Em Esboço de uma autobiografia intelectual69, Piaget diz que, aos onze anos (1907), teve o seu primeiro encontro feliz, quando pediu a Paul Godet (malacologista e diretor do Museu de História Natural de Neuchâtel) para ser o seu ajudante. Aceito como tal, Piaget aprendia e ajudava a descrever, identificar, classificar e comparar a morfologia das diversas espécies de moluscos, até a idade de quatorze anos, quando morreu o seu mestre, em 1911.
Naquele período, Piaget diz que a zoologia era a única coisa que lhe parecia séria na vida, e que nela encontrou um problema preciso e estimulante para o seu trabalho, o problema das “espécies e de suas variações indefinidas em função do meio” e das “relações entre
genótipos e fenótipos”; e lembra que, a partir da reflexão sobre este problema, ele sempre viria a pensar em termos das “formas e da evolução das formas”70.
Fernando Vidal71 explica que, para Piaget, até 1911, a biologia significava a exclusiva classificação taxonômica das características morfológicas exteriores e dos hábitos estáveis e comuns dos indivíduos de certa espécie, em correspondência com as características predominantes do seu habitat e a identificação das variações da espécie neste habitat:
[...] “biologia” significava os “hábitos” que ajudam a determinar as reações adaptativas do organismo ao meio. A relação entre as condições ambientais e a adaptação é circular, dado que os hábitos mesmos são adaptações. “Biologia” continua tendo o mesmo significado em todos os primeiros escritos zoológicos de Piaget72.
Neste sentido, Fernando Vidal73, ao comentar aquela narrativa de Piaget, na qual ele aponta os problemas que lhe estimulavam e o nascimento de seu interesse de trabalho, esclarece que, naquele período, ao mostrar o seu nascente interesse pelo problema das “espécies e de suas variações indefinidas em função do meio”, com isso Piaget se referia ao seu objetivo principal de classificar as espécies e suas variações, sem o objetivo de compreender os “mecanismos de adaptação ou evolutivos”, isto é, ele não se preocupava com:
69 PIAGET, J. [1959/1998]. Les modèles abstraits sont-ils opposés aux interprétations psycho- physiologiques dans l`explication en psychologie? Esquisse d`autobiographie intellectuelle. In: Bulletin de Psychologie. Groupe D`Études de Psychologie de l`Université de Paris. Paris: L`Université, tome 51 (3), 435, mai-juin 1998, p.217. Publicação original: PIAGET, J. [1959]. Esquisse d`autobiographie intellectuelle. In: Bulletin de Psychologie, Groupe D`Études de Psychologie de l`Université de Paris. Paris: L`Université, n. 169, 5 novembre 1959, p.7-13.
70 Ibidem, p.217.
71 VIDAL, F. [1994/1998]. Piaget antes de ser Piaget. Traducción: Pablo Manzano. Revisión: Fernando Vidal. Madrid: Ediciones Morata, p.43, 46, 47, 51, 54.
72 Ibidem, p.54. 73 Ibidem, p.51.
[...] os processos de adaptação que poderiam explicar a variabilidade, senão a variabilidade em si, como tema de zoogeografia descritiva, como obstáculo para a classificação ou como meio para reduzir o número de espécies com uma série contínua. Em resumo, quando Piaget identifica um problema essencialmente taxonômico como o das “relações entre genótipos e fenótipos” (ibid.), descreve sua atividade científica de forma anacrônica, fazendo-a muito mais semelhante à biologia do que em realidade foi.
Entretanto, o comentador esclarece74 que, nos escritos de Piaget daquele período, já se pode encontrar certa “postura lamarckista” ou “visão lamarckista” presente em seu trabalho de classificação, tanto por supor as bases de uma concepção da adaptação do organismo ao meio enquanto reação adaptativa do organismo à pressão das mudanças ambientais, quanto por supor “um papel causal ao tempo e à atividade do organismo” em seu esforço de adaptação ao meio, e por fazer referência a leis de adaptação direta do organismo em relação ao meio, ainda que estas leis estivessem centradas em sua sistemática de classificação, onde apresentava correlações empíricas, mas não quantitativas, entre as variações da morfologia e dos hábitos dos organismos e a sua correspondência com as variações do seu habitat.
Neste contexto, Fernando Vidal explica como Piaget tomava a noção de “evolução”75: Em seus primeiros trabalhos taxonômicos, Piaget falava de “evolução” em dois sentidos diferentes: afirmando que um organismo concreto havia evoluído e explicando a evolução em termos de adaptação. A rigor
afirmava, sem justificação, a existência de relações filéticas. Sua expressão seguia sendo vaga. Dizer que a espécie A “substitui” a espécie B pode significar que A “da origem a [donne naissance à]” B; portanto, “o tipo primitivo, obrigado a transformar-se [se transformer] por determinadas causas, desaparecerá necessariamente, deixando em seu lugar [laissance la place à] a nova variedade” (1911a, págs. 322-323). Não está claro se transformar-se tem um significado evolutivo ou não. Inclusive o sentido de
“evoluir” é equívoco. Quando Piaget criou a variedade subnaticina de
Valvata piscinalis, a descreveu como uma piscinalis “evoluída nas águas
muito rápidas do Areuse” (rio de Neuchâtel), comparando-a com a V. naticina do Danúbio, que caracterizou como uma piscinalis “profundamente transformada por seu habitat” (1912b, pág. 87). Não se faz nenhuma
distinção entre especiação e adaptação. (negritos e grifos nossos).
Portanto, quando Piaget escreve que, ao cabo de seu primeiro período de contato com a zoologia, ele passaria a sempre pensar em termos das “formas e da evolução das formas”, naquele primeiro período, o que ele pensava ser a forma, era a forma típica dos indivíduos de uma mesma espécie, dada pela classificação taxonômica da morfologia externa e dos hábitos comuns destes indivíduos. Em outras palavras, Piaget identificava a forma com a morfologia externa comum destes indivíduos e com o que era tomado como característica geral dos
74 Ibidem, p.49, 52-54. 75 Ibidem, p.53.
hábitos ou comportamentos destes indivíduos na relação com o meio, segundo os critérios de seleção da taxonomia malacológica da época. E o que Piaget entendia como sendo a evolução destas formas típicas se resumia ao estabelecimento de supostas relações filéticas entre, de um lado, uma espécie originária e, de outro lado, uma espécie que teria evoluído a partir dela em decorrência das reações adaptativas da primeira frente à pressão das modificações ambientais; porém, os escritos de Piaget desta época ainda não justificavam esta evolução, seja pela explicação dos mecanismos e processos de adaptação do organismo ao meio, seja pela distinção desta forma de evolução em relação àquela que seria devida à especiação, e que decorreria, neste caso, do isolamento reprodutivo de parte da população original da espécie, a partir do qual se poderia chegar então à formação de novas espécies.
Neste ponto, é importante destacar essa idéia fundamental que Piaget abstraiu de sua experiência com o trabalho malacológico, ligado ao problema da classificação e da evolução das espécies, qual seja, a abstração da idéia das formas e da evolução das formas, quaisquer que fossem estas formas, idéia que ele conservou e desenvolveu ao longo de todo o seu trabalho posterior, sem que, originalmente, ele partisse de qualquer concepção ontológica ou epistemológica específica e explícita que fundamentasse este modo de pensar.
Agora, ao retomarmos o Esboço de uma autobiografia intelectual, vemos Piaget narrar que, aos quinze anos (1911), ele teve o seu segundo encontro feliz, desta vez, com o seu padrinho, Samuel Cornut, que estava muito incomodado com a sua excessiva especialização em malacologia, e por isso resolveu explicar-lhe a obra A Evolução Criadora, de Henri Bergson. Piaget relata que assim que entrou em contato com esta obra, de pronto ele foi “tomado pelo demônio da reflexão” e, imediatamente, centrou-se, quase que exclusivamente, “sobre o problema do conhecimento”, Piaget narra aquele momento da seguinte maneira76:
[...] Em meus sonhos de adolescente, eu decidi naquele momento construir
uma teoria biológica do conhecimento, quer dizer (modestamente) tomar o problema de Bergson, mas na perspectiva de uma biologia científica...
Sozinho li muito (Comte, Spencer, Le Dante e um pouco Kant) e então anotei as minhas idéias. Eu era anti-intelectualista e sobretudo antimatemático. Muito dominado pelas páginas de Bergson sobre a oposição dos gêneros e das leis, eu sonhei com uma ciência dos gêneros, especificamente biológica (problema das formas e das estruturas). Eu escrevi para mim mesmo o meu sistema, intitulado “Esboço de um neopragmatismo”, ou de como o pensamento esta conectado com a ação e
à adaptação biológica, mas sem nuance utilitarista. (negritos nossos).
Como explica Fernando Vidal77, a partir dessa experiência de contato com a obra de Bergson, Piaget assumiu uma “visão de mundo” “biológica”, que se originava de uma “filosofia da evolução” orientada para a “aplicação de uma determinada metafísica da vida”. O comentador explica que Piaget78, “inspirado pela filosofia de Bergson, defendeu que uma
definição natural da espécie tinha que aceitar o fato da evolução, sem centrar-se, portanto, nas características invariáveis, senão na “tendência” de uma população a converter-se em espécie”, e que, ao pensar sobre a evolução, inspirado pela filosofia de Bergson, Piaget não teve dúvidas de sua “presença universal no reino zoológico”.
Em outras palavras, ao entrar em contato com a obra de Bergson, de um lado, Piaget pode visualizar a possibilidade de operar uma assimilação recíproca entre, de uma parte, uma biologia sincrônica dos hábitos e habitats, que definia a evolução das espécies em termos da
classificação das “características invariáveis” e comuns de seus indivíduos, e da ordenação
descontinua das relações filéticas entre espécies anacrônicas, e, de outra parte, a filosofia de Bergson que oferecia uma explicação diacrônica para a evolução das espécies em termos da “tendência” de uma população para converter-se numa espécie, mas cujas características não poderiam ser jamais tomadas como invariáveis, pois apenas sinalizavam as tendências das características de determinada população em alcançar certa estabilidade ao longo do tempo, mas sem jamais tomá-la definitivamente invariável. De outro lado, a obra de Bergson também proporcionou a Piaget um novo campo de interesse para o seu trabalho, “o problema do
conhecimento”, que é profundamente examinado pelo filósofo, e para o qual Piaget procurou, inicialmente, responder com a decisão de “construir uma teoria biológica do conhecimento” que, se de uma parte fora inspirada pela “filosofia da evolução” de Bergson, de outra parte, Piaget procurou adotar a perspectiva de uma “biologia científica”, por meio da qual projetava alcançar, segundo Fernando Vidal, a “aplicação de uma determinada metafísica da vida”79.
Agora, é preciso lembrar que a obra de Bergson produziu outro importante impacto em Piaget que, posteriormente, ele relatou em sua Autobiografia80. Piaget lembra que, enquanto meditava sobre as explicações de seu padrinho sobre a obra de Bergson, ele experimentou dois choques: o primeiro, um “choque emotivo” oriundo de uma “revelação profunda”, a idéia da “identificação de Deus com a vida mesma”, idéia esta que o estimulou “até o êxtase”, pois ela lhe permitiu: “ver na biologia a explicação de todas as coisas e do próprio espírito”; o segundo, um “choque intelectual”, “o problema da consciência (para falar apropriadamente,
77 VIDAL. op. cit. [1994/1998], p.56. 78 Ibidem, p.47.
79 Ibidem, p.56.
o problema epistemológico) me apareceu de repente numa perspectiva inteiramente nova e como um assunto de estudo fascinante. Ela me fez tomar a decisão de consagrar minha vida
à explicação biológica do conhecimento” (negritos nossos)81.
Em Sabedoria e ilusões da filosofia82, Piaget reafirma a mesma experiência de descoberta da identidade entre Deus e a Vida, porém, neste texto, Piaget faz notar que, naquela mesma ocasião, ele sentia “vivamente o conflito entre a ciência e a religião” e, neste contexto, aponta uma das razões pela qual resolveu se dedicar à filosofia, ao experimentar uma revelação profunda provocada pela leitura da obra de Bergson, Piaget escreve83:
[...] em um momento de entusiasmo vizinho da alegria extática, eu fui apanhado da certeza de que Deus era a Vida, sob a forma deste elã vital de onde meus interesses biológicos me forneciam ao mesmo tempo um
pequeno setor de estudos. A unidade interior estava assim encontrada, na
direção de um imanentismo que me satisfez por longo tempo, sob outras formas aliás cada vez mais racionais. [...]. (negritos nossos).
Com a leitura da obra de Bergson e sua compreensão do elã vital84, Piaget formou a idéia de que Deus é a Vida, o que lhe permitiu “ver na biologia a explicação de todas as
81
Em A Evolução Criadora, encontramos uma passagem que pode ilustrar a identidade entre Deus e a Vida, vislumbrada por Piaget, o filósofo escreve: [...] Não há coisas, há apenas ações. Mais particularmente, ao considerar o mundo em que vivemos, verifico que a evolução automática e rigorosamente determinada dêsse todo bem ligado é ação que se desfaz, e que as formas imprevistas que a vida nêle recorta, formas capazes de se prolongarem a seu turno em movimentos imprevistos, representam ação que se faz. Ora, tenho todos os motivos para crer que os outros mundos são análogos ao nosso, que as coisas se passam neles da mesma maneira. E sei que êles não se constituíram todos ao mesmo tempo, visto que a observação me mostra, hoje ainda, nebulosas em via de concentração. Se é a mesma espécie de ação que se realiza por tôda a parte, quer ela se desfaça, quer tente refazer-se, exprimo simplesmente esta provável semelhança quando falo dum centro de onde os mundos jorrariam como os foguetes dum imenso fogo de artifício – contanto que eu, todavia, não tenha êsse centro como uma coisa, mas como uma continuidade jorrante. Deus, assim definido, nada tem de já feito; é vida incessante, ação, liberdade. A criação assim concebida não é um mistério, é em nós que dela temos a experiência logo que agimos livremente. [...]. (negritos nossos). Cf. BERGSON, H. [1907/1971]. A Evolução Criadora. Tradução: Adolfo Casais Monteiro. Introdução: Jean Guitton. Ilustração: Kischka. Rio de Janeiro: Editora Opera Mundi. Col. Biblioteca dos prêmios Nobel de literatura, p. 248. Publicação em francês: BERGSON, H. [1907/2009]. L`évolution Créative. Reimpressão da 11a edição. Paris: PUF, p.249.
82 PIAGET. op. cit. [1965/1992], Sagesse et illusions de la philosophie, p.11-12. 83 PIAGET. op. cit. [1965/1992], Sagesse et illusions de la philosophie, p.12.
84
O elã vital é um princípio de ação que anima a matéria inanimada, trata-se de um impulso livre e criador que movimenta e organiza a matéria inanimada em matéria organizada, que dá origem às diversas formas de vida e impulsiona a sua evolução. As formas de vida impulsionadas por este movimento livre e criador, porém em interação com a matéria que a suporta – mas que põe resistência e limites à liberdade de seus movimentos – e com as outras formas de vida – com as quais se compõe ou não, e nelas também encontra resistência e limites à liberdade de seus movimentos –, faz com que, cada forma de vida constituída seja impulsionada, nestas interações recíprocas, ao seu desdobramento espontâneo, por sua força interna de diferenciação imanente, no interior de um processo dinâmico e criativo de engendramento de novas formas de organização vital, inclusive sob formas espirituais. Assim, cada forma de vida prossegue no interior destes contínuos processos dinâmicos de desdobramento e de diferenciação espontânea de novas formas de vida, onde a liberdade de movimentos de cada forma de vida encontra a resistência e os limites postos pela interação com a matéria e com as outras formas de vida, em contínuos processos que tendem à criação de novas formas de vida, e é neste sentido que, para Bergson, a “vida é uma evolução” e o “Real é a mudança contínua de forma” [BERGSON. op. cit. [1907/1971], A
coisas e do próprio espírito”, e ver nesta explicação “um pequeno setor de estudos”, coerente com os seus “interesses biológicos”. Assim, Piaget se sentiu capaz de sustentar a visão da “unidade interior” de seus estudos, da natureza, e da superação do “conflito entre a ciência e
religião”, orientado na “direção de um imanentismo”, sob formas “cada vez mais racionais”, e de sustentar a “decisão de consagrar” a sua vida à “explicação biológica do conhecimento”. Em outras palavras, o projeto de Piaget de construir uma teoria do conhecimento implicava, originalmente, a ontologia bergsoniana85, e como esclarece Fernando Vidal86:
Dentre os diversos livros de Bergson, só A evolução criadora produziu uma impressão direta e importante no jovem Piaget e muito menos insatisfatória do que deu a entender mais adiante. Em Recherche, Sebastián observa em retrospectiva as conseqüências de seu descobrimento da filosofia. Quando, pela primeira vez, sentiu “o desejo do absoluto”, contemplou “as ilusões
que havia tomado como a verdade última” e viu desmoronar-se os esquemas superficiais com que havia enquadrado suas investigações de história natural, arrastados pelo “impulso da vida, pelas peripécias de um infinito devir” (1918a, pág. 95). Este vocabulário põe de manifesto a força do choque bergsoniano e, em efeito, as primeiras explorações fora do âmbito
da taxonomia malacológica estiveram diretamente relacionadas com a filosofia de Bergson e referidas, como também assinala Recherche (ibid., pág. 96), ao problema das espécies. Como máximo, no verão de 1912, Piaget começou a ocupar-se dos pressupostos ontológicos relativos às categorias taxonômicas, à origem das adaptações e aos mecanismos de formação e evolução das espécies. Nos três casos, elaborou um ponto de vista no qual a filosofia e a epistemologia bergsonianas desempenhavam um papel central. (negritos e grifos nossos).
Agora, é preciso saber, se, para Piaget, essa influência da ontologia bergsoniana se manteve como o fundamento de seu trabalho posterior, pois, assim, poderemos investigar se há uma linha de convergência entre as teorias do conhecimento de Espinosa e Piaget, primeiro, por ambas se erigirem a partir de uma fundação ontológica, e então, o passo seguinte seria avaliar a coerência entre a ontologia do necessário e a ontologia bergsoniana.
Para começar a responder a esta questão, voltemos a Sabedoria e ilusões da filosofia87, na passagem onde Piaget apresentava uma outra razão para se dedicar à filosofia:
[...] Apaixonado pela biologia mas não compreendendo nada das matemáticas, ou da física, nem dos raciocínios lógicos que elas supõem escolarmente, eu achava fascinante o dualismo do élan vital e da matéria recaindo sobre si mesma, ou aquele da intuição da duração e da
inteligência inapta a compreender a vida porque orientada em suas estruturas lógicas e matemáticas no sentido desta matéria inerte. Em
85
Encontramos diversas denominações para a ontologia de Bergson, por exemplo: Metafísica da Vida (Fernando Vidal); Ontologia da Presença (Bento Prado Jr.), Ontologia do Movimento (Franklin Leopoldo e Silva); Ontologia do Passado (Gilles Deleuze); Metafísica da Ação (Pablo Enrique Abraham Zunino).
86 VIDAL. op. cit. [1994/1998], p.69.
resumo, eu descobria uma filosofia respondendo exatamente à minha estrutura intelectual de então. (negritos nossos).
Em contraste com essa estrutura intelectual, entre os dezesseis e os dezoito anos (1913-1915), Piaget foi aluno de um mestre que o influenciou fortemente, o lógico e filósofo Arnold Reymond, do qual recebeu uma “orientação essencialmente matemática”88 que, a princípio, suscitou em Piaget certa resistência a essa forma de orientação, pois, como vimos, naquela ocasião, Piaget se considerava “anti-intelectualista e sobretudo antimatemático” 89.
Piaget recorda que, já antes deste contato com Arnold Reymond, a observação de Bergson sobre a “desaparecimento do problema dos “gêneros” na filosofia moderna, em
proveito do problema das leis” impressionara-o muito, chegando ao ponto de tomar essa observação como um “fio condutor” do início de seus trabalhos “filosófico-biológicos” 90.
Em alguns excertos autobiográficos de Piaget, vemos apontamentos da elaboração do escopo de seus trabalhos “filosófico-biológicos”. Na Autobiografia91, diz que “Uma lição de
Reymond sobre o realismo e o nominalismo no quadro do problema dos “universais” (com algumas referências ao papel dos conceitos na ciência contemporânea) me deram uma intuição subita”; e, no Esboço de uma autobiografia intelectual, diz que a partir dessa intuição escreveu um texto (não publicado) - Realismo e nominalismo nas ciências da vida92-, onde discutia “a realidade da espécie zoológica e suas estruturas específicas”; e, em
Sabedoria e ilusões da filosofia, explica que, nesse texto, “A intenção inicial era nem mais
nem menos de criar uma espécie de ciência dos gêneros, distinta da ciência das leis e que justificaria assim o dualismo bergsoniano do vital e do matemático, no qual eu sempre acreditei”93. Assim, o escopo de seus trabalhos filosófico-biológicos seria discutir o problema da realidade das espécies e de suas formas, mantendo-se orientado pelo dualismo bergsoniano
do vital e do matemático. Entretanto, ao discutir este trabalho com o seu mestre, Piaget diz94: [...] tive a surpresa um tanto ingênua de descobrir que meu problema não estava longe do problema das classes, em lógica, e que minha lógica da vida se inseria facilmente na do grande Aristóteles95, cuja noção de “forma” era precisamente concebida como regendo o pensamento que correspondia exatamente às estruturas do organismo! Estava desta forma terminada a