Conforme vimos na seção anterior, SIMON teoriza sobre a influência da organização sobre a decisão racional (que é o local aonde deposita a racionalidade na ação humana) do indivíduo. Como aponta COELHO, dissertando sobre a estrutura:
"...em suas relações com o comportamento organizacional a estrutura parece ser uma variável independente, condicionante e contextualizadora. Os trabalhos paradigmáticos neste aspecto seriam Administrative Behavior de Simon, e
Organizations de Simon e March210. Em ambos ressalta o controle que a estrutura
organizacional exerce sobre o processo decisório individual; ou melhor, como as organizações controlas as 'premissas' decisórias através de fatores estruturais..."211
Mais uma vez, a instituição é a variável independente (como na expressão de GUERREIRO RAMOS212), em função da qual o comportamento individual deve
ajustar-se para realizar a racionalidade possível. Porém, SIMON não trata esta situação como uma interferência indevida do plano institucional sobre a atividade humana: vai mais longe, e, como também vimos, acaba por justificar esta influência, afirmando que o indivíduo só age racionalmente quando institucionalizado213. GUERREIRO RAMOS ergue sua crítica contra esta posição
em dois momentos: primeiro, no plano da filosofia social, e depois no plano psicológico. No primeiro, dialoga com WEBER, MANHEIN e os frankfurtianos sobre qual o local adequado para o atributo da racionalidade (dentro de seu conceito, como vimos, mais amplo de razão - que remonta ao pensamento clássico):
"Todos esses estudiosos parecem concordar em que, na sociedade moderna, a racionalidade se transformou numa categoria sociomórfica, isto é, é interpretada como um atributo dos processos históricos e sociais, e não como força ativa da psique humana. Todos eles reconhecem que o conceito de racionalidade é determinativo da abordagem dos assuntos pertinentes ao desenho social. (...) Horkheimer parece demonstrar que , desde o momento em que a razão é deslocada da psique humana, onde deve estar, e é transformada num atributo da sociedade, fica perdida a possibilidade de ciência social."214
Esta crítica relaciona-se com a anterior, da unidimensionalidade: apenas por considerar a razão instrumental como toda a razão, é que se pode deslocá- la do indivíduo para a instituição. A psique é o reduto da razão substantiva, e não da utilitária, senão ter-se-ia que admitir que o homem funciona como a economia quer que ele funcione - totalmente voltado à maximização de valores
na voz das tradições anarquistas inicidas por BAKUNIN. A razão emocional é uma construção conceitual sobre a percepção da realidade, surgida historicamente como alternativa simultâneamente à herança iluminista da razão automática, e à sua oposição pela razão utópica; é baseada na não-razão, e consubstanciada no fenômeno histórico do nazi-fascismo.
210No Brasil, Comportamento Administrativo, e Teoria das Organizações, respectivamente (ambos
citados).
211Coelho, Edmundo C., op.cit., p. 236.
212V. citação referente à nota no. Erro! Indicador não definido., à p. 54. 213V. pp. 62 e 62.
econômicos. Pois quando GUERREIRO RAMOS quer recolocar a razão no devido lugar, o faz a partir da razão "mais ampla" que contrapõe à instrumental:
"A racionalidade substantiva sustenta que o lugar adequado à razão é a psique humana. Nessa conformidade, a psique humana deve ser considerada o ponto de referência para a ordenação da vida social,..."215
Em segundo lugar, analisa as repercussões, na psique humana, e no comportamento individual, deste processo de "alienação" de seus atributos racionais: tal resulta num complexo patológico que o autor denominou síndrome comportamentalista. A caracterização da síndrome parte da distinção entre ação e comportamento (de ARENDT). Comportamento é o "ato" baseado no cálculo utilitário de conseqüências, isto é, na aplicação da racionalidade utilitária (ou instrumental) conforme vimos até aqui, sem a consideração das finalidades últimas ou valores, ou pela aceitação de valores exogenamente impostos ao sujeito.
"Sua categoria mais importante é a conveniência. Em conseqüência, o comportamento é desprovido de conteúdo ético de validade geral. É um tipo de conduta mecanomórfica, ditada por imperativos exteriores (...) inclui-se, completamente, num mundo determinado apenas por causas eficientes."216
A ação é o movimento de um ser automotivado, que decide sobre valores:
"Em contraposição, a ação é própria de um agente que delibera sobre coisas porque está consciente de suas finalidade intrínsecas. Pelo reconhecimento dessas finalidades, a ação constitui uma forma ética de conduta."217
A síndrome comportamentalista consiste na perda da capacidade de ação, que é substituída pelo comportamento. É a alienação do indivíduo com relação aos valores envolvidos em seu "agir" (comportamento) social, que define como "a ofuscação do senso pessoal de critérios adequados de modo geral à conduta humana"218
Esta síndrome apresenta quatro traços principais219: a fluidez da
individualidade, que se trata da perda da base de valores com os quais o indivíduo julga os eventos da realidade, uma espécie de "relativismo ético da psique", a partir do qual não se consegue mais separar o bom do mau em nenhuma escala própria de valores; o perspectivismo, que é a perda do referencial da visão de mundo: de uma qualidade do desenvolvimento moral (que é a capacidade de enxergar as situações do ponto de vista do outro, ou de terceiros), torna-se uma patologia pelo uso utilitário, isto é, pela adoção do ponto de vista conveniente, pela justificação de quaisquer meios tendo em vista os fins adotados, desvinculando-se de qualquer visão de mundo "autocentrada"; o formalismo, que é a estereotipação do comportamento, segundo padrões exteriores de aceitação (expectativas de papel, por exemplo) - o indivíduo "torna-se um maneirista"; e o operacionalismo, que é a redução da realidade aos seus aspectos quantitativos e mensuráveis, isto é, a consideração da parcela da realidade suficiente para a operacionalização da ação
215Idem, ibidem, p. 23. 216Idem, ibidem, p. 51. 217Idem, ibidem. 218Idem, ibidem, p. 52.
219GUERREIRO RAMOS não define formalmente os elementos da síndrome, porém apenas os caracteriza
(comportamento) sobre ela: "a recusa em reconhecer às causas finais qualquer papel na explicação do mundo físico e social".
A "influência" da organização na racionalidade individual, portanto, insere-se no movimento mais geral de expansão da racionalidade instrumental a campos aonde é inadequada, como já denunciava a Escola de Frankfurt: parametriza a decisão do indivíduo, impondo-lhe valores e premissas, e introjeta-se em sua psique, tornando-se a quase totalidade da racionalidade possível, empurrando o homus rationalis em direção ao homus economicus.