Do ponto de vista da vida, Piaget afirma que a única verdade experimental que a
ciência, isto é, o realismo científico (que ele pretende construir), pode compreender e nos dizer, é que, se o “indivíduo atribui à vida um valor qualquer”, os valores de sua escala de
valores precisam seguir e ser coerentes com a definição da vida entendida como uma organização, uma organização cujo ideal ou organização ideal é definida pelo equilíbrio elementar do primeiro tipo ou equilíbrio ideal. E então, este equilíbrio ideal deve ser tomado
como a “norma de todos os valores”.
Em outras palavras, o equilíbrio ideal afirmado pela organização ideal deve ser tomado como a norma ou o valor supremo da ordenação e da coerência entre todos os valores da escala de valores do indivíduo. E mais, este valor supremo da escala de valores do indivíduo precisa ser tomado, tanto sob a sua perspectiva individual, quanto sob a perspectiva social de sua vida, pois deve haver coerência entre o equilíbrio ideal da organização, que é a sociedade, e que engloba todos os indivíduos numa totalidade, e o equilíbrio ideal da organização que é o indivíduo, que é uma parte do todo social. Deste modo, esse único valor supremo deve ser tomado como a “norma de todos os valores”, sejam eles referidos às escalas de valores individuais ou à escala social de valores.
Entretanto, se de uma parte, Piaget afirma que este ideal é a verdade experimental que a ciência pode compreender e nos dizer, de outra parte, ele ressalta que, de qualquer modo, “se esta é a vida”, são apenas os “homens que o dizem”, e, portanto, resta a “grande questão,
a única questão do destino humano”, que é a de saber se este ideal é um valor apenas para os seres humanos, ou se este ideal é um valor absoluto, e, neste último caso, é então preciso
saber se este ideal ou valor “vale por relação com o fundo mesmo das coisas”, ou seja, se ele vale com relação ao absoluto.
Ora, para o realismo científico que Piaget pretende construir e defender, só as formas
a priori do pensamento podem ter um alcance objetivo das coisas, e só elas nos dão o que podemos conhecer, enquanto o universal e o absoluto permanecem incognoscíveis para nós, e
a “metafísica impossível”. Por isso, Piaget considera que não há “nenhuma solução teórica
para o problema do valor absoluto”, e que só resta a seguinte pergunta: O que fazer?
Embora Piaget considere que, sob a perspectiva do realismo científico, não temos nada a dizer ou a compreender sobre o problema do valor absoluto, ele também reconhece que, de qualquer modo, “devemos crer ou não crer, quer dizer, viver ou não viver”, ou seja,
precisamos decidir se devemos viver ou não. Para Piaget, a questão colocada nestes termos,
faz ver que toda a ação humana toma algum partido em relação ao valor da vida, seja afirmando o seu valor ou seja negando o seu valor, mesmo que o indivíduo permaneça em dúvida sobre se a vida tem ou não algum valor, ou sobre se ele deve ou não viver.
O mais importante nesta questão de ter de decidir viver ou não, é que, qualquer que seja a ação decorrente desta decisão, e a própria ação compreendida no processo de decisão, enquanto o indivíduo age, em quaisquer destes casos, é porque ele ainda decide viver, e enquanto ele decide viver, é porque ele continua a agir, mesmo que ainda mantenha as suas dúvidas sobre a certeza e o valor de sua ação e sobre o próprio valor da vida.
Assim, para o indivíduo, independentemente da compreensão (ou não) de que o valor de sua ação é relativo apenas aos homens, ou se o valor de sua ação é um valor absoluto que independe dos homens, pois se refere, mais profundamente, à sua ligação com o absoluto, em quaisquer destes casos, toda a ação que envolve a decisão sobre se devemos ou não viver, é uma ação de âmbito metafísico, pois esta decisão exige a afirmação ou a negação prática e atual de um valor absoluto que independe do que as formas a priori do pensamento nos permitem conhecer objetivamente, no interior da perspectiva do realismo científico que tem a pretensão de explicar apenas uma parte do fundo do absoluto. Neste sentido, Piaget afirma que a única alternativa a seguir é: “Eu me decido a afirmar um valor absoluto ou eu me
decido a negá-lo. Não há nuance possível”. E então, ao meditar sobre a questão da liberdade, do valor absoluto e do valor da vida envolvidas nesta decisão, Piaget conclui que326:
Mas minha decisão não é livre, não há qualquer decisão humana [Mais ma décision n’est pas libre, pas qu’aucune décision humaine]. Meu pensamento [pensée] é o produto [produit] de meu temperamento [tempérament] e meu temperamento [tempérament] de meu organismo [organisme]. Se eu me decidi por [Si je me suis décidé pour] é porque eu
queria viver [voulais vivre], e este querer viver [vouloir vivre] é
determinado [déterminé] pelo mecanismo de minhas células [mécanisme de mes cellules], quer dizer por um mecanismo ancestral [mécanisme ancestral], quer dizer pela vida desde as suas origens [par la vie dès sés origines], quer dizer pela constituição da matéria [constitution de la matière]. Mas então há um valor absoluto! [une valeur absolue!] Note que o raciocínio [raisonnement] não mudaria nada [ne vaudrait rien] se ele fosse sobre uma crença particular, como a crença em Deus, pois meu querer viver (vouloir vivre) poderia abusar de mim à sua maneira. Mas se a questão [question] é a de viver ou não [si la question est de vivre ou non], não há
engano possível [Il n’y a pas duperie possible]. A vida, nos seus mais altos
valores [La vie, dans ses plus hautes valeurs], é a ordem das coisas [est
donc dans l’ordre des choses], se nós entendemos por ordem [si nous entendons par ordre], uma ordem ao menos mecânica, senão mais [un ordre au moins mécanique, sinon plus]. (negritos nossos).
Algumas afirmações postas nesta citação nos permitem ampliar a compreensão da posição de Piaget, em Recherche, quanto ao problema dos valores. Para começar, vamos analisar a afirmação de que a “minha decisão não é livre, não há qualquer decisão humana”. Com esta afirmação Piaget quer mostrar que o nosso “querer viver” explica a razão de toda e qualquer decisão por. O “querer viver” do indivíduo resulta de uma cadeia de determinações originadas na constituição da matéria que determinou os mecanismos ancestrais da vida em suas origens, e estes mecanismos que estão presentes nas células e no organismo determinam o temperamento do indivíduo que, por sua vez, determina o seu pensamento, e, ao final desta cadeia de determinações, o pensamento do indivíduo decide querer viver, ou não. Assim, o significado fundamental daquela afirmação é mostrar que todo pensamento do indivíduo que
decide por implica um “querer viver” do indivíduo que é determinado pela ordem das coisas,
a ordem racional e necessária da natureza, da qual o indivíduo faz parte.
Desse modo, se todo pensamento que decide por implica o “querer viver”, e se todo “querer viver” resulta de uma cadeia de determinações naturais, necessárias e racionais, que é a ordem das coisas, então, qualquer tipo de pensamento que decide por implica em certa explicação da ordem do “querer viver” e da ordem das coisas da qual esta ordem do querer
viver resulta e é parte. É essa a explicação que sustenta a afirmação ou a negação da decisão de querer viver, seja ela racional ou não, segundo cada tipo de pensamento e cada um de seus
modos derivados de pensar. No caso da Razão, o pensamento racional que decide por implica, como única razão deste pensamento, a necessidade natural e racional do “querer
viver”. Deste modo, no pensamento racional, só podemos decidir por querer viver, pois a
ordem deste pensar é coerente com o “querer viver”, cuja ordem, por sua vez, é sustentada e determinada pela “ordem das coisas”. Portanto, a ordem do pensar da Razão ou do
pensamento racional implica, afirma e é coerente, tanto com a ordem do querer implicada no
“querer viver”, quanto com a ordem das coisas implicada na ordem deste “querer viver”. Mas, se todo decidir por sempre implica um “querer viver”, como é possível que um indivíduo possa, em algum momento de sua vida, decidir por não querer viver? Para responder a esta questão precisamos analisar mais alguns aspectos da última citação, principalmente onde Piaget, após apresentar a cadeia de determinações do “querer viver”, escreve que: “Mas então há um valor absoluto!”.
Parece certo que esse valor absoluto se refere ao “querer viver”, mas no final da citação Piaget afirma que: “se a questão é a de viver ou não, não há engano possível. A vida,
percebermos que a primeira parte da afirmação não diz que “não há engano possível” em “querer viver”, mas sim, que “não há engano possível” “se a questão é a de viver ou não”.
Ora, pelo que foi dito até aqui, sabemos que: 1) a questão de viver ou não e a
afirmação de que “não há engano possível” em “querer viver” são elaborações do pensamento. 2) o “querer viver” independe do pensamento e de suas decisões e, ao inverso, é a afirmação do “querer viver” sustenta e determina os tipos de pensamento e as suas decisões. 3) um indivíduo tanto pode decidir querer viver, quanto pode decidir não querer viver.
Agora, com esse inventário do que já sabemos, percebemos que a afirmação de que “não há engano possível” (para o pensamento) “se a questão” (do pensamento) é a de “viver
ou não” (segundo o que é pensado), esta afirmação não parece tão evidente, pois sabemos que podemos tanto decidir viver, quanto decidir não viver.
Consideramos que a solução da interpretação dessa passagem da citação consiste em: 1. ver que a questão de viver e a resposta da afirmação da ausência de engano possível são elaboradas pelo pensamento que encontrou uma resposta para a questão de viver ou não que o conduz a uma decisão coerente com a afirmação de que “não há engano possível”, e ao se tomar esta decisão, simultaneamente, esta é compreendida como necessária; 2. considerar que essa questão e afirmação são sustentadas pela segunda parte do fechamento da citação, onde é dito que “A vida, nos seus mais altos valores, é a ordem das coisas [...]”.
Sobre essa segunda solução, lembremos que a “ordem das coisas” sustenta e determina o “querer viver” e que o pensamento racional só decide por querer viver, e que vimos que, neste caso, há uma coerência entre o “querer viver” e a decisão de querer viver. Portanto, se certo tipo de pensamento decide por não querer viver, é porque este tipo de pensamento não é o pensamento racional, e só por isso ele pode contrariar o que é necessariamente prescrito pelo pensamento racional. Mas que tipo de pensamento é este que pode contrariar as prescrições do pensamento racional? É o tipo de pensamento autístico ou simbólico, ou seja, a imaginação e todos os seus modos derivados de pensar.
Agora compreendemos a razão pela qual “A vida, nos seus mais altos valores, é a
ordem das coisas”. Como já vimos anteriormente, a vida é a organização. A organização compreende uma ordem interna de relações entre as suas partes e o seu todo, e compreende uma ordem externa de relações com as outras organizações e com o mundo externo que, por sua vez, formam todos juntos um só todo, onde a organização é uma parte deste todo.
A noção de ordem responde pela inteligibilidade da coerência interna e externa da organização, só percebida adequadamente pelo pensamento racional que sempre afirma a decisão de querer viver, pois, neste caso, o pensamento racional que decide por e a decisão de
querer viver são imanentes apenas à ação de “querer viver”. No mesmo sentido, a consciência coerente e simultânea do “querer viver” e da razão deste querer na “ordem das coisas” (natural e necessária), que está envolvida na decisão de querer viver, essa consciência sustenta a afirmação de um valor supremo ou absoluto, que é o valor da vida identificado à
ordem das coisas, e por isso, “A vida, nos seus mais altos valores, é a ordem das coisas”. Assim, a dúvida sobre o valor da vida ou sobre a decisão de viver ou não viver está ligada à deformação do nosso conhecimento e na ignorância sobre a união da nossa ordem de vida (ordem de nosso ser e existir) na ordem das coisas, e vice-versa. E, ao contrário, quanto mais adquirimos um conhecimento racional sobre a inserção de nossa ordem de vida na ordem das coisas, e vice-versa, então, tanto maior é a certeza do valor racional que compreendemos ter a vida, por estar inserida na ordem das coisas, e vice-versa; e, quanto mais conhecemos a ordem das coisas e a inserção de nossa ordem de vida nesta ordem, tanto mais conhecemos a própria vida, de um modo geral, e tanto mais conhecemos a nossa vida, de um modo particular. E, como o conhecimento é uma força de viver, quanto mais conhecemos tanto mais força temos para viver e tanto mais decidimos querer viver e, em sentido inverso, é tanto menor a dificuldade para decidirmos se devemos viver ou não, pois nosso pensamento estará cada vez mais precisamente ordenado segundo o conhecimento da coerência de nossa ordem de vida como estando implicado no conhecimento da ordem das coisas, e vice-versa. Deste modo, no limite possível deste processo de conhecimento e de tomadas de decisões cada vez mais afirmativas do querer viver, ao indivíduo não restará quase nenhuma dúvida sobre a sua decisão de continuar a querer viver, pois compreenderá que viver segundo esta ordenação e conhecer e pensar esta ordenação enquanto se vive, consistem numa mesma ação, a ação de “querer viver”. Agora, na continuidade do texto, vejamos como Piaget explica qual é a razão pela qual um indivíduo pode decidir por não querer viver, ele escreve que327:
[...] Mas o querer morrer não é um produto direto da organização. Esta quer viver e se ela chega a querer morrer, isto é indiretamente, por seu contato com um mundo exterior doloroso. Há uma diminuição do querer
viver que é necessariamente o querer morrer. Assim, tão alto se remonte
somos levados a esta conclusão de que a vontade primitiva [volonté primitive] é aquela de afirmar o valor da vida [affirmer la valeur de la vie] e que a negação deste valor é uma vontade derivada [volonté derivée]. (grifos e negritos nossos).
Em princípio a citação parece estabelecer uma identidade entre a “vontade primitiva” e o “querer viver” que afirma o valor da vida; e entre a “vontade derivada” e o “querer morrer” que nega o valor da vida. Vejamos se esta identidade é confirmada pela análise do texto.
Sabemos que o “querer viver” é só a afirmação de viver, portanto, a noção de vontade colocada nesta citação não é da ordem do “querer viver”, ela é da ordem de certo tipo de pensamento que pode tanto decidir afirmar quanto negar o “querer viver”. Desta maneira, parece-nos que, a noção de vontade se refere apenas à afirmação da fórmula do decidir por, sem se referir ao conteúdo afirmado ou negado na decisão, querer viver ou morrer.
A vontade primitiva não é primitiva porque é anterior à decisão tomada, ela é primitiva porque corresponde e é coerente com a afirmação do “querer viver” na ordem do pensamento, a vontade primitiva é a vontade como afirmação de uma decisão racional; já a
vontade derivada é a decisão determinada pelo mundo exterior que pode afirmar ou negar a
expressão, na ordem do pensamento, do “querer viver”, o que abre a possibilidade de que a
vontade derivada possa vir a contrariar a vontade primitiva, e neste caso, esta vontade não é a
afirmação de uma decisão resultante de um pensamento racional. Em quaisquer destes casos, o que, aqui, define a noção de vontade é apenas a afirmação da forma de todo decidir por, independentemente de que se decida por querer viver ou por não querer viver, ou que esta decisão resulte de um pensamento racional ou não. Assim, a vontade pode ser uma afirmação diretamente determinada apenas pela organização, e, neste caso, trata-se da vontade primitiva que afirma o “querer viver”, a decisãio de viver e o valor da vida, ou pode ser uma afirmação determinada pelo mundo exterior, e, neste caso, trata-se de uma vontade derivada que pode tanto afirmar quanto negar o “querer viver”, a decisão de viver e o valor da vida.
A citação apresenta ainda uma fórmula onde é dito que, se há uma diminuição do “querer viver” é porque há um “querer morrer”. Ora, é importante lembrar, mais uma vez, que, no “querer viver” há só a afirmação do viver, independentemente do tipo de pensamento que vigora na decisão por viver ou não. Portanto, segundo o raciocínio que acabamos de desenvolver, este “querer morrer” só pode ser encontrado na ordem de um tipo de pensamento não racional. Deste modo, compreendemos que aquela fórmula só faz sentido na ordem do pensamento, onde ela envolve uma situação de conflito entre uma afirmação na ordem do pensamento racional do “querer viver” e uma afirmação na ordem de um pensamento irracional de um “querer morrer”. Neste sentido, não é o mundo que é doloroso em si mesmo, mas é o mundo tal como é percebido a partir do conflito existente entre o pensamento racional de “querer viver”, diretamente determinado pela organização, e um pensamento irracional de “querer morrer”, diretamente determinado pelo mundo exterior.
Além disso, aquela fórmula nos ensina mais duas coisas: Primeiro, se a decisão de
querer viver ou a decisão de querer morrer resultam do pensamento, então, o próprio
querer isto ou aquilo, ou seja, o pensamento deseja. Segundo, se entre o querer viver e o
querer morrer há uma relação inversamente proporcional, isto é, se, quanto mais aumenta o querer viver tanto mais diminui o querer morrer, e vice-versa, aqui, interpretamos essa
relação como a resultante da relação de forças entre, de uma parte, as forças internas de auto- afirmação da organização, e, de outra parte, as forças externas que podem negar essa força de auto-afirmação da organização (não se pode deixar de recordar que neste momento de sua vida, Piaget estava tuberculoso e em busca de uma cura "pelo clima", o querer viver ou morrer era a situação que ele mesmo vivenciava); já, no caso de uma relação de compromisso entre a organização e o meio, o querer viver da organização se conserva e pode aumentar.
Ainda sobre o problema dos valores, Piaget conclui o seu percurso, afirmando que328:
Há, portanto, um valor absoluto, um valor para o universo assim como para mim, desde que a vida está diretamente na ordem das coisas e a morte indiretamente. Mas certamente, do ponto de vista da consciência,
nós não estamos mais avançados. Nós estamos certos, no entanto, em
afirmar a obrigação de viver, de ter tomado uma porção do absoluto,
pois ou bem a matéria é ao menos o que sabemos dela e então ela é solidária de nossa afirmação, ou bem ela não é nada do que sabemos, porquanto nós a deformamos nos a priori de nosso espírito, mas a seguir, sendo os próprios a priori uma porção do absoluto, todo o raciocínio permanece intacto. Agora, se a manutenção do absoluto é contraditória, a obrigação de viver sempre permanece, pois ela continua a ser parte inerente.
Mais além desta afirmação formal nosso raciocínio não nos ensina nada. Nós estamos mesmo longe de poder concluir a existência de um
valor absoluto, a presença da vontade ou da consciência no absoluto. A
palavra “valor” não tem sentido senão para nós. O sentido que o conhecimento dá a palavra “viver”. Que o absoluto seja nada ou plenitude, inconsciência, consciência ou supraconsciência, nós não sabemos mais do
que uma coisa, é que nossa existência está ligada a ele por uma ligação que,
quando nos tornamos conscientes, nos esforçamos para viver. Tal é o único sentido possível da afirmação de um valor absoluto, que foi ridicularizada por Schopenhauer. Pois nesta afirmação está toda uma fé... (negritos nossos). Aqui, Piaget medita sobre a questão do valor absoluto e se recente de que o raciocínio só possa fazer afirmações formais sem “poder concluir a existência de um valor absoluto”. A expressão parece estranha, pois no início da citação Piaget parece concluir, racionalmente, que, se “a vida está diretamente na ordem das coisas” então há “um valor absoluto para o
universo assim como para mim”, mas se observarmos com atenção nós compreendemos que aquilo que o raciocínio está “longe de poder concluir” é a “existência de um valor absoluto”.
Na apresentação do “Juízo de valor”, Piaget afirma que “tudo é valor” e que o valor é a qualidade mais digna a ser solicitada de toda atividade humana. Ora, se a atividade humana expressa a vida que está na ordem das coisas, no ato em que solicitamos o valor da
atividade humana solicitamos a afirmação do valor da vida e da ordem das coisas, para nós. Porém, para Piaget, nenhum de nós está certo de que é absoluto o conhecimento que temos da ordem das coisas, isto é, não sabemos, com certeza, se o conhecimento que temos da ordem das coisas é, de fato, o conhecimento verdadeiro e derradeiro sobre o fundo das coisas, e por isso não podemos concluir, a partir deste conhecimento, sobre a “existência” ou não de um