3 Personer med doktorgrad som er sysselsatt/bosatt i Norge
3.1 Hvor i arbeidslivet finner vi dem?
Maria Marlúcia Freitas Santiago é nascida em Limoeiro do Norte, região cearense localizada no Vale do Jaguaribe. Falar da vida desta cientista significa remeter-se também ao processo de constituição dos estudos de física no Ceará.
Graduou-se em Física pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ingressando no curso em 1964 e concluindo-o em 1969, vivenciando, assim, o momento em que este curso estava sendo implantado. A criação do Curso de Física
foi autorizada em 25 de janeiro de 1961, pela Lei no 3866. Na ocasião foi criado o
Curso de Física Diurno, nas Modalidades Bacharelado e Licenciatura, iniciando suas atividades no ano de 196273.
Logo em seguida, em 1970, Marlúcia iniciou o seu Mestrado em Engenharia e Tecnologia Nuclear, na Universidade de São Paulo (USP), defendendo sua dissertação dois anos mais tarde. Em 1981 retorna à USP para cursar Doutorado em Geociências (Recursos Minerais e Hidrogeologia), concluído em 1984.
A carreira acadêmica de Marlúcia consolidou-se por meio de seu trânsito entre UFC e USP. No momento de sua graduação, devido aos quadros insuficientes de professores e infraestrutura necessária, havia um convênio firmado entre UFC e
Universidade de São Paulo para que professores ―uspianos‖ viessem ministrar
disciplinas nesta universidade cearense, bem como para que os alunos do curso de física realizassem uma espécie de intercâmbio. Desta forma, Marlúcia cursou o último ano de sua graduação na USP, quando realizou estágio no então IEA (Instituto de Energia Atômica), hoje IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares).
Os seus trânsitos e fluxos entre a UFC, então ―sub-localizada‖ no campo científico nacional, e a USP, um importante centro de excelência, sem dúvida,
compôs na trajetória de Marlúcia um ―campo de possibilidades‖ (VELHO, 2003)
diferenciado daquele que teria se consolidado no caso de sua formação acadêmica ter se restringido à instituição cearense. Foi a partir deste intercâmbio que se deu
uma maior profundidade de seus estudos envolvendo isótopos74, no caso,
73 Disponível em: <http://www.fisica.ufc.br/ramos/carga/bacharelado.html>. Acesso em 06 jun. 2011. 74
Isótopos são átomos de um mesmo elemento químico com massas diferentes. O Carbono-14, C14 ou radiocarbono é um isótopo radioativo natural do elemento carbono, recebendo esta numeração porque apresenta número de massa 14 (6 prótons e 8 nêutrons). Este isótopo apresenta dois neutrons a mais no seu núcleo que o isótopo estável carbono-12. Entre os cinco isótopos instáveis do carbono, o carbono-14 é aquele que apresenta a maior meia-vida, que é de aproximadamente 5 730 anos. A datação de fósseis, assim como das águas
atualmente, concentra-se nas pesquisas com carbono-14 para compreender a datação das águas nordestinas.
“Sempre tive afinidade com aritmética.” 75
Marlúcia teve uma infância ―muito rica do ponto de vista cultural‖. Afirma ter vindo de uma cidade privilegiada culturalmente, onde foi ensinada por padres, muito
eruditos. Em Limoeiro do Norte havia o Seminário Diocesano Cura d‟Ars, instituição
da Igreja para a formação de padres, construído pelos ―flagelados‖ da seca de 1941
a 1943. 76 Limoeiro do Norte diferenciava-se das demais cidades da região, visto que
na época havia poucos seminários no Ceará.
Como poucas, sua mãe, Maria Freitas Santiago, foi educada em um ―colégio
interno‖ em Fortaleza-CE, algo incomum para a época e lugar onde vivia sua família: uma cidade situada no Vale do Jaguaribe, interior do Ceará, na primeira metade do século XX. Seu pai, Jared Santiago Lima, cultivava o hábito da leitura, pela qual se mantinha informado: ―cansei de ver papai recebendo o jornal que chegava de carro,
como se fosse algo assim... Muito precioso!‖.
subterrâneas –objeto de pesquisa investigado por Marlúcia- pode ser realizada por meio dos índices de concentração de carbono-14. Ver: SOARES, Marina Bento. Tempo Geológico. IN: Livro digital de paleontologia: a paleontologia na sala de aula. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/paleodigital/Tempo_geologico5.html>. Acesso em 06 jun. 2011.
75 Todas as falas de Marlúcia contidas neste texto foram extraídas das entrevistas concedidas nos dias: 31 de maio de 2011; 29 de julho de 2011; e 19 de setembro de 2001. Os três encontros se deram em seu gabinete no Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará.
76
Juntamente com o seminário, neste mesmo período, foram construídos ―o Colégio Diocesano Padre Anchieta – para rapazes da região [...] e o Patronato Santo Antônio dos Pobres – para as ―moças‖, [...] filhas dos grandes proprietários rurais‖ (MAIA, 2005, p.34).
De pé, à esquerda, Josué Mendes Filho, companheiro acadêmico com quem Marlúcia (de pé à direita) casou-se. Sentados, à esquerda,Maria Freitas Santiago e, à direita, Jared Santiago Lima, seus pais.
Em suas narrativas, seus pais e companheiro são mencionados como pessoas que deram uma contribuição fundamental para/na sua inserção e permanência no campo científico.
Os irmãos de Marlúcia, assim como ela, também construíram suas carreiras como docentes. Sendo sua irmã professora de francês e seu irmão professor de
matemática da Universidade Estadual do Ceará. Em suas narrativas, explicitou: ―um
dia, fizemos uma festa e trouxemos uns cantadores... repentistas, sabe? E eles
falaram algo assim: ―se disser xô professor, não fica ninguém!‖.‖
Marlúcia, já detentora de certo ―capital cultural‖ (BOURDIEU, 1996), afirma que sua aproximação com as ―exatas‖ se deu durante a infância, quando desenvolveu a ―afinidade com aritmética‖. Afirma que, por se sair bem na disciplina, os professores sempre a incentivavam. E, de acordo com ela, a sua escolha por
cursar física está vinculada a este fato de sua infância, que continuou presente durante a juventude e continua sendo cultivado.
Neste aspecto, surgiu algo interessante em nosso diálogo. Ao afirmar a sua afinidade com o raciocínio matemático, indaguei sobre como ela percebia esta sua ―inclinação‖ para as ―exatas‖. De acordo com Marlúcia, tratou-se de um aprendizado. Indo mais além, afirmou acreditar que o fato de as mulheres não serem tão presentes na física é devido ao fato de não serem estimuladas.
Assim, neste momento, ao refletir sobre a sua aproximação com a física, não percebi em seu discurso o traço biologicista que afirmaria diferenças no cérebro feminino e masculino, as quais determinariam uma suposta incapacidade das
mulheres para os ramos científicos em que a ―razão‖ predomina. Esta é uma seara
complexa, permeada também pelo seguinte questionamento: Por que as mulheres tendem a procurar mais as ciências humanas, enquanto que os homens tendem a se concentrar nas ciências exatas e tecnológicas?
Muitos estudos revelam que o desinteresse pelas áreas ditas ―exatas‖, por parte das mulheres é, na maioria das vezes, vinculado a fatores que permeiam sua trajetória educacional. Dentre estes fatores, podem ser destacados o pouco estímulo familiar (VELHO & LEON, 1998; TABAK, 2002) e o tratamento desigual dado por professores, os quais tendem a incentivar mais os meninos do que as meninas a se interessarem por matemática na escola (AUAD, 2006).
Neste âmbito, para a problematização da segregação ocupacional da ciência e tecnologia, considero relevante a apreciação de Bourdieu (2005) sobre a ―vocação‖ ao afirmar que existem ―expectativas objetivas‖ previamente inscritas nas posições oferecidas para mulheres e homens nas estruturas sociais, nas quais as disposições ditas como femininas ou masculinas são muito comumente associadas a uma suposta vocação diferenciada para indivíduos de cada sexo. O autor afirma que:
A lógica, essencialmente social, do que chamamos de ―vocação‖, tem por efeito produzir tais encontros harmoniosos entre as disposições e as posições, encontros que fazem com que as vítimas da dominação simbólica possam cumprir com felicidade (...) as tarefas subordinadas e subalternas que lhes são atribuídas por virtudes de submissão (...) (BOURDIEU, 2005, p.73, grifo do autor).
Bourdieu defende, ainda, que a concordância entre as estruturas objetivas (conformação do ser) e as estruturas cognitivas (formas do conhecer, de se reconhecer), consolida relações de dominação como algo quase natural, fazendo com que a ordem androcêntrica se imponha como neutra, possuindo um poder estruturante específico segundo o campo de que se trata. Desta maneira, ocorreria também no caso específico do subcampo científico da física.
E, compreendendo que as estruturas de um campo não são fixas, são performáticas, permito-me defender que as normas regulatórias do sexo (BUTLER, 1990; 2010), assim como nos demais âmbitos da vida em sociedade, fazem-se presentes nas performances educacionais e profissionais dos sujeitos genericizados. Cientistas também constroem suas performances científicas como sujeitos genericizados.
Como era comum em meados do século XX, Marlúcia obteve uma formação voltada para o magistério de crianças, pois estudou na Escola Normal de Fortaleza. Neste espaço não havia rapazes matriculados. A quase nula participação do sexo masculino não era algo somente do Ceará, mas do Brasil e de muitos outros países (ALVES, 2009, p.40).
A Escola Normal era considerada uma instituição para a instrução escolar
feminina onde, em quatro anos de curso, destacavam-se as aulas de ―trabalhos
manuais‖, nas quais se sobressaíam os bordados e o crochê, e ―economia doméstica‖ que envolvia direcionamentos relativos à organização familiar: administração das despesas da casa, higiene dos cômodos, incluindo as orientações
à família, ―além da manutenção dos suportes necessários à harmonia familiar‖
(ALVES, 2009, p.42).
Neste sentido, vale afirmar, que Marlúcia foi além deste espaço pensado para as mulheres de então. Simultâneo ao curso Normal cursou o ―Científico‖ no Colégio Farias Brito, instituição da rede privada de ensino. Assim, mesmo inserida num
contexto em que ―a imagem da moça que cursava o ensino normal [...] ganhava uma
fundamentação bem mais moral do que científica‖ (ALVES, 2009, p. 26), Marlúcia
ultrapassa-o, conseguindo ingressar numa universidade e, mais que isso, insere-se em um espaço tão árido à presença feminina: a física.
“Os trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Física Isotópica são prioritariamente direcionados para o conhecimento das reservas hídricas do Nordeste do Brasil quanto à dinâmica de recarga e preservação, permitindo indicar um gerenciamento adequado.”77
No dia primeiro de março de 1961, foi criado o então Instituto de Física, hoje Departamento de Física. A sua existência na UFC esteve vinculada aos Institutos de Matemática, Química, Geociências e Biologia, unidos em 1973 com a criação do Centro de Ciências.
Durante toda a graduação de Marlúcia, até o ano em que ingressou na UFC como professora, em 1972, ainda era existente o Instituto de Física. De acordo com suas narrativas, se sua formação tivesse se restringido ao curso Normal, não teria tido a mesma oportunidade de se interessar pelo campo universitário da física: ―Quando estava concluindo o científico, houve uma divulgação dos institutos da UFC que haviam sido criados. Então fui visitá-los e conheci a física‖.
Foi somente após uma divulgação realizada no colégio onde cursava o ―Científico‖, que teve curiosidade de conhecer os institutos da UFC, sendo então quando decidiu inscrever-se no vestibular para o curso de Física, onde é docente há quase 40 anos.
Por volta de 1965, quando ainda cursava sua graduação na UFC, Marlúcia já iniciou seu envolvimento com o estudo das águas. Incentivada por um professor de física atômica, inseriu-se num grupo de pesquisas que já tinha experiência com o uso de isótopos. A proposta do grupo se inseria numa relevante problemática social do Nordeste brasileiro: o estudo da evaporação das águas de açudes, financiado pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra as Secas).
Cabe, aqui, abrir um parêntese: estes estudos eram focos de financiamento na medida em que a problemática da seca era, e ainda é, algo que marca a sociabilidade do povo nordestino e, de forma peculiar, o cearense.
O Ceará, de maneira distinta do restante do Nordeste, teve seu processo de povoamento demarcado pela pecuária e agricultura de subsistência. Devido às
77
Universidade Federal do Ceará – Programa de Pós-graduação em Física. Disponível em < http://www.ppgfisica.ufc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=82%3Amaria-marlucia-freitas- santiago&catid=57%3Acorpo-docente&Itemid=37&lang=br>. Acesso em: 10 maio 2012.
especificidades de seu solo e clima, não foi possível o plantio da cana-de-açúcar para fins comerciais.
Durante o século XVIII a falta de chuvas destruía, imediatamente, as pequenas colheitas e ameaçava os rebanhos de gado. Era uma sociabilidade demarcada por um profundo abismo entre a figura dos ―coronéis‖ – grandes
latifundiários – e a população que viva ―de favor‖ em suas propriedades, ou como
funcionários das fazendas. Quando ocorria seca ―o proprietário da fazenda
destacava alguns homens e deslocava seus bois para outras áreas onde o pasto
podia ter se preservado‖ (NEVES, 2000, p.78).
Aos homens e mulheres que ficavam somente havia duas alternativas: migrar para áreas mais úmidas78; ou terem a ―sorte‖ de ser acolhidos nas terras dos coronéis que haviam viajado. Muitas vezes, essas pessoas passavam a habitar os
currais abandonados. Estabelecia-se uma relação de profunda dependência, e ―a
permanência deste sistema tornava a convivência próxima com a morte ou com a
fome‖ (NEVES, 2000, p.79).
Na metade do século XIX, devido ao plantio de algodão para fins comerciais, houve o ―fechamento‖ das terras que até então servia como rotas de ―retiradas‖ para as pessoas e seu gado. Assim, o episódio da seca de 1877 se tornou um marco, transformando a seca em questão social (NEVES, 2000). Pela primeira vez as pessoas miseráveis, famintas, doentes, passaram a migrar massivamente para os
centros urbanos – especialmente Fortaleza – em busca de sobrevivência. As
estradas transformavam-se em verdadeiros ―cemitérios a céu aberto‖, onde homens,
mulheres, crianças e animais morriam de fome, de sede, ou acometidos por doenças.
Em um ano mais de 100 mil retirantes ocuparam a cidade de Fortaleza que tinha apenas 27 mil habitantes. Os antigos ―vaqueiros‖, ―agregados‖ das fazendas de
gado passaram à condição de retirantes, conhecidos como ―flagelados da seca‖.
Assim, a problemática das chuvas irregulares passa a ser uma preocupação do poder público, extremamente insatisfeito com a ―desordem‖ que afligia os centros urbanos.
78 Esta realidade foi muito bem retratada pelo romance escrito por Graciliano Ramos, ‗Vidas Secas‘, publicado originalmente em 1938.
Inicialmente a seca foi tratada por meio de intervenções imediatistas, com a distribuição de alimentos, roupas e alojamento para os retirantes. Em seguida foram criados os ―campos de concentração‖ vinculados a grandes obras, tais como a pavimentação das ruas da cidade, a construção de ferrovias. Com este sistema, somente poderia receber sua ―ração‖ aqueles que fossem merecedores, que trabalhassem nas obras públicas. Estabelecia-se um cenário nefasto:
Pensado como uma forma de proteger a cidade da ―invasão‖ dos retirantes, o Campo [de Concentração] concentrou, em média, cerca de 8.000 pessoas [...]. Os retirantes [...] eram conduzidos, assim que chegavam, diretamente para o ―curral‖ de arame farpado de onde não poderia mais sair. [...] a concentração de pessoas num ambiente pouco higiênico acabou por facilitar a proliferação de doenças [tal como a varíola], o que transformou o Campo num local para onde os retirantes iam apenas para morrer (NEVES, 2000, 87).
Em 1909 foi criado o IOCS (Inspetoria de Obras Contra as Secas) que estabeleceu uma política de enfrentamento às consequências sociais da seca por meio da ―solução hidráulica‖: a seca deveria ser combatida com a construção de grandes reservatórios de água, açudes com sistemas de barragens e poços (NEVES, 2000).
Estas construções promovidas pelo IOCS, conhecidas como ―frentes de
serviço‖, eram também executadas pelas famílias ―flageladas‖ em troca de ração, muitas vezes resumida a um saco de farinha. Aqueles que não se adequavam ao trabalho ―escravo‖, ou mesmo aqueles que desrespeitavam os técnicos que coordenavam as obras, eram mandados para a prisão.
Promovendo estas intervenções, em 1919 o IOCS passou a se chamar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, e em 1945, DNOCS.
Assim, o DNOCS que esteve à frente da construção de grandes reservatórios de água por meio da exploração da mão-de-obra dos ―flagelados‖, passou a modernizar suas ações com uma política de financiamento à pesquisa acerca da problemática. Foi assim que na década de 1960 o DNOCS foi um importante parceiro para a consolidação de pesquisas desenvolvidas pela Física da Universidade Federal do Ceará.
O nosso grupo de física transformou-se no primeiro grande laboratório do Departamento de Física. Foi criado pelo professor de física atômica, Homero Lenz Cesar. Quando ele foi para a Física, em 1965, aproximadamente, ele já trazia uma experiência sobre uso de isótopos em trabalhos que ele tinha feito nos Estados Unidos. Então, ele já tinha um projeto junto com o DNOCS para estudar evaporação de açudes através de isótopos.
De acordo com Marlúcia, já poderia estar aposentada há mais de 10 anos. Contudo, continua atuando como docente e pesquisadora na área de física isotópica, onde estão inseridas suas pesquisas acerca da datação das águas nordestinas por Carbono-14.
O que fez surgir o seu interesse pela água como objeto de estudo, foi a sua própria infância, na qual ficava na casa de seus avós, ouvindo pessoas falarem sobre as expectativas em torno das chuvas, ―se iria chover ou fazer seca‖, o que se poderia plantar, o que foi plantando e não pôde ou poderia ser colhido. Deste modo, também seu interesse e curiosidade pela água surgiram de sua vivência no interior do Ceará marcado pela seca. A água foi algo que marcou sua infância e que continua marcando sua vida, agora como pesquisadora.
Neste momento de nossa conversa percebi o quando a subjetividade do pesquisador interfere no processo de pesquisa, desde o processo de escolha dos fenômenos a serem pesquisados, e o quanto não se pode afirmar uma neutralidade
nas ciências, mesmo naquelas que se afirmam ―exatas‖.
De fato, existem diferenças, distinções entre as ciências nas suas ramificações. Não se pode afirmar que, em todos os ramos de saberes, as formas pelas quais se produz conhecimento sejam iguais. Vale pensar que as ramificações das ciências se consolidam, também, por um repertório discursivo que reitera distinções entre as ―áreas de conhecimento‖ institucionalizadas.
Oficialmente o CNPq afirma, para fins de financiamento de pesquisas e avaliação de cursos, que a física está inserida dentro de uma área de conhecimento denominada ―Ciências Exatas e da Terra‖. Todavia, mesmo havendo diálogos com o raciocínio matemático, este mesmo raciocínio é produzido por seres humanos. Assim, toda e qualquer ciência é produzida socialmente (HARAWAY, 1995; 2000), por sujeitos marcados por suas trajetórias na academia ou fora dela.
Deste modo, a ideia de uma suposta neutralidade científica é contraditória em si mesma e carrega um paradoxo tipicamente ocidental: a dicotomia sujeito/objeto
(BEZERRA DE MENEZES, 2009) 79. Uma das grandes questões é perceber que:
[...] não existe ciência neutral porque o homem, seu produtor, não é neutral e, na medida em que ele é um animal axiológico mergulhado num mundo de valores sociais e históricos, tudo o que ele faz comporta valores e é feito a partir de valores, dentro de seus desiderata. [...] Desse modo, sustentar a ―neutralidade da ciência‖ representa de fato uma forma de ocultação ideológica de seu caráter histórico e de seu compromisso com interesses sociais dominantes (BEZERRA DE MENEZES, 2009, p. 2).
Nas narrativas de Marlúcia esta dimensão da neutralidade nas ciências não foi diretamente abordada. Entretanto, afirmou como distinção das ―ciências exatas‖, onde institucionalmente está inserida a física, o raciocínio matemático: ―Dois mais dois tem que ser quatro. Tem que necessariamente ser quatro. Por isso são ciências
exatas. São diferentes das ciências humanas‖
“O Laboratório Carnono-14”
Já na década de 1960, durante a graduação, Marlúcia iniciou sua aproximação com a discussão da física isotópica. Num período em que o Departamento de Física ainda não contava com um laboratório devidamente equipado para o desenvolvimento destes estudos, ao concluir sua graduação em 1969, iniciou seu Mestrado em Engenharia e Tecnologia Nuclear na USP.
Conforme já foi mencionado, havia, então, um programa de colaboração estabelecido mediante convênio entre USP e UFC que possibilitava a vinda de professores, bem como a ida de alunos. Assim Marlúcia cursou o último ano de graduação no Instituto de Energia Atômica da USP e, ao concluir, iniciou seu mestrado na mesma instituição.
79
BEZERRA DE MENEZES, Eduardo Diatahy. Sobre a “neutralidade” das ciências. (mimeo). Este texto traz
importantes reflexões acerca do discurso que afirma a neutralidade nas ciências. Tive a oportunidade de discuti- lo durante a disciplina Tópicos Especiais em Sociologia I no curso de Doutorado em Sociologia/UFC, ministrada