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Antes de considerar qualquer aspecto patológico da personalidade – aspecto considerado nesta pesquisa – é necessário conhecer suas bases na perspectiva da normalidade. A personalidade é um construto psicológico que tem gerado muita discussão na literatura psicológica (ANDRADE, 2008; SCHULTZ; SCHULTZ, 2006). As pesquisas voltadas para essa temática são diversas e direcionadas por diferentes abordagens. Há muitos anos a personalidade tem sido estudada, e nesse processo tem recebido uma série de definições. Tais definições podem assumir um efeito externo, que confunde a personalidade com reputação. É comum ouvir-se que “tal sujeito não tem personalidade” ou que “tal pessoa tem uma personalidade forte”. Essa confusão pode ser fruto da própria origem da palavra “personalidade”, que no latim clássico é traduzida como “máscara”, ou seja, denota um aspecto externo ao sujeito, que não lhe é inerente (ALLPORT, 1973).

Todavia, não existe uma definição absoluta ou que seja universalmente aceita para a personalidade. De forma geral, Pervin (1978, p. 4) tenta definir a personalidade afirmando que ela “representa as propriedades estruturais e dinâmicas de um indivíduo ou indivíduos, tais como se refletem em respostas características a determinadas situações”, ou seja, são as propriedades duradouras de cada pessoa que a torna diferente das demais.

A ciência da personalidade procura explicar as regularidades e consistências do comportamento humano. Disso surge a necessidade de sistematizar teorias, com a finalidade de responder às perguntas sobre esse construto. Como são diversas as definições sobre a personalidade, muitas também são as teorias que se dedicam a responder, a seu modo, essas perguntas. Segundo Pervin (1978), uma teoria da personalidade para ser completa precisa incluir na sua investigação os aspectos que envolvem as psicopatologias, bem como sugerir de que forma estas podem ser modificadas.

Atualmente, existe uma gama de teorias que versam sobre a personalidade (ALLPORT, 1973; HALL; LINDZEY; CAMPBELL, 2000). Dentre elas, Gordon Allport foi um teórico que trouxe grandes contribuições para a temática. Ele considerava o traço como o nível mais proveitoso para o estudo da personalidade. O traço seria a forma de responder de maneira igual ou semelhante a estímulos de tipos diferentes, uma maneira constante e duradoura de reagir ao ambiente (SCHULTZ; SCHULTZ, 2002). Raymond Cattell foi outro teórico que se debruçou sobre o estudo da personalidade e está dentre os pioneiros na

utilização da análise fatorial. Cattell elaborou um instrumento para avaliação da personalidade intitulado de 16-PF. Esse questionário elenca 16 fatores ou dimensões que explicam a estrutura da personalidade, cuja validação é advinda de sucessivas análises fatoriais (CATTELL; CATTELL, 1995; FRIEDMAN; SCHUSTACK, 2003). É um dos modelos que tem sido amplamente utilizado desde a sua criação até hoje (GOUVEIA; PRIETO, 2004). A análise fatorial, segundo Laros (2005), vem sendo associada à validade de construto de instrumentos psicológicos, ou validade fatorial, que é um tipo de validade de construto. Assim se afirma, pois essa análise busca a variância comum nos instrumentos, ou seja, verifica se os itens de uma escala estão cobrindo o mesmo construto (PASQUALI, 2007).

Outro modelo bastante citado é o proposto por Eysenck, conhecido como PEN, este considera apenas três dimensões de personalidade: o Psicoticismo, a Extroversão e o Neuroticismo. Enquanto Cattell, em seu modelo 16-PF supervaloriza o número de fatores (16 dimensões), o modelo de Eysenck recebe muitas críticas por subvalorizar os mesmos na mensuração da personalidade, pois considera apenas três dimensões. Esse teórico também utilizou o método da análise fatorial para definição do seu modelo. Ressalta-se que este modelo tem sua utilidade, principalmente, para fins de pesquisa, por avaliar os traços de personalidade de forma objetiva (MEIRA JUNIOR, 2008).

O Modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF) da Personalidade foi elaborado entre 1920 e 1930 com o intuito de responder a pergunta: Quais os principais fatores em que as pessoas variam? Tal modelo pode ser considerado uma versão moderna da Teoria de Traços que “descreve dimensões humanas básicas de forma consistente e replicável” (HUTZ et al., 1998). É proveniente de uma série de pesquisas fundadas em teorias fatoriais e de traços de personalidade. Por fazer uso da análise fatorial, tem ganhado a confiança de pesquisadores, pois as pesquisas voltadas ao modelo têm apontado resultados válidos e fidedignos (SILVA; NAKANO, 2011). As dimensões da personalidade encontradas nesse modelo foram denominadas de: Extroversão (Extraversion), Neuroticismo (Neuroticism), Abertura (Openness), Amabilidade ou Socialização (agreeableness) e Realização ou Conscienciosidade (Conscientiousness). Cada um deles possui facetas específicas, como será mostrado a seguir.

A Extroversão relaciona-se ao grau de tolerância à estimulação sensorial vinda de outras pessoas e situações, quanto ao número e intensidade das interações com outros e à capacidade de estar feliz. Pessoas que pontuam alto nesse fator são aquelas mais sociáveis, ativas, otimistas e envolvidas com muitas atividades. Em contrapartida, pontuações baixas indicam comportamentos reservados e quietos (HOWARD; HOWARD, 1995). Nesse modelo

foram encontradas as seguintes facetas: acolhimento, gregarismo, assertividade, atividade, busca de sensações e emoções positivas.

O Neuroticismo é o nível de sensibilidade ao estresse e de estabilidade emocional. Altos níveis apontam ansiedade, depressão, impulsividade, hostilidade e ideias irreais, enquanto baixos níveis indicam uma forma calma e segura de lidar com o estresse (HOWARD; HOWARD, 1995). O Neuroticismo também envolve características como afeto positivo e negativo, ansiedade e estabilidade emocional (HUTZ et al., 1998). Foram encontradas as facetas: ansiedade, hostilidade, depressão, autoconsciência, impulsividade e vulnerabilidade.

A dimensão Abertura à mudança é marcada pela imaginação, abertura a novas experiências, originalidade e essência artística. Pessoas que pontuam alto neste fator costumam ser curiosas, originais e não tradicionais. Em contrapartida, baixas pontuações indicam características convencionais e não artísticas (BENET-MARTÍNEZ; JOHN, 1998). Essa dimensão é constituída nesse modelo pelas seguintes facetas: fantasia, estética, sentimentos, ações, ideias e valores.

A Conscienciosidade relaciona-se ao domínio de impulsos e à execução de obrigações e deveres (BENET-MARTINEZ; JOHN, 1998). Sujeitos que pontuam alto neste fator tendem a ser organizados, trabalhadores e autodisciplinados. Pessoas que pontuam baixo são caracterizadas como descuidadas, relaxadas e negligentes (PERVIN; JOHN, 2004). Suas facetas são denominadas de: competência, ordem, senso de dever, direcionamento, autodisciplina e deliberação.

O fator Amabilidade, também chamado de Agradabilidade ou Sociabilidade refere-se à relação de cooperação com o outro. Pessoas que pontuam alto neste fator possuem características de generosidade, bondade e honestidade. Por sua vez, pessoas que pontuam baixo tendem a ser vingativas, manipuladoras e não cooperadoras (PERVIN; JOHN, 2004). O referido fator é composto das seguintes facetas: confiança, fraqueza, altruísmo, aquiescência, modéstia e sensibilidade. Esse modelo tem sido amplamente utilizado em diversas áreas da psicologia e tem se apresentado como estruturalmente consistente.