Ao contrário dos demais Estados da região Sudeste do Brasil, na maior parte do território do Espírito Santo prevaleceu o estabelecimento de pequenas propriedades produtivas a partir da chegada dos portugueses. Durante todo o Período Colonial, a ocupação de terras capixabas se fez na faixa litorânea sem, no entanto, gerar uma produção compatível com o sistema colonial imposto por Portugal. O resultado pode ser observado através da historiografia dedicada ao estudo da História do Brasil Colônia, em que o Espírito Santo raramente é lembrado, excetuando seu caráter de capitania subalterna ao sistema mercantil da colônia. Contudo, cabe ressaltar que, como nas demais capitanias, a utilização da mão de obra escrava estava disseminada pelo Espírito Santo, principalmente na região central, e como no restante do Brasil, a agricultura era a principal base produtiva.
Com a Independência do Brasil, a situação do Espírito Santo não se alteraria de imediato. Ao se iniciar o Período Imperial houve a manutenção de uma baixa densidade demográfica, produção pautada em pequenas propriedades agrícolas e a ocupação prevalecia na faixa litorânea capixaba. Por volta, da década de 1820, o Espírito Santo mantinha uma tímida ocupação do seu território, tendo como limites, ao norte, a Vila de São Mateus e, ao centro, a Vila da Vitória, capital da Província. A partir dessa época, iniciou-se a ocupação da Região Sul do Espírito Santo, com destaque para as áreas do Vale do Itapemirim e do Itabapoana, posteriormente, localidades em que se estabeleceu a cafeicultura em regime de grandes
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propriedades nos moldes das fazendas do Vale do Paraíba e Oeste Paulista, principais zonas cafeeiras (SALETTO, 1996:28).
Em determinada medida, até a chegada dos imigrantes europeus, acentuada a partir de 1850, grande parte do território do Espírito Santo se compunha de mata nativa.
O interior da Província é em sua maior parte coberto por uma selva densa, bastante montanhoso e habitado por grupos dispersos de índios selvagens. Por isso, uma ligação terrestre duradoura e funcional entre as duas províncias só pode ter perspectiva de sucesso, racionalmente falando, através da colonização por uma população estrangeira ou nativa que gradualmente avance para o interior, concomitante à construção de estradas. De qualquer modo, ela teria enorme importância tanto para Minas Gerais quanto para o Espírito Santo e esta última Província, tão decadente, poderia adquirir assim uma maior significação (TSCHUDI, 2004:60).
Da mesma forma que fora observado no relato do Barão Tschudi (2004), os Relatórios Provinciais, sob responsabilidade dos Presidentes da Província, atribuem o atraso econômico, muitas vezes, à situação de isolamento e desocupação da maior parte das terras capixabas, herança do Período Colonial.9
O isolamento, verificado até o século XIX, pode ter como uma das explicações a falta de ligações adequadas entre o interior e a capital, Vila da Vitória, bem como entre a Província e as demais do Império. O referido problema sempre foi motivo de insatisfação das autoridades e da população, que na maior parte, dependia do
9 A historiografia capixaba argumenta que o isolamento e, em certa medida, a decadência do Espírito
Santo durante o Período Colonial está ligada a dois fatores. O primeiro diz respeito à própria geografia do Estado, irregular e acidentado, bem como a ocupação por gentílicos dispostos a lutar por seu território. Outro fator, já no século XVIII, diz respeito a Legislação Portuguesa que impedia o estabelecimento de ligações entre o Espírito Santo e Minas Gerais, sob a alegação de proteger o escoamento de ouro e pedras preciosas encontradas nas Gerais. Mário Aristides Freire (2006), argumenta que as Leis de proibições mais relevantes datam de 1725 a 1758, não significando, necessariamente, a interrupção do trânsito de pessoas e mercadorias entre as duas capitanias (CARVALHO, 2008; FREIRE, 2006).
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A instabilidade socioeconômica foi observada pelos diversos viajantes que se propuseram a escrever relatos sobre a Província, depois Estado, do Espírito Santo, entre os séculos XIX e XX.10 Entre as questões que chamavam a atenção destes viajantes, predominava a baixa densidade demográfica, grande extensão de terras devolutas, isolamento e falta de infraestrutura, elementos que, utilizados da maneira certa, seriam capazes de protagonizar o desenvolvimento do Espírito Santo.
A opção pela estrutura de núcleos coloniais era vista pelos governantes como uma solução de dois dos problemas: baixa densidade demográfica e a grande extensão de terras devolutas. Desta maneira, com a inserção de considerável número de imigrantes garantir-se-ia trabalhadores a baixo custo para a realização de obras públicas, principalmente na construção de estradas e ferrovias. No entanto, mesmo que tenha predominado, a partir de 1850, a colonização em núcleos de imigrantes, estabelecidos em pequenas propriedades, houve regiões que mantiveram o sistema de produção em latifúndios, com a utilização do escravo no trabalho. Assim, no Espírito Santo os dois sistemas de produção agrícola, em grandes e pequenas propriedades, coexistiram pelo menos durante o Período Imperial.
Torna-se relevante para o presente estudo, compreender o processo de ocupação do interior do Espírito Santo, buscando destacar as regiões onde se estabeleceu o modelo de ocupação para produção extensiva, que servirá de contraponto no entendimento para o estabelecimento dos núcleos coloniais imigrantes.
No interior, com destaque para a Vila de Itapemirim, região mais desenvolvida da Província e reduto dos grandes proprietários, se estabeleceu a produção em larga escala nos moldes da indústria cafeeira encontrada em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo por este último, feito o escoamento da produção do Sul do Espírito Santo. Segundo Tschudi (2004:100):
10 Consideram-se aqui como viajantes não apenas o barão Johann Jakob Von Tschudi e Carlo Nagar,
que estiveram no Espírito Santo em 1860 e 1895, respectivamente, mas também Ernest Wagemann, em 1913 e Jean Roche em 1968.
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todavia, não apresenta aspecto desagradável pela vastidão e regularidade de sua praça, assim como das ruas; sua prosperidade é nula, pois que a população respectiva não passando de 900 a 1000 almas, quase toda se ocupa no tiramento de madeiras, levando nisto uma vida nômade, e sem produzirem nem ao menos para o consumo.‖ População de 700 almas (ROCHA, 2008:189- 190).
Enfim, no que tange à população e à ocupação do território, os dados quantificados pelo escritor Renzo Grosselli (2009:115) parecem ser os mais precisos, devido à variedade de estatísticas apresentadas. De acordo com o referido autor, em 1872, após, portanto, as primeiras empreitadas imigrantistas, o Espírito Santo contava com uma população de aproximadamente 82.000 habitantes, dos quais mais de 22.000 eram escravos, sendo que a maioria se encontrava nas fazendas do Sul. Este número demonstra uma densidade demográfica de pouco mais de dois habitantes por quilômetro quadrado, considerando a extensão territorial do Espírito Santo, de 36.000 quilômetros quadrados (NAGAR, 1995:31). O panorama populacional apresentado ajuda a compreender a preocupação por parte das autoridades em atrair imigrantes estrangeiros para povoar e desenvolver a Província e, posteriormente o Estado.