutir o conhecimento.
Tomado o argumento da tradução radical apresentado anteriormente, mostrei que a determinação do significado dos conceitos não é um empreendimento que lhe parece viável, uma vez que não existem significados a serem determinados. Por conseguinte, o estudo da verdade (ou do conceito de verdade) é semântico e se esgota na nossa lista de sentenças que expressam significados equivalentes. Assim: “a neve é branca” equivale a “que ‘a neve é branca’ é verdadeiro”. Não há natureza subjacente na análise conceitual de “verdade” de modo que dizer que determinado fato “é verdade” consiste apenas em fazer certos tipos de generalizações, e assim basta. Esta é sua explicação minimalista do conceito de verdade213. A epistemologia passa assim a ser um estudo da crença. Mas, como disse acima, o estudo da crença é um estudo feito pela psicologia. É deste modo que a epistemologia se torna um capítulo da psicologia. Num certo sentido, a epistemologia naturalizada decreta o fim da agenda epistemológica tradicional, uma vez que não há mais uma busca pelo critério ou pela justificação.
Como isto deveria funcionar? A melhor explicação quineana deste ponto é dada no artigo
Natural Kinds214, em que ele discute através de sua epistemologia naturalizada o problema da indução215. Ele diz:
213 O conceito de verdade merece uma explicação especial aqui. A verdade, na visão de Quine, é imanente à nossa teoria do mundo. De acordo com seu naturalismo, ele vê juízos de verdade como feitos a partir de dentro da nossa teoria do mundo. Por esta razão, Quine tem simpatia com o que às vezes é chamado de teoria mínima ou discitacional da verdade (HYLTON, 2014; RITCHIE, 2012, p. 268): dizer que uma sentença é verdadeira se, com efeito, ela valer a pena. Duas ponderações devem ser feitas. Em primeiro lugar, o ponto de vista discitacional não oferece uma definição de “verdade”. Ele permite eliminar o predicado quando é aplicado a um número finito de sentenças específicas, mas não a partir do contexto em que é aplicado a contextos infinitos. Tais contextos são de particular importância para a teoria lógica. Dizemos, por exemplo, que uma conjunção é verdadeira apenas no caso de ambas as sentenças serem verdadeiras; aqui o predicado “é verdade” não pode ser eliminado. Em segundo lugar, dizer que uma sentença é verdadeira é, de uma forma, o contrário de afirmá-la. Se, posteriormente, mudarmos o nosso veredicto sobre ela diremos que estávamos habituados a acreditar nela, mas agora não mais. No entanto, não dizemos que a sentença costumava ser verdade, mas agora ela não é; sim podemos dizer que ela nunca foi verdadeira. Quine, no entanto, vê isso como simplesmente uma forma de uso, sem implicações filosóficas particulares.
Para Peter Hylton (2014), a imanência da verdade, na abordagem de Quine, pode sugerir que seu realismo é ameaçada por aquilo que se tornou conhecido pela “indeterminação da teoria pela evidência” (FELDMAN, 2012): a de que duas ou mais teorias rivais podem ter as mesmas consequências observacionais e, assim, serem empiricamente equivalentes. Se duas teorias distintas são compatíveis com todas as verdades estabelecidas em termos de observação, com certeza poderíamos atribuir, de forma plausível, qualquer teoria para o falante de outra língua? A fraqueza deste tipo de argumento é que a tradução deve preservar presumivelmente mais do que as ligações entre as frases e estímulos, como capturados por sentenças de observação; ele também deve preservar vínculos entre sentenças, de modo que aceitar uma frase torna um falante da língua mais ou menos propenso a aceitar o outro. Quine acha a indeterminação mais difícil de fazer sentido do que pode parecer.
214 Na explicação de Dennis Patterson, a ideia de tipos naturais (natural kinds) tem como antecedente a teoria das essências reais e nominais de Locke. A verdadeira essência de uma coisa é aquilo que faz a coisa o que é. Essências nominais, ao contrário, são os meios pelos quais distinguimos as coisas como pertencendo a um
“Devo dizer a esta altura que não me perturbarão as críticas de que estou empregando generalizações indutivas, as de Darwin e outras, para justificar a indução, raciocinando assim de maneira circular. Isso não me perturbará porque minha posição é naturalista; estão no mesmo barco – um barco que, para retomar a imagem de Neurath, como faço frequentemente, só podemos reconstruir no mar, enquanto nele estamos navegando. Não há nenhum mirante externo, não há filosofia primeira. Por conseguinte, na minha opinião, todas as descobertas científicas, todas as conjecturas científicas presentemente plausíveis podem prestar-se a usos filosóficos, como a outros quaisquer. Para mim, portanto, o problema da indução é um problema que diz respeito ao mundo; um problema de como poderíamos, tais como estamos agora (pelas nossas luzes científicas presentes) e num mundo não feito por nós, ter chances melhores do que as simplesmente aleatórias, ou as dos jogos de cara e coroa, de obter bons resultados quando fazemos previsões por meio de induções baseadas no nosso padrão de similaridade inato e cientificamente não justificado. A seleção natural de Darwin é uma explicação parcial plausível” (QUINE, 1994, p. 66).
Da afirmação acima, é possível compreender que, para o autor, os antigos problemas epistemológicos são “resolvidos” de modo naturalista através da investigação empírica. Isso implica dizer que “resolver o problema” da indução é prever como nossos cérebros funcionam, ou como nosso aparato cognitivo procede, e para tal, a psicologia e a neurociência desempenham um papel central. A indução é tratada como um processo biológico cerebral que precisa ser entendido. Em linhas gerais, sua estratégia é olhar para a forma como as pessoas realmente realizam inferências indutivas e avaliar os métodos indutivos ao longo dessas dimensões como a confiabilidade, a qual apenas é viável por meio das ciências.
tipo. Essências reais, que dão origem às propriedades de um tipo, são uma característica da estrutura microscópica e são a verdadeira fonte das propriedades fenomenais de uma coisa. Locke e seus contemporâneos não tinham as ferramentas para acesso ao nível microscópico das coisas. Isso significava que quando se voltou para o significado das palavras, essências nominais e tipos não naturais eram tudo o que tinham para guiá-lo. Tudo isto mudou. A ciência natural contemporânea nos oferece acesso completo ao nível microscópico de substâncias de todos os tipos. Estes desenvolvimentos científicos foram retomados por filósofos com interesse em se unir aos avanços do conhecimento científico à teoria semântica (PATTERSON, 2006, pp. 549-550). Aqui é possível notar em Quine esta relação entre linguagem e avanços científicos, especialmente quando ele trata das noções de “tipo” e de “similaridade”: “‘a’ is more similar to ‘b’ than to ‘c’ when ‘a’ and ‘b’belong jointly to more kinds than ‘a’ to ‘c’” (QUINE, 1994, p. 60).
215 “A própria indução, essencialmente, é só mais um exemplo da mesma coisa: expectativa animal ou formação de hábitos. E o aprendizado ostensivo de palavras é um exemplo implícito de indução. Implicitamente, o aprendiz de ‘amarelo’ caminha indutivamente rumo a uma lei geral de comportamento verbal em português, embora se trate de uma lei que ele nunca tentará enunciar; ela caminha em direção ao ponto de onde poderá julgar, em geral, quando um locutor de português daria e quando não daria o seu assentimento a ‘amarelo’” (QUINE, 1973, p. 197).
Se o objetivo da epistemologia tradicional é validar ou fornecer a base para as ciências naturais, a epistemologia naturalizada seria encarregada de validar as ciências naturais, por meio dessas mesmas ciências. Ou seja, uma investigação empírica sobre os critérios que são utilizados para avaliar cientificamente evidências deve pressupor esses mesmos critérios, garantindo, por conseguinte, a sua objetividade.
Ora, a leitura de Quine do desafio cético dá a entender que tal desafio pressupõe a existência de um fundamento último para a ciência. No entanto, o desafio cético refere-se ao problema de como somos capazes de formar nossas crenças (o que inclui as teorias da ciência) elaboradas com base na escassa quantidade de informações obtidas através dos nossos sentidos, pois, afinal, não há evidências no mundo suficientes que nos façam escolher determinada crença ao invés de outra216. Logo, apenas um argumento normativo poderia responder ao desafio à justificação imposto pelos céticos.
Ao mesmo tempo, Quine navega com seu barco para mais longe desse desafio. Ele tenta recuar ainda mais, partindo do princípio, e nos descreve uma história sobre como formamos nossa “rede de crenças” a partir de estímulos sensoriais. Seu ponto de partida, porém, não é algo do qual estamos diretamente conscientes, posto que não pensamos em
inputs causais escassos e outputs torrenciais que não seja algo postulado pela própria
ciência.
Além disso, a investigação científica vai à direção oposta. Ela envolve muito mais do que testar e revisar crenças. É muito difícil imaginar como poderíamos construir duas ou mais teorias radicalmente diferentes, mas empiricamente adequadas para a solução de um mesmo problema de tradução, apenas para me ater ao argumento de Quine. Assim, se a ciência estiver errada (e ele não nega essa possibilidade), não podemos ter certeza de que esses estímulos descritos e previstos por ela de fato existam.
Diante da falta de explicação sobre o que nossa confiança no sucesso das ciências, em especial nas teorias de aquisição de linguagem acima consideradas como a “melhor ciência” fica evidente que a teoria de Quine, por vezes, é meramente especulativa, voltada
216 Interessante relembrar aqui a lição da “verdade-banal”, de Thomas Samuel Kuhn. O raciocínio é o seguinte: toda teoria envolve um corte epistemológico, uma seleção, a qual exige um princípio ou valor que a guie. Há critérios, entretanto, que orientam essa escolha: acuidade, consistência, amplitude de escopo, simplicidade e capacidade de gerar frutos, isto é, de revelar novo conhecimento. Tais critérios, contudo, não são capazes de determinar as escolhas do cientista. De acordo com Kuhn (1977), “Quando os cientistas têm de escolher entre teorias rivais, dois homens totalmente comprometidos com a mesma lista de critérios de escolha podem, todavia, chegar a conclusões diferentes”. Por esta razão, os critérios ainda não são “objetivos” no habitual sentido da palavra, porque os cientistas individuais chegam a conclusões diferentes com os mesmos critérios, devido à valorização de um critério em detrimento de outro ou mesmo por conta de critérios adicionais por razões subjetivas egoístas ou outros.
para a mesma linha de raciocínio a priori por ele recusada na definição da “filosofia
primeira”217. Em suma, é preciso entender não simplesmente o que causa minhas crenças,
mas também o que as justifica. O naturalismo quineano, tal como está, não oferece resposta ao desafio cético.