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Em sua Poética, Aristóteles reconhece no poeta um criador de mitos, manipulando os elementos da narrativa mítica de acordo com seus propósitos dramáticos, sempre observando critérios de verossimilhança e coerência no desenvolvimento das tramas. Nesse sentido, arriscamo-nos a afirmar que O’Neill torna-se um criador de mitos, ao modernizar uma tragédia grega e adicionar elementos, os quais inexistentes no universo grego, conferem um aspecto moderno e, ao mesmo tempo, original à trama. A figura de Electra, secundária na trilogia esquiliana, é elevada à condição de protagonista em Mourning Becomes Electra, conferindo importância à personagem e destacando o seu potencial trágico, um dos objetivos de O’Neill.

O dramaturgo norte-americano manteve a trama central da Oréstia, isto é, a trajetória de vingança dos filhos contra àqueles que mataram o patriarca da família. Adepto às experimentações na forma e conteúdo do fazer dramático, O’Neill tinha por objetivo criar um drama psicológico moderno, tendo como referência a tragédia de Ésquilo. O protagonista não seria Orestes, mas sim, sua irmã, Electra, pois o dramaturgo entendia que esta personagem havia sido desperdiçada pelos tragediógrafos gregos, pelo fato de não terem explorado o potencial trágico que ela poderia oferecer.

Em Ésquilo, não se observam mudanças no cerne da narrativa mítica dos Atridas, a qual constava no imaginário dos gregos, pois Orestes, tanto no mito como na tragédia, vinga a morte do pai, assassinando a mãe e o amante desta, Egisto. Na sua recriação da Oréstia, O’Neill, por conseguinte, também revisita o mito da Casa de Atreu, contudo, realiza mudanças significativas em relação à tragédia esquiliana, bem como ao mito que inspirou os dois autores. A estratégia de elevar Lavínia (Electra) à condição de protagonista da trilogia, engendrando a vingança do pai, o suicídio de Christine (Clitemnestra), bem como finalizando a linhagem dos Mannon, ocorrida de forma distinta da que se observa com os Atridas na

Oréstia, são alguns exemplos que nos autorizam a pensar que O’Neill teria criado um novo

mito, verossímil e coerente à sua época.

Considere-se que uma das funções dos mitos na Antiguidade era tentar explicar a condição humana, o comportamento do homem em sociedade. Tal característica dos mitos permanece válida na modernidade, se considerarmos que Freud, por exemplo, utilizou-se dos mitos para corroborar suas teorias sobre a psiqué humana. Na passagem do século XIX para o

século XX, quando começam a vir a público os primeiros estudos de Freud, o homem é caracterizado em conflito com o seu interior, atormentado pelas forças do inconsciente. Nesse contexto, ao recriar um mito clássico no drama moderno do início do século XX, O’Neill representa sujeitos descentrados, em conflito com suas pulsões e desejos inconscientes, incapazes de manter os seus laços familiares, tornando o mito clássico verossímil e plausível ao público.

Na Oréstia, o conflito caracteriza-se como coletivo, pois a vingança de Orestes também é a vingança dos argivos, visto que Egisto havia usurpado do filho de Agamêmnon, a condição de legítimo rei. Orestes torna-se, portanto, o redentor, aquele que retorna para restabelecer a ordem. Em Mourning Becomes Electra, embora a linhagem dos Mannon seja marcada por atos e crimes de vingança e ódio, os conflitos que os geraram são de ordem privada, subjetiva. No drama de O’Neill, os personagens são atormentados pela herança maldita deixada pelos antepassados, pois os atos pecaminosos dos Mannons são mascarados pela hipocrisia dos seus rostos e dos olhares acusadores dos mortos, os quais, eternizados pelos retratos espalhados pelos cômodos da mansão, parecem condenar cada deslize cometido por seus descendentes.

Buscando aliar tradição à modernidade, O’Neill pretendia lançar mão de elementos modernos que se aproximassem à noção de fatalidade e destino dos gregos. Dessa forma, o dramaturgo parece encontrar tal aproximação nas influências do Puritanismo nos Estados Unidos, bem como em elementos da teoria psicanalítica, em voga no século XX, utilizando-os na composição do ethos trágico dos personagens em Mourning Becomes Electra. A trama apresenta os Mannons em conflito uns com os outros, mas também consigo mesmos, ao não manifestarem suas reais intenções, que acabam sendo expressas por atos falhos, sonhos bucólicos e pelo retorno de desejos recalcados.

Embora tenhamos feito comparações pontuais entre os textos de Ésquilo e O’Neill, não tínhamos a pretensão de fazer um trabalho comparativo entre as duas obras, visto que tal empreitada demandaria esforços que escapariam ao escopo deste trabalho. Nesse sentido, o nosso objetivo foi, portanto, escolher como categoria analítica a ação e o ethos trágico dos personagens da trilogia Mourning Becomes Electra, sobretudo da protagonista Lavínia Mannon, considerando suas transformações ao longo da trama, bem como seus conflitos, os quais se interligam aos dos demais membros da família Mannon. A partir das contribuições de Aristóteles, Hegel e Freud, enredadas às ponderações de estudiosos como Sandra Luna e Raymond Williams, construiu-se um arcabouço teórico norteador de nossa análise. Através da

tradição teatral dos gregos, os quais serviram de base para que Hegel refletisse sobre a pertinência da tragédia na modernidade, destacando a caracterização dos personagens e os conflitos humanos. Em Freud, tem-se o resgate dos mitos clássicos como forma de ilustrar as reflexões do cientista vienense sobre a mente humana. Consideramos que os conflitos humanos engendrados em Mourning Becomes Electra propulsionam a ação dramática ao seu desfecho, pois a trajetória trágica que acomete os Mannon decorre das ações e decisões dos próprios personagens.

A máscara, a qual os Mannons parecem usar, ao mesmo tempo em que os diferencia dos personagens periféricos da trama, estabelece um elo entre os membros da família, pois estão todos condenados a um destino trágico, o qual resulta dos atos de ódio e vingança cometidos pelas gerações anteriores daquela linhagem. Nesse sentido, o passado maldito e imutável insiste em se fazer presente e ameaça àqueles que acreditam ser possível superá-lo.

A transformação de Lavínia de moça reprimida à mulher sensual e sexualizada desvela também o conflito entre o Puritanismo e o Paganismo. Inspirada numa personagem pagã, a Electra grega, Lavínia, uma puritana, é uma personagem em conflito já em sua própria essência. Esse conflito se reflete nas ações e no comportamento desta personagem ao longo da trilogia. O desejo incestuoso pelo pai, a frustração em ser rejeitada por ele e pelo amante da mãe, Adam Brant, fazem com que Lavínia canalize todo o seu sentimento de ódio e seu recalque para a mãe, Christine, expresso nos diálogos conflituosos entre as duas personagens em Homecoming e The Hunted.

A vingativa Lavínia não descansará enquanto não cumprir o seu dever, enquanto responsável por manter a honra e a moral da sua família e de seus antepassados. Contudo, a morte de sua mãe e a viagem às ilhas do Pacífico a libertam do luto e da repressão puritana, desvelando uma mulher sonhadora e romântica. Em seu retorno ao lar, percebe que a tentativa de ser feliz e realizar-se amorosamente acaba frustrada pelos interditos puritanos e pelo sentimento de culpa, intensificado pelo olhar acusador de seus antepassados, os quais estão presentes em retratos expostos pela mansão dos Mannon.

Além da presença sorumbática e perseguidora de seu irmão Orin, Lavínia se vê cercada pelas faces acusadoras dos Mannons mortos, fazendo-a lembrar que o passado não pode ser esquecido e que não há um futuro otimista para uma família marcada por crimes de ódio e vingança. O passado que não quer passar aliado ao orgulho puritano de não admitir os seus erros e desvios de conduta obrigam Lavínia a reconhecer a sua função de “última Mannon”, buscando uma autopunição, ao amargar um longo período de clausura e sofrimento.

O seu último dever será manter-se trancada na mansão e enterrar os segredos de família, renegando a sua liberdade.

Ao rejeitar sua pertença aos Mannon e desejar ser feliz ao lado de Peter, Lavínia afronta os seus antepassados, que a perseguem e a condenam, culminando na ‘morte em vida’ da protagonista, que se enclausura na mansão da família, punindo a si mesma pelos crimes cometidos por sua linhagem, ilustrando o conflito entre Eros e Tânatos, subjacente nos embates entre os personagens ao longo da trilogia. Nesta batalha, Tânatos, representado pela moral puritana, parece vencer a luta pela vida, a vontade de ser feliz e amar, correspondente a Eros, representado por Lavínia na última parte de Mourning Becomes Electra. Ao lado de Ezra, Christine e Orin, que ousaram ansiar pela liberdade e felicidade, caindo no infortúnio pelo fato de buscarem libertar-se da noção de sexualidade como algo pecaminoso, Lavínia permite-se experimentar o amor, afrontando os interditos puritanos dos seus antepassados.

Entretanto, devido à repressão, os Mannons tentam esconder as suas paixões, recalcando-as no inconsciente, mas não conseguem controlá-las, de maneira que estes desejos retornam no sentimento de ódio e nas perversões sexuais, calcadas no desejo incestuoso e reprimido de uns pelos outros, justamente por viverem de aparências, acossados pela imagem que criaram: a de pessoas respeitáveis, ilibadas, mantenedoras dos ideais puritanos e que, portanto, consideravam-se superiores a todos; representando um modelo de família a ser seguido.

Ao retratar uma família moralista, O’Neill critica a hipocrisia da sociedade puritana, parecendo demonstrar que, por mais que tentem reprimir a libido e a sexualidade, no intuito de se manterem puros diante de Deus, os puritanos são seres humanos, e, portanto, não deixam de ter desejos e paixões impulsionados pelos desígnios do inconsciente, os quais podem até ser reprimidos, mas se manifestam em algum momento da vida, por meio de atos de inveja, ódio e perversão sexual. De acordo com Sábato Magaldi (2008):

Mourning Becomes Electra concentra numa família o tema da dualidade

inconciliável do instinto e da noção de pecado. O puritanismo, ou melhor, o extremo limite da moral que fez do sexo uma idéia pecaminosa, esteriliza na tragédia o destino humano. O indivíduo atual não é feliz porque vive acossado pelos fantasmas – os fantasmas erguidos pela ética inspirada no cristianismo. (MAGALDI, 2008, p.257).

São estes fantasmas que perseguem Lavínia, conduzindo-a para o seu destino trágico, condenada à clausura e sendo atormentada pela presença de seus antepassados. Dessa forma, O’Neill finaliza a história dos Mannon de maneira original, alcançando, no nosso entender, o seu objetivo inicial: construir um drama psicológico moderno, conferindo um final trágico compatível com o potencial dramático da Electra grega.

Assim, concluímos esta pesquisa, na qual intentamos apresentar um pouco do universo dramático multifacetado de Eugene O’Neill, selecionando a trilogia Mourning Becomes

Electra como corpus de análise. Considerada pelos estudiosos um dos pontos altos da

dramaturgia do autor, bem como de toda a tradição dramática norte-americana, a trilogia de O’Neill pode ser estudada sob vários prismas. Nesse sentido, não se pretendeu esgotar as possibilidades de análise da obra, visto a sua complexidade e pluralidade temáticas. Considerando o potencial dos temas abordados em nossa análise, acreditamos que esta pesquisa pode ser aprofundada, possivelmente em um projeto de doutoramento.