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O  Proálcool  Programa  Nacional  do  Álcool   refere‐se  a  uma  política  pública  federal,  lançada em  , por meio do Decreto n°.  . / , visando promover em território 

nacional a produção e uso do álcool como combustível alternativo à gasolina. Trata‐se de  uma política pública formulada e implementada durante o regime  militar brasileiro, e  sua  dinâmica  de  decisão  reflete  as  especificidades  do  ambiente  institucional  e  conjuntural do período no qual foi formulado, conforme será visto a seguir. 

4.1.1 A formação da agenda 

A ideia de se formular uma política pública de fomento à produção nacional do álcool  combustível surgiu em  , quando em dezembro deste ano ocorreu a primeira crise  do  petróleo,  o  chamado  primeiro  choque  do  petróleo ,  que  provocou  significativa  elevação dos preços da gasolina. Como o Brasil era totalmente dependente do petróleo  importado, o objetivo principal da política foi, ao se produzir localmente um combustível  substituto à gasolina, o de reduzir a sua importação. 

Mais do que uma preocupação de segurança energética, o que levou esta política pública  à  agenda  de  decisão  foi,  primordialmente,  a  busca  pelo  equilíbrio  na  balança  de  pagamentos  do  País,  que  se  encontrava  deficitária.  Com  efeito,  apesar  do  choque  do  petróleo,  os  prognósticos  quanto  ao  suprimento  do  combustível  eram  otimistas,  de  modo que o receio da falta de abastecimento não foi o fio condutor da política. Santos 

 nos explica que: 

a  grande  preocupação  nesses  anos  é,  portanto,  não  com  o  suprimento  mas  com  os  efeitos  dos  altos  preços  de  petróleo  no  balanço  de  pagamentos,  na  inflação  e  na  economia  do  País  em  geral    SANTOS, 

, p.  . 

Segundo  os  dados  apresentados  pela  autora,  em  ,  as  importações  do  petróleo  atingiam a ordem de U$   milhões, representando  % das importações brasileiras.  Por sua vez, em  , em função da elevação dos preços, esse valor alcançara a cifra de  U$  ,  bilhões, passando a representar  % do total das importações. Esses números  afetaram,  invariavelmente,  a  balança  de  pagamentos:  se  em    registrou‐se  um  pequeno  superávit  de    milhões  de  dólares,  em    verificou‐se  um  déficit  de  ,   bilhões de dólares  SANTOS,  , p. . 

Diante desse cenário macroeconômico, a política chega, de fato, à agenda governamental  quando  o  então  Ministro  da  Indústria  e  Comércio,  Pratini  de  Moraes,  propõe,  em  Dezembro de  , incentivar a produção de álcool para fins combustíveis, uma vez que  os novos preços do petróleo justificariam a mistura do álcool à gasolina  SANTOS,  ,  pp.  ;  . Com isso, seria necessário expandir a área plantada de cana‐de‐açúcar, o que  se mostrava uma alternativa bastante interessante para o País: os preços do açúcar no  mercado internacional encontravam‐se altos, de modo que o aumento de sua exportação  contribuiria também para a balança de pagamentos do Brasil. Desse modo, ao se elevar a  produção  de  cana‐de‐açúcar,  dois  benefícios  poderiam  ser  auferidos:  haveria  mais  matéria  prima  tanto  para  produzir  o  álcool  para  consumo  interno,  como  para  a  produção do açúcar, destinado à exportação. Para Santos  , a proposta de Pratini  procurava,  aproveitando  os  preços  do  petróleo,  fortalecer  a  agroindústria  do  açúcar  

SANTOS,  , p.  .  

Em   havia uma escassez de açúcar no mercado mundial, de modo que os preços do  insumo cresceram a elevadas taxas. A média anual dos preços do açúcar passou de  ,   centavos de dólar em  , para  ,  centavos de dólares em    SANTOS,  , p.  .  Ou  seja,  um  aumento  de  %  em  apenas  dois  anos.  Aproveitando  o  mercado  internacional  favorável,  as  exportações  brasileiras  cresceram  %  em    e  mais  %  em  ,  estimuladas,  sobretudo,  pelos  importantes  investimentos  em  novas  usinas.  Desse modo, o propósito da política era combinar o incentivo à produção do álcool com  a manutenção ou até mesmo aumento da exportação do açúcar, que em   assume a  liderança da pauta das exportações brasileiras, tomando o posto até então ocupado pelo  café  SANTOS,  , p.  .  Quando Ernesto Geisel toma posse, em março de  , os efeitos do choque do petróleo  já se faziam sentir na economia brasileira. Assim, logo no início de seu governo, Geisel  solicita ao Ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, e ao novo Ministro da Indústria e  Comércio, Severo Gomes, uma política de álcool que diminuísse os efeitos negativos da  alta do preço do petróleo na economia brasileira  SANTOS,  , p.  .  Pode‐se afirmar  que é nesse momento que o tema ascende à agenda de decisão. Note‐se que já havia  várias  pesquisas  realizadas  no  Brasil  sobre  a  produção  do  álcool  combustível,  com 

destaque especial para o Centro Tecnológico da Aeronáutica, cujos estudos assentavam‐ se  na  produção  a  partir  de  diferentes  matérias‐primas,  como  a  cana‐de‐açúcar  e  a  mandioca. 

Considerando que  o equilíbrio do balanço de pagamentos era preocupação básica do  Presidente  da  República,  de  seus  assessores  imediatos  e  dos  ministérios  da  área  econômica   SANTOS,  , p.  , os objetivos da política de incentivo à produção do  álcool  estavam  subordinados  aos  objetivos  econômicos.  Essa  intenção  é  reforçada  quando é formulado o II Plano Nacional de Desenvolvimento  II PND , plano econômico  lançado no final de  , como resposta à crise econômica derivada do primeiro choque  do petróleo. Nas palavras de Santos  : 

Dentro desse contexto, a política de energia, embora considerada  peça  decisiva da estratégia nacional  no sentido de reduzir sua dependência  em  relação  a  fontes  externas  de  energia   II  PND,  ‐ : ,  subordina‐se,  por  assim  dizer,  ao  objetivo  maior:  Para  o  Brasil,  a  colocação correta é como enfrentar a crise de energia sem sacrificar o  crescimento  acelerado   II  PND,  ‐ :  .  E  este,  como  se  viu,  mantendo‐se  o  balanço  de  pagamentos  equilibrado  e  a  inflação  sob  controle  SANTOS,  , p.  .   

A  figura  a  seguir  representa,  esquematicamente,  a  formação  da  agenda  de  decisão  do  Proálcool: 

      

 Além do incentivo à produção do álcool, houve também um investimento considerável em prospecção e  produção de petróleo, intensificação do uso de energia hidroelétrica  por meio da construção de grandes  usinas  hidrelétricas   e  o  incentivo  à  energia  nuclear.  É  neste  contexto  que  se  firma  o  Acordo  Nuclear  Brasil‐Alemanha. 

FLUXO POLÍTICO