A profa.7 entende a extensão como mecanismo de produção de saberes que tem a comunidade como parceira ativa e não apenas como destinatária de conhecimentos dados. Desse ponto de vista, para a professora, a USP teria uma extensão muito frágil: “a USP tem
um foco muito forte na questão cultural, mas na arte, na cultura. Agora, na extensão, que seria a transferência, isto é, ir para a realidade, a realidade social, acho que a USP tem muito pouco. A própria política de extensão que a USP tem... Não existe... Precisa ser mais incentivada e precisa ter um mecanismo mais ágil”.
Sorrentino (1995) já havia constatado que no discurso de importantes executivos da USP prevalecia um entendimento da extensão como meio de “escoamento do conhecimento gerado na universidade” e, mais especificamente com relação à educação ambiental, como meio de “conscientizar a comunidade sobre os problemas ambientais” (com o pressuposto de que a comunidade representaria um ente genérico, um agrupamento humano indistinto do ponto de vista cultural). Esse entendimento negligencia o potencial da extensão universitária como oportunidade para estabelecer vínculos concretos com a sociedade:
Não se trata simplesmente de levarmos o conhecimento já produzido pela universidade. Se a realidade é dissecada em partes pela departamentalização cartesiana da universidade, o que a prática da extensão universitária coloca é exatamente o professor/pesquisador em contato com a realidade tal como ela é, isto é, um todo complexamente estruturado onde o natural e o social não estão dissociados; a sociedade não é simplesmente um objeto, mas
constituída por sujeitos que vivem sob determinadas condições sociais, dispõem de um determinado capital cultural, movidos por interesses, aspirações e desejos (GONÇALVES, 1990, p. 194).
No campo específico da Arquitetura, Silva (2005) concebe a extensão universitária como o espaço por excelência do restabelecimento de uma articulação que tenderia a se perder entre as correntes da racionalidade crítica e tecnológica da qual depende a reintegração de aspectos potencialmente contraditórios de um projeto, tais como as metas materiais do processo de produção do espaço, os benefícios sociais e a preservação dos recursos:
A omissão relativa a matérias de peculiar interesse social ou ambiental, nos requisitos de qualidade [dos projetos, ações, empreendimentos na área da habitação], não é um problema dos profissionais e pesquisadores encarregados de trabalhar o conteúdo material do processo. Ela se origina na fragmentação do conhecimento desde a própria universidade, onde as correntes de racionalidade crítica e tecnológica não se articulam entre si. Não se trata de um problema formal de articulação entre as áreas de conhecimento estabelecidas, mas da criação de espaços de pesquisa transdisciplinar, organizados em torno de objetos de interesse público da forma como se apresentam no mundo real (p. 119).
A extensão universitária representaria, portanto, o espaço por excelência da pesquisa transdisciplinar, na qual a universidade se confronta com a sociedade, “com aquilo que é diferente dela, universidade” (GONÇALVES, op.cit., p. 194). Para esse autor, desde que se desenvolve essencialmente na relação com a sociedade civil,
[...] se constitui num terreno extremamente rico para que a universidade elabore uma política de Ensino e Pesquisa voltada para as demandas reais da sociedade. [...] A originalidade da situação brasileira exige soluções também originais. A ciência e a tecnologia, e a universidade como locus privilegiado de produção desses saberes, têm um papel significativo e decisivo a cumprir no devir da sociedade brasileira e este papel será tanto maior quanto mais for capaz de, partindo das demandas mais profundas da sociedade brasileira, traduzi-las numa perspectiva estratégica do desenvolvimento nacional (ibid, p. 197).
Para a profa.7, contrariamente à USP, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) valorizaria as atividades de extensão dentro da concepção descrita anteriormente – “ela tem
um pró-reitor de extensão que trabalha com pesquisa-ação, então ele é um incentivador”.
Além disso, a UFSCar teria se adiantado também na criação de mecanismos que articulam ensino, pesquisa e extensão: as Atividades Curriculares de Integração entre Ensino, Pesquisa e Extensão (ACIEPE).
A ACIEPE, atividade complementar inserida nos currículos de graduação, com duração semestral de 60 horas e 4 créditos, se propõe, entre outros objetivos a promover a aproximação entre os currículos e a vida concreta da sociedade, o diálogo com diferentes segmentos sociais, para construir e reelaborar os conhecimentos sobre a realidade de forma compartilhada, e a ampliação dos espaços de ensino-aprendizagem de maneira a conferir concretude e objetividade aos conhecimentos produzidos (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2006). Nessas atividades, desenvolvem-se temáticas socioambientais contemporâneas, entre as quais a sustentabilidade urbana e regional: a ACIEPE que trata dessa temática foi planejada e desenvolvida pela primeira vez no segundo semestre de 2002 por professores do Departamento de Engenharia Civil (DECiv), e ofereceu aos alunos a possibilidade de participar do projeto “Incorporação de princípios e indicadores de sustentabilidade em políticas públicas de municípios de porte médio” que teve como “laboratório” e parceira a cidade de Jaboticabal (SP) (ROCHA, 2003).
Embora não salientem os mesmos amplos propósitos da ACIEPE – entre os quais, intensificar o contato da universidade com a sociedade e fortalecer a indissociabilidade entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão -, em 2000 as Pró-Reitorias de Graduação e de Cultura e Extensão da USP instituíram nos currículos dos cursos de graduação a disciplina optativa “Atividades de Cultura e Extensão”, a qual consiste no exercício de atividades artísticas, culturais, cívicas comunitárias e de extensão, entre outras, que podem ser oferecidas pela Unidade, pela USP, por autarquias e instituições ou entes públicos ou privados (Resolução CoG e CoCEx n.4738, Art.2). A disciplina se propõe a contribuir para o desenvolvimento artístico, cultural, humanístico, cívico e comunitário do estudante, deixando em aberto as opções temáticas e metodológicas/pedagógicas para a sua realização. Dessa forma, valeria a pena avaliar seu potencial como espaço de formação socioambiental na convergência entre a extensão e o ensino, em um contexto que se caracteriza justamente pela desarticulação entre as duas esferas de atividades acadêmicas.