A Tabela 53 apresenta uma síntese dos resultados obtidos por meio das estatísticas descritivas e teste de hipóteses.
Tabela 53. Síntese dos resultados obtidos a partir das estatísticas descritivas.
Fator Característica esperadoSinal encontradoSinal Significância estatística
Capacidade de utilização da
informação Idade (-) (+) não significante
Histórico familiar Pais donos do próprio negócio (+) (+) 10%
Aversão ao risco (-) (-) não significante
Persistência (+) (+) não significante
Sociabilidade (+) (-) não significante
Busca por novidade (+) (-) não significante
Nível de escolaridade (+) (+) 5%
Outras formas de capacitação (curso, congresso, feira e dia de campo) (+) (+) não significante
Experiência prévia com outras certificações (+) (+) 1%
Experiência profissional diversificada em outras áreas (+) (-) não significante
Atividade profissional de gestão em entidades ligadas à pecuária (+) (-) não significante
Experiência de vida - viagens a negócio (+) (+) 5%
Experiência de vida - residência em outras localidades (+) (+) 5%
Outras fontes de acesso à informação (+) (+/-) não significante
Acesso à informação por meio de parentes (+) (-) 5%
Acesso à informação por meio de consultoria paga (+) (+) 5%
Acesso à informação paga por meio web (+) (+) 1%
Participação em sindicatos rurais (+) (-) 1%
Participação em associações ligadas à pecuária (+) (+) 1%
Participação em grupos não formais (+) (+) 1%
Orientação técnica particular ou fornecedor ou governamental (+) (+) não significante
Orientação técnica ou gestão de frigorífico (+) (+) 1%
Renda (+) (+) 5%
Acesso ao crédito (+) (-) 10%
Valor financiado (+) (+) 1%
Tamanho do rebanho (+) (+) 1%
Número de propriedades rurais (+) (+) 1%
Tamanho da propriedade rural (+) (+) 5%
Localização Proximidade de agroindústria (+) (+) não significante
Mão de obra capacitada (+) (+) 1%
Controle de custo de produção (+) (+) 5%
Acesso à internet na residência ou escritório (+) (+) 5%
Acesso à internet na propriedade rural (+) (+) 1%
Intensificação da produção (+) (+) 1%
Uso de contrato em bolsa de mercadorias e futuro (+) (+) 1%
Uso de contrato a termo com frigoríficos (+) (+) 5%
Acesso a recursos financeiros
Tamanho Orientação técnica
Fontes de acesso à informação
Tecnologia, gestão e intensificação da produção Capacitação por meio da educação formal
Rede de relacionamento
Mecanismos de gestão do risco Características comportamentais
Experiência
Fonte: dados da pesquisa.
Com relação às variáveis que compõem o capital humano, observa-se que o nível de escolaridade mais elevado, a experiência prévia com outras certificações ou práticas de qualidade, a vivência em grandes centros urbanos e a frequência de viagens a negócio para o
exterior são características do indivíduo que estatisticamente diferenciam os pecuaristas certificados dos pecuaristas não certificados. Estes resultados estão alinhados com as abordagens teóricas. A informação desempenha papel essencial tanto no modelo proposto por Baron e Shane (2007) para explicar o processo empreendedor, mais especificamente o processo de reconhecimento da oportunidade, assim como nos modelos que explicam o processo de adoção e difusão de tecnologias e as características dos primeiros adotantes. Os resultados aqui apresentados mostram que o acesso à informação e o conhecimento adquirido pelos indivíduos são fatores que explicam a adoção da certificação SISBOV/TRACES.
A investigação de outras formas de acesso à informação mostrou que os pecuaristas certificados estão afiliados a um maior número de associações relacionadas à pecuária e participam mais ativamente destas associações. Por outro lado, a participação e envolvimento destes pecuaristas nos sindicatos rurais é estatisticamente menor. Este grupo de pecuaristas participa de agrupamentos não formais de pecuaristas, cujo objetivo é a troca de informações, compra de insumos e venda de gado. Este tipo de arranjo confere maior poder de barganha na negociação com fornecedores de insumos pecuários e frigoríficos. O grupo de pecuaristas certificados declarou receber algum tipo de orientação técnica e/ou de gestão de frigoríficos, o que indica uma relação diferenciada com os compradores de gado para o abate. Este grupo beneficia-se ainda do acesso à informação técnica e de mercado paga fornecida por consultorias particulares e institutos de pesquisa por meio de boletins eletrônicos acessados pela internet.
Os modelos teóricos que explicam o processo de difusão e adoção de tecnologia argumentam que além da difusão da informação, existem outros fatores que diferenciam os primeiros adotantes da tecnologia. Um deles refere-se ao acesso a recursos financeiros. A sua análise mostrou que os pecuaristas certificados possuem renda superior. Na maioria, operam com o autofinanciamento da produção rural. Daqueles que tomam crédito, o valor médio financiado pelo grupo dos pecuaristas certificados é estatisticamente superior. Este item é influenciado pelo tamanho da empresa rural, uma vez que um percentual elevado da renda é proveniente da atividade agropecuária. Além disso, a empresa rural maior oferece menor risco para o agente financiador.
O ‗tamanho‘ é outra variável responsável por explicar a adoção de algumas tecnologias na agricultura. Os resultados desta variável indicam que os pecuaristas certificados têm um número maior de propriedades rurais, o que confere maior flexibilidade para lidar com as exigências de documentação e de prazos exigidas pelo SISBOV/TRACES
para entrada de animais para engorda na propriedade certificada. Este grupo trabalha com propriedades maiores em termos de extensão rural e opera com maior escala de produção. Com relação à distribuição de uso da terra, o grupo dos pecuaristas certificados destina um percentual menor da área ao pastejo de animais e uma área proporcionalmente maior ao cultivo. Esta característica está relacionada ao sistema de produção mais intensivo e uma maior diversificação da renda oriunda da atividade rural, o que confere uma maior margem de segurança para lidar com as incertezas de preço.
Com relação ao uso de tecnologia e ferramentas de gestão da produção os resultados das estatísticas descritivas mostram que as propriedades certificadas obtiveram um avanço significativo na adoção de práticas de gestão complementares após a adoção da certificação, a exemplo do controle zootécnico dos animais e da capacitação da mão de obra. A mão de obra capacitada e especializada mostrou-se um fator essencial para diferenciar os dois grupos de análise.
Da mesma forma, o acesso à internet, tanto na propriedade rural como na residência ou escritório, mostrou-se complementar e significativo para explicar a adoção da certificação SISBOV/TRACES. Este fator está associado ao acesso à informação técnica e de mercado tratada no item ‗fontes de informação‘ deste relatório e à adoção de ferramentas de tecnologia da informação, a exemplo do software que permite a transferência dos dados para a BND. A adoção destas ferramentas pode facilitar o processo de rastreabilidade e minimizar tempo nos trâmites burocráticos e não conformidades durante as auditorias. As propriedades rurais certificadas trabalham com sistemas de produção mais intensivos no uso de insumos e são mais especializadas nas fases de recria e engorda.
Verificou-se que os pecuaristas certificados adquirem de outros fornecedores um percentual mais elevado de animais para a fase de terminação, além de transferirem com mais frequência animais de outras unidades de federação para a engorda no estado de São Paulo. Na relação com seus compradores, o valor médio recebido pela arroba do boi gordo no ano de 2010 foi estatisticamente superior no grupo dos pecuaristas certificados. O valor médio do prêmio Europa apurado em 2010 foi de R$3,14/@. Valor este, abaixo da expectativa do prêmio ideal declarado pelos pecuaristas (R$5,81/@). No entanto, apenas 58% dos animais rastreados e certificados receberam algum tipo de ágio na negociação com os frigoríficos exportadores. De forma geral, os pecuaristas com menor escala de produção e menor poder de negociação estão dentre os que não receberam o ágio. Com relação à forma de comercialização do boi gordo, verificou-se o surgimento de novos arranjos organizacionais na
transação entre o pecuarista e o frigorífico. A prática do contrato a termo tem sido estimulada pelos frigoríficos e sua utilização ocorre com maior frequência no grupo dos pecuaristas certificados. Além deste mecanismo, o uso dos contratos futuros negociados em bolsa de mercadorias e futuros também ocorre com maior frequência neste grupo amostral como forma de gerenciar as oscilações negativas de preço de mercado.