• No results found

Hvilke konsekvenser får det for debitor at kjøpet heves

Como pudemos observar no item anterior, Gringoire faz uma peça em que busca ressaltar a pureza no teatro. Contudo, esse gosto não condiz com seu espírito contraditório, « […] esprit essentiellement mixte, indécis et complexe, tenant le tout de tous les extremes, incessamment suspendu entre toute les propensions humaines, et les neutralisant l‟une par l‟autre »53 (NDP, p.96). Como observa o narrador de Notre-Dame de Paris, Gringoire bem

poderia representar o gosto marcado pela oposição do clássico e do romântico, hesitante entre o alto e o baixo.

A primeira vez que Gringoire se depara com a egípcia Esmeralda, um sentimento conflitante se produz em sua pessoa. « Si cette jeune fille était un être humain, ou une fée, ou un ange, c‟est ce que Gringoire, tout philosophe sceptique, tout poète ironique qu‟il était, ne put décider dans le premier moment, tant il fut fasciné par cette éblouissante vision »54 (NDP, p.88). Suas características – filósofo, cético – não permitiam que ele acreditasse em ente mágico e, no entanto, a moça mais lhe parecia um ser irreal. Gringoire percebe em Esmeralda uma máscara de desdém e zombaria, mas que, ao mesmo tempo, considerava graciosa.

A cena seguinte continua a ressaltar sua complexidade, pois, após segui-la pelas ruas de Paris, Gringoire se dá conta de que precisa encontrar um abrigo onde possa passar a noite de 6 de janeiro, e acaba encontrando um lugar apelidado de “Corte dos Milagres”, lugar mal iluminado, onde vozes, risos e sombras se confundem.

Par moments, sur le sol, où tremblait la clarté des feux, mêlée à de grands ombres indéfinies, on pouvait voir passer un chien qui ressemblait à un homme, un homme qui ressemblait à un chien. Les limites des races et des espèces semblaient s‟effacer dans cette cité comme dans un pandémonium. Hommes, femmes, fêtes, âge, sexe, santé, maladie, tout semblait être en commun parmi ce peuple ; tout allait ensemble, mêlé, confondu, superposé ; chacun y participait de tout55 (NDP,p.106).

Elementos opostos, naturezas diversas, tudo se misturava; desde os fogos às sombras até os animais às pessoas. Gringoire descobre que o lugar era na realidade um cabaré e os participantes recebiam bem os desconhecidos que lá chegavam desde que fizessem parte do

53 “[…] espírito essencialmente misto, indeciso e complexo, tendo o todo em todos os extremos, incessavelmente

suspenso entre todas as propensões humanas, e as neutralizando uma a uma”.

54“Se esta jovem era um ser humano, ou uma fada, ou um anjo, é o que Gringoire, sendo filósofo cético, sendo

poeta irônico, não pode decidir em um primeiro momento, tanto ele foi fascinado pela deslumbrante visão”.

55 “Por vezes, sobre o solo, onde tremia a claridade dos fogos, misturada a grandes sombras indefinidas, poder-

se-ia ver passar um cão que parecia um homem, um homem que parecia a um cão. Os limites das raças e das espécies pareciam se apagar nessa cidade como em um pandemônio. Homens, mulheres, festas, idade, sexo, saúde, doença, tudo parecia ser em comum entre o povo; tudo ia junto, misturado, confundido, sobreposto; cada um participava de tudo”.

grupo de ladrões; caso contrário, o visitante não sairia de lá, pois morreria degolado. A única salvação seria que uma mulher recebesse o condenado como marido. Sem esperança de que pudesse sair vivo da Corte dos Milagres, Gringoire se espanta ao ouvir Esmeralda dizer que o arrematava.

Nessa passagem, temos a inversão de valores, onde animalesco e humano se confundem e onde a ordem natural é alterada, culminando com a voz de uma mulher que poderia ser considerada frágil, mas que na realidade tem o poder de salvar a vida de Gringoire.

Salientamos que logo no início do romance ele se encanta pelos pés de Esmeralda, parte do corpo que parece proporcionar belos movimentos de dança à moça. Perdendo-se em seus pensamentos, os pés pareciam-lhe ter o poder de guiá-lo.

[…] Il le retrouvait vite et le renouait sans peine, grâce à la bohémienne, grâce à Djali, qui marchaient toujours devant lui ; deux fines, délicates et charmantes créatures, dont il admirait les petits pieds, les jolies formes, les gracieuses manières, les confondant presque dans sa contemplation ; pour l‟intelligence et la bonne amitié, les croyant toutes deux jeunes files ; pour la légèreté, l‟agilité, la dextérité de la marche, les trouvant chèvres toutes deux56 (NDP,

p.98, grifo nosso).

Contudo, sua consciência não pode distinguir essa mistura de pés, sendo que a confusão acaba reaparecendo em outro momento, acentuando a dificuldade que tem para separar a mulher e o animal, pois « […] en son âme et conscience, le philosophe n‟était pas très sûr d‟etre éperdument amoureux de la bohémienne. Il aimait presque autant la chèvre »57

(NDP, p.278).

Respeitando a castidade de Esmeralda, o poeta não consegue definir seu sentimento pela jovem, que não era tão diferente do que sentia pela cabra Djali, ou do que acreditava que o animal sentia: « […] Ce qui est sûr, c‟est que Djali m‟aime déjà presque autant qu‟elle »58.

O gosto pitoresco de Gringoire acaba sendo confirmado pela própria personagem. « J‟ai d‟abord aimé des femmes, puis des bêtes. Maintenant j‟aime des pierres […] »59 (NDP,

p.405). No entanto, sua participação torna-se pouco significante na evolução narrativa à medida que duas outras personagens disputam a atenção da egípcia.

56 “[…] ele o encontrava rápido e o reatava facilmente, graças à boêmia, graças a Djali, que caminhava sempre

diante dele; duas finas, delicadas e encantadoras criaturas, das quais ele admirava os pequenos pés, as belas formas, as graciosas maneiras, confundindo-as quase em sua contemplação; pela inteligência e boa amizade, acreditando ambas jovens; pela leveza, agilidade, destreza do andar, acreditando ambas cabras”.

57“[…] em sua alma e consciência, o filósofo não estava muito certo de estar perdidamente apaixonado pela

boemia. Ele amava quase igualmente a cabra”.

58 “[…] O que é certo, é que Djali já me ama quase tanto quanto ela”.

Uma delas, Claude Frollo, fora destinada desde criança à vida eclesiástica. Sério quanto aos estudos, aprendia tudo rapidamente; no entanto, a peste de 1466 mata seus pais e muda seu destino.

Cette catastrophe fut une crise dans l‟existence de Claude. Orphelin, aîné, chef de famille à dix-neuf ans, il se sentit rudement rappelé des rêveries de l‟école aux réalités de ce monde. Alors, ému de pitié, il se prit de passion et de dévouement pour cet enfant, son frère ; chose étrange et douce qu‟une affection humaine à lui qui n‟avait encore aimé que des livres60 (NDP, p.168).

O contato com o irmão o faz perceber que havia outras coisas na vida além dos estudos, « […] la vie sans tendresse et sans amour n‟était qu‟un rouage sec, criard et déchirant »61 (NDP, p.168). No entanto, a afeição ao irmão lhe bastava nesta descoberta do “primeiro amor”.

Quanto a Jehan Frollo, irmão de Claude, « C‟était un vrai diable, fort désordonné, ce qui faisait froncer le sourcil à dom Claude, mais fort drôle et fort subtil, ce qui faisait sourire le grand frère »62 (NDP, p.179). O jovem acostumou-se a receber a ajuda financeira de Claude e, ao invés de dedicar-se aos estudos, mostrava preferência em gastar o dinheiro com farras. Em uma cena em que percebe sua carteira vazia, vemos o quanto é esperto e oportunista, pois, mesmo não tendo bons conhecimentos de grego ou latim, pergunta se Claude quer que ele explique a palavra gravada em grego no muro da catedral – há pouco observara o irmão escrever a palavra “fatalidade”. Com sua voz doce e hipócrita, consegue desestabilizar Claude para chegar ao ponto que queria, pedir-lhe dinheiro.

Voltando ao primogênito, no decorrer do romance, percebemos que sua atração por Esmeralda aumenta. Nos momentos em que a contempla do alto da catedral, tem-se a impressão de que duas forças lutam dentro de si:

Il eût été difficile de dire de quelle nature était ce regard, et d‟où venait la flamme qui en jaillissait. C‟était un regard fixe, et pourtant plein de trouble et de tumulte. Et à l‟immobilité profonde de tout son corps, à peine agité par intervalles d‟un frisson machinal, comme un arbre au vent […] à voir le sourire pétrifié qui contractait son visage, on eût dit qu‟il n‟y avait plus dans Claude Frollo que les yeux de vivant »63 (NDP, p.273).

60“Esta catástrofe foi uma crise na existência de Claude. Órfão, primogênito, chefe de família aos dezenove

anos, ele se sentiu rudemente chamado dos devaneios da escola às realidades deste mundo. Então, comovido de piedade, ele se encheu de paixão e de dedicação para com esta criança, seu irmão; coisa estranha e doce uma afeição humana a ele que até então tinha amado apenas os livros”.

61“[…] a vida sem ternura e sem amor era apenas uma engrenagem seca, desagradável e dilacerante”.

62 “Era um verdadeiro diabo, muito desorganizado, que fazia dom Claude franzir a sobrancelha, mas muito

engraçado e muito sutil, o que fazia o irmão mais velho sorrir”.

63 “Teria sido difícil dizer de que natureza era aquele olhar, e de onde vinha a flama que dele jorrava. Era um

olhar fixo, e, entretanto, cheio de tremor e de tumulto. E a imobilidade profunda de todo seu corpo. Agitado apenas por intervalos de arrepio maquinal, como uma árvore ao vento […] a ver o sorriso petrificado que contraia seu rosto, poder-se-ia dizer que, em Claude Frollo, apenas os olhos eram vivos.

A simples ideia de perdê-la a outro homem o deixa enciumado. Sua falta de destreza diante dos sentimentos afasta a moça, que sente medo da forma como ele a trata.

Contrastando com essa personagem, temos Phoebus, por quem Esmeralda se apaixona inocentemente, causa de sua perdição e morte. O galante rapaz era um mero conquistador que usava o mesmo discurso para todas as moças, de forma que não tinha dificuldades em fazer declarações: « - Si je t‟aime, ange de ma vie! s‟écria le capitaine en s‟agenouillant à demi. Mon corps, mon sang, mon âme, tout est à toi, tout est pour toi. Je t‟aime, et n‟ai jamais aimé que toi »64 (NDP, p.314). Contudo, toda eloquência desaparece no

momento de dizer o nome de sua “amada”, de tal forma que chega a ser bizarra essa sua dificuldade: « - Écoutez, ma chère Similar… Esmenarda… […] »65 (NDP, p.314).

Deslumbrada diante de Phoebus, Esmeralda não percebe seu discurso vazio e ainda se culpa por ter um nome complicado.

Outra personagem que chama a atenção por sua descrição é Gudule, que vivia como reclusa. « Ce n‟était ni une femme, ni un homme, ni un être vivant, ni une forme définie ; c‟était une figure ; une sorte de vision sur laquelle s‟entrecoupaient le réel et le fantastique, comme l‟ombre et le jour »66 (NDP, p.242). Enigmática, ela perguntava se ninguém havia

visto uma jovem de quinze anos e dizia para tomarem cuidado, pois as egípcias passariam e roubariam as crianças. Seu papel ganha extrema relevância no decorrer do romance.

Todas essas personagens parecem, portanto, possuir características complexas que chegam a se opor, mas o grande destaque se concentra em Quasimodo.