Este grupo de necessidades diz respeito à organização do currículo, ou seja, à ordenação dos conhecimentos/conteúdos entre as disciplinas, à sua articulação, à inserção de novos conhecimentos e espaços/disciplinas, e à reformulação das atuais. Algumas dessas necessidades são decorrentes daquelas paradigmáticas que evidenciam a complexidade, a transversalidade, a inter e transdisciplinaridade como qualidades intrínsecas do saber ambiental.
É possível ordenar as necessidades contidas neste grupo de acordo com seu impacto sobre o formato atual do currículo do CAU. Segundo a profa.4, não haveria a necessidade de um espaço tão definido no Curso para tratar da questão ambiental, mas sim de “uma
consciência de que isso tem de ser passado, e pode ser internalizado nas várias disciplinas, nos vários trabalhos”. Para o prof.1, a questão ambiental deveria ser levantada desde o
primeiro ano e fazer parte das disciplinas de Teoria e História e não apenas de Tecnologia e Projeto: “a questão ambiental entra nesse bolo (das sensibilidades a serem construídas nos
alunos) também, e tem de ser vista desde o primeiro ano e não ser fechada em uma coisinha de tecnologia. [...] Eu construo este edifício e já estou tendo uma ação ambiental. Acho que isso deveria ser mostrado com essa naturalidade, com essa amplitude, desde o primeiro ano”.
Essas falas nos remetem à necessidade (e à possibilidade) de que cada professor, oportunamente conscientizado assuma o risco, a responsabilidade e o ônus de internalizar a questão ambiental em suas práticas e seus planos de ensino, não sendo necessário intervir no formato atual do currículo, cuja organização em áreas de ensino, seqüências e disciplinas não se constituiria em um entrave para a iniciativa dos docentes.
Uma segunda necessidade consistiria na superação do isolamento das disciplinas que redundaria em abordagens simplistas, como lamenta o prof.1: “o curso de conforto ambiental
não sei o que... [...] A gente [da área de Projeto] tem tido discordâncias com professores da área de Conforto por causa disso, por causa de uns absolutos: na face Oeste bate o sol, fica muito quente..., mas às vezes a face Oeste é a única que você tem a disposição para a implantação!”. Esse desabafo agrega um fator complicador à possibilidade apresentada
anteriormente. Admite-se, de fato, que o tratamento adequado da questão ambiental, até quando se traduz em problemas específicos, tais como a climatização natural (que dispensaria o uso de dispositivos que consomem energia), demandaria uma maior permeabilidade dos limites epistêmicos das disciplinas e sua abertura a questões e problemáticas (no caso, a problemática urbana) objeto de outras disciplinas, com a conseqüente articulação dos conteúdos e das estratégias metodológicas em torno de objetivos comuns.
Além da inserção da questão ambiental em cada disciplina e da articulação de seus conteúdos em torno de objetivos comuns, se necessitaria da revisão do papel, e conseqüentemente do lugar de algumas matérias/disciplinas na grade curricular, devido aos recursos conceituais e metodológicos e aos instrumentos que têm a oferecer para o equacionamento da problemática ambiental. É o caso de Paisagismo (prof.5 e 8), cuja função e peso em termos de carga horária seria decorrente de uma visão redutora, estática e ahistórica do conceito de paisagem e da própria disciplina de Paisagismo, como “jardinagem do exterior
do edifício” (profa.8), que conflita com a visão de paisagismo como disciplina autônoma,
indissoluvelmente ligada à questão ambiental desde suas origens até à modernidade (prof.5). Na perspectiva dos prof.5 e 8, o próprio conceito de paisagem se superpõe àquele de ambiente, como resultado da ação contínua dos seres humanos sobre a natureza ou expressão físicas de processos e relações históricas, perspectiva que, segundo Sauvé (2002), abriria caminho para a leitura de contextos locais, sublinhando a dinâmica de seu desenvolvimento histórico e seus componentes simbólicos.
Tendo como referência o escopo das disciplinas de Projeto (“no segundo ano se
trabalha a habitação e no quarto ano pedaços de cidade”), a profa.8 propõe que a disciplina
de Paisagismo compareça na grade curricular pelo menos mais uma vez, no quarto ano (hoje, a disciplina é ministrada no segundo) “quando então essa parte ambiental deveria ser mais
trabalhada”. Essa última fala nos induz a crer que, para a professora, a rua e a praça, que
integrariam o domínio do “urbano consolidado” (atualmente tratado no segundo ano), não apresentariam o mesmo interesse ambiental que o objeto da “segunda vertente” da disciplina, isto é, as “áreas totalmente livres, ou seja, glebas em que teria de fazer o arruamento e então,
Essa concepção vai de encontro com aquela do prof.1, para o qual a temática ambiental englobaria também a questão do descaso com o espaço público e a questão da arborização da cidade, essa última amplamente negligenciada nas escolas de arquitetura, embora se disponha hoje de um corpo de conhecimentos consolidado nesse campo, e permanentemente atualizado ao longo de freqüentes congressos. Poderíamos acrescentar que a incorporação dessa questão à formação profissional do arquiteto mobilizaria saberes e competências específicos da área cujo desenvolvimento poderia oferecer uma grande contribuição para a conservação/recuperação da vegetação nas nossas áridas cidades.
Para o prof.5, a questão ambiental em sua associação com o paisagismo assumiria “uma
dimensão técnica fundamental. Por exemplo, fenômenos erosivos: é fundamental conhecer os fenômenos erosivos. Por quê? Porque o fenômeno de erosão em áreas urbanas, agravado pela natureza do solo e pela topografia, é um problema que está presente em 80% das áreas de periferia, por conta do manejo inadequado do solo, da retirada da cobertura vegetal, da impermeabilização do solo, [...]. O urbanista deve conhecer esses fenômenos, tecnicamente, como se dão, como minimizá-los, como mitigá-los, como corrigi-los”. Segundo ele, a
competência para prevenir fenômenos erosivos, assim como para desenvolver projetos de drenagem e de recuperação de cursos de água, faz parte do campo de atuação do arquiteto, não podendo, portanto, ser deixada de lado pelo currículo, como ocorre atualmente.
Vinculada à necessidade anterior, isto é à revisão do lugar de matérias e disciplinas com o acréscimo de novos conteúdos, alguns professores acusam a necessidade de uma disciplina ou um espaço no qual os alunos sejam introduzidos às questões do Planejamento Urbano: “o
profissional arquiteto urbanista, em teoria, está habilitado a fazer planejamento urbano e regional e, portanto, deveria estar tendo essa formação na graduação” (prof.5). A profa.4
entende a inserção do planejamento urbano nos termos, não de “uma disciplina na qual os
alunos aprendam a fazer planos”, mas sim de um “espaço para a discussão” das atuais
políticas urbanas e de seus instrumentos. O prof.5 sugere ainda a articulação dos conteúdos da área de Planejamento urbano com o Planejamento ambiental, disciplina que utiliza as informações sobre fatores físicos, naturais, sociológicos e políticos de uma região, para definir formas de uso idôneas para a mesma. Na opinião do professor, o Planejamento Ambiental, por operar em escalas que ultrapassam o município e a região, permitiria que as questões ambientais fossem pensadas em âmbitos territoriais os mais diversos.
Neste ponto, em que se reivindica explicitamente a inserção de novas disciplinas e conteúdos que, no caso particular do Planejamento urbano, subverteriam inclusive uma
decisão que norteou a formulação do currículo em suas origens, se apresenta com maior clareza a inadequação/insuficiência do currículo atual frente às demandas que a problemática ambiental, de acordo com os docentes entrevistados, coloca para o arquiteto e, conseqüentemente, a necessidade de uma reestruturação curricular mais abrangente.