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Finalizada a eleição do papa dos loucos, apresentado no início do romance, todos estavam satisfeitos com a escolha, pois o candidato era realmente merecedor do título.

O êxtase atinge seu ápice com a constatação de que a máscara não podia ser retirada, pois a horrenda careta era real e natural. « L‟acclamation fut unânime. On se précipita vers la chapelle. On en fit sortir en triomphe le bienheureux pape des fous. Mais c‟est alors que la

64“- Sim, eu te amo, anjo da minha vida! Exclamou o capitão ajoelhando-se. Meu corpo, meu sangue, minha

alma, tudo é para você, tudo é por você. Eu te amo, e eu sempre amei apenas você”.

65“- Ouça, minha cara Similar… Esmenarda… […]”.

66 “Não era nem uma mulher, nem um homem, nem um ser vivo, nem uma forma definida; era uma figura; uma

surprise et l‟admiration furent à leur comble. La grimace était son visage »67 (NDP, p.75).

Esperava-se por algo horrendo, mas ninguém imaginava que a camuflagem fosse verdadeira. Todo o corpo do vencedor do papa dos loucos colaborava para torná-lo inteiramente caricato.

Ou plutôt toute sa personne était une grimace. Une grosse tête hérissé de cheveux roux ; entre les deux épaules une bosse énorme dont le contre-coup se faisait sentir par devant ; un système de cuisses et de jambes si étrangement fouvoyées qu‟elles ne pouvaient se toucher que par les genoux, et, vues de face, ressemblaient à deux croissants de faucilles qui se rejoignent par la poignée ; de larges pieds, des mains monstrueuses […]68 (NDP,p.75-76).

Há um cuidado especial em descrever a aparência desarmoniosa de Quasimodo, o sineiro de Notre-Dame que ficara surdo e que também era corcunda e coxo. Todos esses qualificativos servirão para acentuar um efeito contrário que a personagem deixava transparecer, pois acrescenta-se que […] avec toute cette difformité, je ne sais quelle allure redoutable de viguer, d‟agilité et de courage ; étrange exception à la règle éternelle qui veut que la force, comme la beauté, résulte de l‟harmonie. […]69 (NDP, p.76).

Nessa passagem, percebe-se uma reflexão sobre o conceito da beleza e o que se acredita como resultado da harmonia. Um corpo tão marcado pelo desgracioso poderia mesmo assim abrigar o vigor, a agilidade e a coragem? A aberração sintetizada no rei eleito não impedia de encontrar nele traços positivos. Tal constatação era uma disparidade com o que se acreditava a respeito da deformidade.

Deixado, ainda pequeno – segundo as pessoas que o encontraram, o “monstrinho”, teria quatro anos –, em um lugar destinado às crianças abandonadas, foi criado por Claude Frollo, a quem lhe dedicava inteira veneração. Destaca-se ainda a importância da catedral de Notre-Dame para Quasimodo, que passou toda sua infância e juventude encerrado em sua área.

Para Quasimodo, a igreja tornou-se sua casa e seu refúgio em um sentido bem estrito do termo, pois representava para ele todo o universo. Percebe-se ainda que, ao mesmo tempo em que o local se alarga – « Notre-Dame avait été successivement pour lui, selon qu‟il

67 “A aclamação foi unânime. As pessoas se precipitaram em direção da capela. Fizeram sair em triunfo o

felizardo papa dos loucos. Mas é então que a surpresa e a admiração foram ao ápice. A máscara era sua face”.

68“Ou antes, toda a sua pessoa era uma máscara. Uma grande cabeça eriçada de cabelos ruivos; entre os dois

ombros uma corcunda enorme, da qual a consequência se fazia sentir pela frente; um sistema de coxas e de pernas tão estranhamente tortas que elas podiam se tocar apenas pelos joelhos, e, vistas de frente, pareciam a duas foices que se uniam pelo cabo; largos pés, mãos monstruosas […]”.

69“[…] com toda esta deformidade, eu não sei qual aparência temível de vigor, de agilidade e de coragem;

grandissait et se développait, l‟ œuf, le nid, la maison, la patrie, l‟univers »70 (NDP, p.171),

ele também encerra seu habitante, transformando-o em parte integrante, assim como uma carapaça.

On pourrait presque dire qu‟il en avait pris la forme, comme le colimaçon prend la forme de sa coquille. C‟était sa demeure, son trou, son enveloppe […] il y adhérait en quelque sorte comme la tortue à son écaille. La rugueuse cathédrale était sa carapace71 (NDP, p.172).

Sobre essa questão, destacamos o minucioso estudo de Gaston Bachelard, em A

Poética do Espaço, de 1957, no qual ele propõe um estudo fenomenológico dos valores de

intimidade do espaço interior. No capítulo IV, intitulado “O ninho”, encontramos a atenção do crítico que se dirige à Victor Hugo e sua capacidade de associar as imagens e os seres à função de habitar. Seguindo o filósofo, assim como uma concha, o ninho assume sua forma pelo interior; é a casa construída pelo corpo e para o corpo.

Quasimodo e o espaço por ele habitado tornam-se uma única pessoa. Poderíamos ainda arriscar e acrescentar que, tal como nos muros da catedral destacam-se os traços que formam a palavra “fatalidade”, igualmente a vida da personagem estava designada àquela sorte.

Acrescente-se que sua aberração o deformava ainda mais, visto que dela resultavam dois efeitos: primeiro, ele não tinha percepção imediata devido a seu olhar turvo; segundo, ela o tornava mau.

Sobre essa segunda consequência, uma lógica nos é apresentada. « Il était méchant en effet, parce qu‟il était sauvage ; il était sauvage parce qu‟il était laid »72 (NDP, p.174). Tal

raciocínio ainda é melhor explicado pelo narrador.

D‟ailleurs, Il faut lui rendre cette justice, la méchanceté n‟était peut-être pas innée en lui. Dès ses premiers pas parmi dles hommes, il s‟était senti, puis il s‟était vu conpué, flétri, repoussé. La parole humaine pour lui, c‟était toujours une raillerie ou une malédiction. En grandissant il n‟avait trouvé que la haine autour de lui. Il l‟avait prise. Il avait gagné la méchanceté générale. Il avait ramassé l‟arme dont on l‟avait blessé73 (NDP, p.174).

70“Notre-Dame tinha sido sucessivamente para ele, ao tempo que crescia e se desenvolvia, o ovo, o ninho, a

casa, a pátria, o universo”.

71 “Poderíamos quase dizer que ele tinha ganhado sua forma, como o caracol ganha a forma de concha. Era sua

morada, seu buraco, seu invólucro […] ele aderia a ela como a tartaruga a seu casco. A rugosa catedral era sua carapaça”.

72 “Ele era mau, com efeito, porque ele era selvagem; ele era selvagem porque ele era feio”.

73“Aliás, é preciso lhe ser justo, a maldade não era talvez inata nele. Desde seus primeiros passos entre os

homens, ele se sentira e depois se vira ralhado, estigmatizado, rejeitado. A palavra humana, para ele, era sempre uma zombaria ou uma maldição. Ao crescer ele encontrou apenas o ódio ao seu redor. Ele o tinha tomado. Ele tinha ganhado a maldade geral. Ele tinha tomado a arma com a qual o tinham machucado”.

No entanto, embora deixe bem claro que o fato de ser mau não seria diretamente consequência de sua deformidade, e sim de uma autodefesa face à reação negativa das pessoas que o viam e o repulsavam ou provocavam, Quasimodo estava condenado àquela sorte.