O governo George H. Bush (1989-1992), inicia-se sob a bandeira do multilateralismo nas relações internacionais, mas sem deixar de pôr os interesses americanos em primeiro plano. Segundo Kissinger (1994), cria-se no cenário internacional a esperança numa nova
ordem internacional em termos tipicamente wilsonianos34. Bush proclamou que os Estados
Unidos possuem
Uma visão de uma nova parceria das nações que transcende a guerra fria. Uma parceria baseada na consulta, na cooperação e na ação coletiva, especialmente através de organizações internacionais e regionais. Uma parceria unida por princípios, pelo cumprimento da lei e baseada numa partilha igual, tanto de custos como de obrigações. Uma parceria cujos objetivos são incrementar a democracia, a prosperidade e a paz e reduzir as armas (BUSH apud KISSINGER, 1994, p.702).
Mas tal discurso não passou de retórica. Os interesses americanos eram prioridade diante da “partilha igual” de custos e obrigações. Na administração Bush, mantiveram-se na equipe de governo os “falcões” participantes do governo Reagan e que dividiram espaço na formulação da política externa americana com os trilateralistas. Os “falcões”, em sua maioria civis que trabalhavam no Pentágono e no alto escalão do governo, representavam os interesses das indústrias especializadas em armamentos com tecnologia intensiva de capital e relacionadas à indústria do petróleo, localizadas no sunbelt (Texas, Messouri, Flórida, Maryland e Virgínia), sendo estas beneficiadas com a Guerra Fria e para onde deslocara a concentração demográfica e econômica nos Estados Unidos a partir da década de 1970.
Em 1992, Dick Cheney, um dos “falcões” e Secretário de Defesa de Bush, emitiu um documento denominado Defense Planning Guidance (DPG), elaborado em sua grande maioria pelo seu subsecretário Paul Wolfowitz, o qual defendia o principal objetivo político e militar dos Estados Unidos, após a Guerra Fria, que consistia na prevenção da emersão de um novo rival, bem como impedir forças hostis aos interesses estadunidenses, sobretudo o acesso
34 Alusão feita a Woodrow Wilson responsável pela formulação da Liga das Nações após a Primeira Guerra
às matérias-primas, principalmente o petróleo, sendo que essas regiões incluíam Europa Ocidental, Ásia Oriental, o território da antiga União Soviética e o sudeste da Ásia. Para Wolfowitz, os Estados Unidos deveriam proclamar abertamente sua hegemonia, manejar o big
stick, como polícia global e usar seu poderio bélico para impedir a proliferação de armas de
destruição em massa.
Todavia, nem todos dentro do partido republicano eram favoráveis ao DPG, sendo que Bush era um deles. Bush fazia parte da ala mais ao centro do partido republicano relacionado ao “trilateralistas” e conservadores tradicionais que favoreciam a formação de blocos econômicos regionais, como o NAFTA. Os Estados Unidos, para esta ala do partido republicano, deveriam liderar o clube das nações mais ricas e poderosas por meio da ONU, do Banco Mundial e do FMI, e utilizar as forças armadas em casos de manter o status quo na América Central, Caribe e Oriente Médio. Sendo assim, tal plano foi arquivado, sendo que Cheney e Wolfowitz irão iludir o outro Bush. Apesar disso, Bush não deixou de aumentar os gastos militares na ordem de US$ 290 bilhões (3,5% do PIB), logo após a Guerra do Golfo, e manter uma força de aproximadamente 1,6 milhões de efetivos.
Para outras regiões do globo, como América Latina, África e Ásia e para os países originários da fragmentação da União Soviética, os Estados Unidos, junto da Europa Ocidental e do Japão, mantiveram relativo controle por meio da dívida externa. Desde a crise Mexicana, em 1982, que colocou em risco o sistema financeiro estadunidense, o FMI e o Banco Mundial passaram a acompanhar mais de perto as contas públicas desses Estados com altas dívidas, inclusive determinando políticas econômicas mediante empréstimos. Na verdade, desde a criação dessas organizações, basicamente para reconstrução das áreas atingidas pela segunda guerra mundial e para manter a “fluidez” do sistema financeiro internacional, tanto o FMI quanto o Banco Mundial foram catalisadores de políticas econômicas nessas regiões que visassem a abertura comercial e a liberdade de fluxo de capitais. Com as crises da dívida externa, políticas econômicas relacionadas a isso mais a flexibilidade de preços, foram implementadas através do programa reconhecido como “Consenso de Washington”, no qual a viga mestra se concentrava na diminuição do controle estatal na economia. A América Latina já havia passado pelo “laboratório” chileno com o golpe de 1973, quando os “chicago’s boys” obtiveram relativo êxito, sobretudo no controle da inflação, mediante altos custos sociais e desconsideração com os direitos humanos.
A estratégia dos Estados Unidos, no âmbito multilateral, consistiu em vincular a renegociação da dívida externa à adoção de programas de structural adjustment, i.e. à aceitação da condicionalidade, que implicava a abertura de mercado para bens,
serviços e capitais, privatização das empresas estatais e desregulamentação da economia, supervisionadas pelo FMI e pelo Banco Mundial (BANDEIRA, 2006, p.520).
No mesmo diapasão, em 27 de junho de 1990, o governo Bush anunciou o Enterprise
of the Americas Iniciative (EAI), no qual consistia, mesmo em revelia aos sindicatos dos
Estados Unidos, na instituição de uma zona de livre comércio, desde Anchorage, no Alaska, até a Terra do Fogo. Segundo, Moniz Bandeira (2006) a estratégia estabelecida pelo governo estadunidense era reduzir os desequilíbrios na balança comercial através de exportações para os países da região, sem precisar negociar com os governantes da região, bem como eliminar a concorrência européia e japonesa. O primeiro foi o North American Free Trade Agreement (NAFTA), com o México e com o Canadá, no qual as corporações transnacionais poderiam transacionar mercadorias e fatores de produção, exceto força de trabalho, e o segundo seria por em prática a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que envolveria, basicamente, o livre comércio e a livre mobilidade de capitais, dentre os 34 países da região.
Contudo, essas não foram as primeiras tentativas dos Estados Unidos de apostar na livre mobilidade comercial e de capital no mundo para recuperar a parcela de suas exportações no comércio internacional. Desde as negociações da Rodada Keneddy (1962- 1967), seguida das negociações da Rodada do Uruguai (1987-1994), que culminou na transformação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) em Organização Mundial do Comércio (OMC), sendo que esta “tornou-se outro pilar da ordem econômica mundial e conformou com o FMI e o Banco Mundial, destinada a supervisionar e fazer cumprir as normas do sistema de governo ultra-imperial (...), sufocando a autonomia e erodindo a soberania dos Estados nacionais, por meio da globalização” (BANDEIRA, 2006, p.522). O Governo Clinton tentou seguir nessa mesma linha, mas a profecia de Eisenhower estava consolidada.