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3.2 Hvorfor behov for en reform –

No latim, encontramos a etimologia das três diferentes formas de plural utilizadas para o grupo terminado em –ão no PB. Segundo Sequeira (1943), no latim havia, originalmente, as terminações –anem, –anum, –onem –onum e –udinem para formas no singular. Cada uma dessas formas apresentava um plural diferente, conforme podemos observar no quadro abaixo:

Quadro 1: Formas de singular e plural existentes no latim

Singular Plural Exemplos

–anem –anes panem panes

–anum11 –anos germanum germanos

–anum –anus manum manus

–onem –ones leonem leones

–onum –onos patronum patronos

–udinem –udines certitudinem certitudines

Até o século XIV, a situação das formas de singular e plural continuava a mesma; no entanto, a partir desse século, essas terminações sofreram uma série de modificações que resultaram na convergência para uma única forma singular, o –ão do PB. Explicando brevemente essas mudanças, primeiramente, a desinência –em, relativa ao acusativo singular latino, desapareceu, por causa do enfraquecimento das terminações

11 A terminação –anum apresentava duas formas diferentes de plural: –anos e –anus, por isso foi registrada duas vezes no Quadro 1.

referentes aos casos latinos e do desenvolvimento gradual das preposições. Em um segundo momento, a nasalidade do segmento /Q/ intervocálico foi assimilada pela vogal precedente, fazendo com que o /Q/ sofresse síncope. Posteriormente, houve fusão das duas vogais contíguas e, bem mais tarde, a partir de transformações diferentes para cada uma das terminações, as formas singulares se fundiram em –ão. Tais transformações podem ser visualizadas através dos exemplos abaixo:

pane > *pãe > pã > pão

multitudine > multidõe > multidõ > *multidõo > multidão

*coratione > *coraçõe > coraçõ > coraçõo > coração

manu > mão

(GUERIOS, 1942, p. 118)

Nunes (1945, p. 226-227) apresenta sua análise para a evolução das formas em –ão do português moderno:

[...] até o século XIV manteve-se entre as terminações –ao (sic), –ã, –õ e –õe a diferença resultante das suas distintas proveniências, que foram respectivamente –anu–, –ana–, –one– e –u dine–, depois, –õe perdeu o –e, como já em tempos pré- -literários tinha sucedido a –ã, representante de –ane–, e a –õ, sem dúvida porque o seu plural era igual aos dos nomes da última terminação. Em seguida estas duas vogais nasais, a primeira talvez sob influência de –ão, tomaram um –o de encosto, resultando de aí os ditongos nasais –ão e –õo (na pronúncia ãu e õu). Este último, que ainda persiste nalgumas falas dialectais, ou por dissimilação ou por outra causa que se ignora, tornou-se depois em –ão, chegando assim a reduzir-se a uma única forma, –ão ou –am (como também se escrevia) as quatro antigas, mas continuando a observar-se no plural a diferença que existira no singular.

Nunes (1945) enfatiza que a fusão das formas singulares foi gradual, ocorrendo primeiramente na língua falada, para depois consolidar-se na escrita. Outro ponto importante comentado pelo autor é o fato de que, em textos do século XV, é comum encontrarmos a mesma palavra (do grupo em –ão) grafada de duas formas diferentes.

Mattos e Silva (19--, p. 137) adverte o seguinte:

Nos documentos medievais esse processo de convergência [das formas em –ão no singular] aparece reflectido na grafia de textos sobretudo posteriores ao século XIV; no entanto, em documentos literários e não literários do século XIII já se pode (sic) rastrear os inícios desse processo.

Portanto, a convergência das formas em –ão no singular alcançou seu auge no século XIV, mas, no século XIII, casos isolados dessa fusão já eram noticiados. O quadro abaixo, extraído de Sequeira (1943, p. 48), sumariza a evolução das formas do singular:

Quadro 2: Evolução das formas do singular latino até o português –ão

Latim Português preliterário (sic)

Até ao séc. XIV Séc. XIV-XV Desde o séc. XV-XVI –one –udine –onu –ane –anu12 *–õe –õe –õo *–ãe –ão –õ –õe –õ13 –õo –ã –ão –õo –ão –ão

No quadro acima, percebemos que as terminações que possuíam diferentes formas no singular latino fundiram-se todas no morfema –ão, que prevalece até hoje no PB. No entanto, no plural, as transformações sofridas por essas desinências não foram as mesmas, por isso a pluralização até hoje ainda conserva terminações distintas, apesar de haver casos abundantes (formas singulares que admitem mais de um plural) registrados em gramáticas do PB. Segundo Sequeira (1943, p. 48), a evolução das formas de plural foi a seguinte:

Quadro 3: Evolução das formas de plural em –ão do latim ao português

Vocábulos latinos Plurais latinos Plurais arcaicos Plurais modernos Vocábulos portugueses Leones Certitudines Patronos Panes Germanos Manus –ones

–udines –ões –ões –onos

–anes –ães –ãis –anos –anos –ãos –ãos –anus Leões Certidões Padrões Pãis(sic) Irmãos Mãos

12 O referido livro não mencionava a forma –ano neste quadro, provavelmente porque o autor já estava considerando a fusão das terminações –anu e –ano.

13 A utilização do negrito no quadro acima tem como objetivo ressaltar que os três plurais (–õ, –õe e –õo) fundiram--se em –õ.

Parreira e Pinto (1985, p. 161) apresentam um bom sumário sobre a questão da evolução das formas de plural e singular:

Os substantivos terminados no singular em –ão formam o plural de três modos diferentes: –ãos, –ões e –ães. Na passagem do latim para o português verifica-se a queda do n intervocálico e a nasalação da vogal tónica e posteriormente a contracção das duas vogais. Enquanto no singular se dá a convergência das três formas latinas diferentes:

< –anum –ão < –onem

< –anem no plural essa convergência não se deu: –ãos < –anos

–ões < –ones –ães < –anes

Depois dessas transformações fonéticas ocorridas na evolução das formas em –ão do português moderno, não existe mais uma utilização consistente do plural etimológico14 dos itens em –ão, assim como não existe, também, uma regra geral que possa ser aplicada a esse grupo. Nunes (1928, p. 164) faz um comentário importante a esse respeito: “Quanto aos [itens] de temas vocálicos, êsses continuaram a formar o respectivo plural consoante a regra própria de tais nomes, isto é, com a adjunção apenas do morfema –s ao singular, assim: cristãos, grãos, mãos, sãos, vãos, etc.”

Portanto, com relação às palavras terminadas em –ão, apenas o grupo de etimologia em –ano conserva a regra geral de pluralização das palavras terminadas em vogal no PB, ou seja, o acréscimo do morfema –s. Nos demais grupos (de etimologia em –ane ou –one), por causa das transformações fonéticas que resultaram na convergência para uma única forma no singular, a regularidade de pluralização a partir do acréscimo do morfema –s já não se aplica. Conforme veremos no capítulo “Análise de Dados”, o morfema –ãos, a despeito de sua pluralização regular, também sofre variação.

Ainda com relação à preservação da etimologia dos itens terminados em –ão no singular, uma possível fonte para a recuperação do plural etimológico poderia ser a derivação. Pares de palavras como “capitão”/“capitANIa”, “pão”/“pANIficação”; “grão”/“grANUlado” e “mão”/“mANUfaturar” podem fornecer indícios para a manutenção da etimologia. Nos casos de “capitão” e “pão”, a derivação nos fornece

14 Nesta tese, vamos utilizar os termos “plural etimológico” para as formas de plural que eram utilizadas no latim e “plural analógico” para outras formas de plural que se desenvolveram a partir da analogia.

–ANI–, portanto o plural etimológico seria –anes (–ães no PB); em “grão” e “mão”, a derivação nos fornece –ANU–, então o plural etimológico seria –anus (–ãos no PB). Casos como “leão”/“leONInos” e “abolição”/“aboliciONIsta” recuperam –ONE– no radical, portanto o plural é em –ões. A derivação funcionaria como uma boa fonte para a manutenção do plural etimológico, no entanto dois problemas ocorrem: i) Essa derivação não é tão facilmente recuperável, tanto que variações na utilização das diferentes terminações de plural em –ão ocorrem. “Corrimão”, por exemplo, por ser derivado de “mão”, tem plural etimológico em “corrimãos”, no entanto a forma “corrimões” já é aceita por gramáticas e dicionários do PB (Cf. ROCHA LIMA, 1984, p. 76); ii) Há casos cujo plural etimológico não pode ser recuperado por derivação, como “verão” – “verANIsta” (a derivação gera –ANI– (–ães no PB), mas o plural etimológico é “verãos” e não “*verães”), “órgão” – “orgANIzar” (a derivação também gera –ANI– (–ães no PB), mas o plural etimológico é “órgãos”, e não “*órgães”).

A partir do que foi exposto acima, podemos compreender melhor por que existe controvérsia na pluralização das formas em –ão do PB. Em termos de história da língua, as causas básicas desse fato são: 1) As formas de singular em –ão fundiram-se em uma só, mas as formas de plural permaneceram diferentes. Por conta disso, o correlato etimológico se perdeu, o que gerou divergências quanto à forma a ser adotada como plural; 2) Por conta da analogia, algumas palavras passaram a ter plural duplo ou tríplice (Cf. FERNANDES, 1947, p. 13-14).

A próxima subseção apresenta os comentários e ponderações da gramática normativa acerca da pluralização de palavras terminadas em –ão no singular.