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9.8 Alternative finansieringsmodeller
A fim de elicitar dados que fossem válidos para a análise dos grupos de plurais em –ão, –l e ditongo em –u do PB e suas possíveis correlações com representações mentais, uma dificuldade inicial se apresentou. Esses grupos de plurais apresentam poucas palavras e, além disso, tais itens têm, em geral, baixa freqüência de ocorrência, sobretudo na língua falada. Como vimos nas Tabelas 5, 8 e 9 do Capítulo 3 (“Revisão de Literatura”), o Corpus ASPA registra 1.389 dados de –ão, 679 dados de –l e 29 de –u, todos nas suas formas
plurais. Essa escassez de itens léxicos para os grupos sob análise foi, portanto, o primeiro problema que enfrentamos na coleta de dados. Nossa intenção inicial era considerar dados de fala espontânea e dados extraídos a partir de experimentos. Tínhamos o intuito de contrapor esses dois resultados, a fim de observar se as generalizações de plural eram mais comuns na fala espontânea ou se também ocorriam em experimentos previamente delineados com o objetivo de fazer o falante pronunciar itens específicos. Para testar a validade dessa metodologia (com entrevistas espontâneas e experimentos psicolingüísticos), realizamos alguns testes-piloto. Esses testes consistiram de entrevistas com falantes e realização de experimentos (conforme descreveremos posteriormente). Com relação às entrevistas, de acordo com Labov (1972), essas foram conduzidas como conversações informais, que focalizaram a história particular de vida do informante, bem como suas opiniões pessoais quanto a questões sociais, históricas e culturais do país e do mundo. Dentro dessas conversas informais, procuramos introduzir perguntas que, de certa forma, induzissem o falante a pronunciar as palavras que eram nosso objeto de estudo. Exemplos dessas perguntas e suas respectivas palavras-alvo (sublinhadas) são: “Você tem irmão?”, “Você gosta de ir a museu?” “Você tem o hábito de ler jornal?”, dentre outras.
Os experimentos psicolingüísticos foram também utilizados, de modo a verificar se os falantes pronunciavam, a partir desses estímulos, as formas que eram objeto de estudo em nossa tese. Maiores esclarecimentos sobre essa etapa da coleta de dados serão fornecidos posteriormente. Para o presente momento, devemos apenas esclarecer que realizamos alguns testes-piloto com o objetivo de avaliar se poderíamos adotar a entrevista (nos moldes descritos acima) e os experimentos (descritos posteriormente) como fontes para a elicitação dos dados necessários à nossa pesquisa.
Ao todo, nesta etapa de teste-piloto, realizamos três entrevistas com falantes diferentes, selecionados aleatoriamente. Eles não estavam cientes do objetivo da interação, nem de que estávamos fazendo uma pesquisa lingüística. Se os informantes soubessem disso, haveria mais monitoramento e, conseqüentemente, uma fala mais cuidada, o que diminuiria bastante o número de variantes não-padrão, que eram justamente nosso objeto de análise. Sendo assim, dissemos aos informantes que estávamos fazendo uma pesquisa sobre a capacidade de memória das pessoas, procurando identificar se diferentes faixas etárias interfeririam na capacidade de memorização dos indivíduos. Todos os informantes assinaram o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” (Cf. “Anexo A”), de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. As entrevistas duraram em média
30 minutos e foram gravadas utilizando um gravador digital Olympus modelo VN-480PC. Posteriormente, os dados coletados foram digitalizados e codificados de acordo com variáveis lingüísticas e extralingüísticas a serem mencionados nas subseções 5.4 e 5.5 deste capítulo.
Basicamente, nossa avaliação dos testes-piloto realizados concluiu que o número de dados coletados a partir das entrevistas espontâneas era muito pequeno. As dificuldades para a elicitação desses dados eram duas: 1) Em primeiro lugar, os itens terminados em –ão, –l e ditongo em –u são, realmente, pouco freqüentes na língua (conforme estatística apresentada anteriormente), o que, por si só, já dificulta sua ocorrência em conversas informais; 2) Era difícil fazer com que o falante pronunciasse a palavra-alvo no plural. Se perguntávamos, por exemplo: “Você gosta de ler jornal?”, com a intenção de que o informante dissesse a palavra no plural, em geral o falante respondia também no singular, como, por exemplo: “Jornal? Ah, não... não leio jornal muito, não”. Nos testes-piloto, havia 25 perguntas relacionadas a unidades temáticas em que introduzíamos perguntas com palavras pertencentes aos plurais em –ão, –l e ditongo em –u. Falávamos tais palavras no singular, já que pronunciar a forma no plural induziria a adoção de uma forma específica por parte do falante, mas nosso objetivo era que o informante produzisse, em suas respostas, uma forma espontânea de plural para aqueles itens. Três testes-piloto foram feitos, a fim de verificar se, com essa metodologia, conseguiríamos coletar dados em número suficiente para os plurais em análise nesta tese. Ao fim desses três testes, conseguimos um total de 33 ocorrências de dados válidos, ou seja, itens terminados em –ão, –l e ditongo em –u no plural. Se todos os três falantes tivessem adotado as formas de plural para as 25 palavras que foram apresentadas, haveria 75 dados. As 33 ocorrências dessas palavras correspondem, portanto, a 44% do quantitativo de dados que esperávamos coletar. Com 33 ocorrências extraídas de três informantes, houve uma média de 11 dados por informante, para os três grupos de plurais sob investigação. Consideramos que essa quantidade de ocorrências por falante era insuficiente para que conclusões sobre os plurais analisados pudessem ser esboçadas. Tais problemas dificultaram bastante a coleta de dados válidos para os plurais terminados em –ão, –l e ditongo em –u e fizeram com que buscássemos soluções para que um número maior de dados pudesse ser coletado.
Uma alternativa para elicitar maior quantidade de dados válidos nas entrevistas seria formular as perguntas utilizando as palavras no plural, como, por exemplo: “Você tem irmãos?”, “Você gosta de ir a museus?” “Você tem o hábito de ler jornais?”. Talvez a
adoção de perguntas com palavras no plural fizesse com que os informantes também utilizassem formas pluralizadas em suas respostas. No entanto, ao adotarmos palavras no plural, de certa forma já estaríamos induzindo o informante a pronunciar as palavras naquela forma de plural que utilizamos. Por exemplo: a palavra “vilão”, segundo gramáticas normativas do PB, pode ser pluralizada como “vilões”, “vilãos” ou “vilães”. Acontece que, se, durante uma entrevista, perguntamos ao informante o que ele acha dos “vilões” das novelas, é pouco provável que esse informante adote, em sua resposta, uma forma de plural diferente daquela que utilizamos em nossa pergunta (“vilões”). Em virtude disso, a opção de formular as perguntas com as palavras no plural não seria viável.
Ainda com relação a essas entrevistas, outra consideração que fizemos foi a seguinte: um dos nossos objetivos era avaliar se a freqüência com que um item léxico é utilizado interfere na sua suscetibilidade a variações de plural. Então, era necessário que o falante pronunciasse palavras de freqüências baixa, média e alta, a fim de que os efeitos de freqüência pudessem ser adequadamente avaliados. No entanto, em fala espontânea, alguns itens infreqüentes são ainda mais difíceis de ocorrer, tais como “mausoléu”, “réu”, “escrivão”, “guardião”, “mel” e “sol”, para citar dois exemplos de cada um dos grupos analisados. Considerando-se a baixa freqüência de ocorrência desses itens em sua forma plural, como poderíamos extrair esses dados em fala espontânea?
Todos esses motivos nos levaram a considerar que elicitar dados de fala válidos para a análise de freqüência a partir de entrevistas talvez fosse inviável. Apesar disso, não queríamos excluir tais dados (falados), porque sabemos que as variações lingüísticas originam-se na fala para depois alcançarem a modalidade escrita da língua. Assim, começamos a pensar em alternativas possíveis para analisar dados de fala sem realizar entrevistas, já que essas demonstraram não ser eficientes na elicitação dos dados para os plurais em –ão, –l e ditongo em –u.
Uma possibilidade avaliada foi reutilizar os mesmos dados considerados por Scherre (1988) em sua tese de doutorado sobre concordância nominal no PB. Essa amostra é chamada de “Projeto Censo” e é constituída por entrevistas com 64 falantes da cidade do Rio de Janeiro. Tais dados foram coletados no período de 1980 a 1984 com o objetivo de avaliar processos de variação e mudança na fala dos cariocas. O acesso aos dados de tal projeto pode ser feito através da internet, no site <http://www.letras.ufrj.br/~peul/amostras.htm>. Das 64 entrevistas, só conseguimos fazer o download de 60, porque quatro delas apresentaram problemas eletrônicos que
impediram o computador de salvar esses arquivos. Nas 60 entrevistas que analisamos, não foi possível contabilizar o número exato de dados, porque as falas do entrevistador e do entrevistando eram transcritas na íntegra, o que inviabilizou a contagem das palavras faladas apenas pelos informantes. O site do “Projeto Censo” não mencionava a quantidade exata de dados desse corpus. Consultamos a tese de Scherre (1988) para verificar se ela mencionava o quantitativo de dados do Projeto Censo, mas ali não havia, também, essa informação.
Apesar de não conhecermos o número exato de dados totais do Projeto Censo, verificamos, em Scherre (1988), a quantidade de ocorrências válidas para os plurais em –ão e –l, que foram analisados isoladamente pela autora (os itens terminados em ditongo em –u foram alocados no grupo de plurais regulares, com acréscimo de –s (SCHERRE, 1988)). As Tabelas 6.2.2.22 e 6.2.2.24 daquela tese (Cf. páginas 129 e 132) apresentam, respectivamente, os seguintes quantitativos desses dados no “Projeto Censo”: 93 itens terminados em –l e 200 pluralizados em –ães ou –ões52, codificados em um mesmo grupo. Os itens pluralizados em –ãos foram codificados como plural regular e contabilizam 38 dados (Cf. SCHERRE, 1988, p. 125). Apesar de não conhecermos o número total de dados do Projeto Censo, consideramos que a quantidade de dados para os plurais em –ão e –l que esse corpus apresenta (331, somando-se os três grupos) era muito pequena para que conclusões pudessem ser alcançadas. Por causa disso, descartamos a possibilidade de basear nossa tese nesse corpus.
Considerando-se essas dificuldades para conseguir um número maior de dados de fala para a análise dos grupos de plurais do PB, a decisão que tomamos foi a seguinte: descartamos esses dados (de fala) e elaboramos nossa pesquisa apenas a partir de experimentos lingüísticos delineados com o objetivo de fazer o informante pronunciar as palavras que eram objeto de estudo em nossa tese. É claro que, idealmente, seria interessante realizar comparações entre os dados extraídos desses experimentos e dados de fala; no entanto, por considerarmos, principalmente, a baixa ocorrência de itens terminados em –ão, –l e ditongo em –u, resolvemos analisar dados oriundos apenas de experimentos.
52 Os itens em –ão foram codificados por Scherre (1988) da seguinte maneira: palavras pluralizadas em –ões e –ães (“leões”, “pães”, por exemplo) foram consideradas como pertencentes à formação de plural em –ão; palavras com plural em –ãos foram codificadas como regulares, pluralizadas a partir da adição do morfema –s (Cf. Capítulo 3, “Revisão de Literatura”). Os 200 dados a que nos referimos aqui, são, portanto, relativos ao grupo que se pluraliza com os morfemas –ões e –ães. Os demais itens são contabilizados por Scherre (1988) juntamente com as palavras de pluralização regular.
Devemos salientar que estamos cientes de que a opção de trabalhar somente com experimentos lingüísticos apresenta problemas. Em primeiro lugar, na realização de testes dessa natureza, perdemos a extração do vernáculo, modalidade de fala em que formas não-padrão ocorrem de forma espontânea. Além disso, os falantes costumam apresentar algum nervosismo quando sabem que estão sendo submetidos a uma situação de teste, o que, em teoria, poderia afetar o desempenho de nossos informantes e fazer com que, nos experimentos, houvesse respostas que não ocorrem na fala espontânea. No entanto, apesar dessas limitações dos experimentos psicolingüísticos, decidimos optar por tal modalidade de elicitação de dados, por dois motivos principais, a saber: 1) A ocorrência de itens terminados em –ão, –l e ditongo em –u em situações de fala espontânea é muito baixa (Cf. freqüência no ASPA e Projeto Censo); além disso, um dos nossos objetivos era avaliar se a freqüência de ocorrência do item léxico interferiria na possível generalização de plurais. Dessa forma, precisávamos coletar dados de faixas diferentes de plural (baixa, média e alta). Alguns itens de alta freqüência ocorrem com mais facilidade em entrevistas espontâneas, como “jornal”, “museu” e “irmão”. No entanto, itens de baixa freqüência, como “escrivão”, “jirau”, “sol”, dificilmente seriam elicitados em entrevistas, ainda mais em suas formas plurais, por isso seria inviável analisar efeitos de freqüência a partir de entrevistas espontâneas; 2) Em segundo lugar, o Modelo de Redes e a Teoria dos Exemplares (adotados como escopo teórico para nossa tese) utilizam, em algumas de suas análises, dados extraídos apenas a partir de experimentos. Como exemplos disso, podemos citar: i) Bybee e Moder (1983), que elaboraram um experimento com palavras hipotéticas com o intuito de analisar como os falantes flexionariam verbos inventados que partilhassem semelhanças com os verbos irregulares do paradigma “string”/“strung” no inglês; ii) Bybee e Newman (1995), que criaram uma língua hipotética a fim de observar se os falantes, flexionando as palavras dessa língua, adotariam, em maior proporção, sufixação ou mudança de radical; iii) Treiman et al. (2000) apud Pierrehumbert (2001c), que organizaram experimentos para observar a sensibilidade dos falantes a restrições fonotáticas da língua. Observamos, portanto, que a elaboração de experimentos é uma prática usualmente adotada pelo Modelo de Redes e pela Teoria dos Exemplares. Por causa desses motivos, consideramos que utilizar somente testes psicolingüísticos não invalidaria as conclusões alcançadas por nossa tese.
A subseção seguinte descreve como foram elaborados e aplicados os experimentos utilizados para a elicitação de dados em nossa pesquisa.