5.1 Hvem bør vi gi til
5.1.8 Hvem bør vi gi til? En oppsummering
O projeto, tal e como tinham insistido anteriormente figuras de autoridade pública, consistia na construção de um gasoduto com uma extensão de 92 milhas que atravessaria a ilha de leste a oeste pelo sul, subiria por toda a zona montanhosa até o norte e logo iria dirigir-se para a central principal de energia elétrica da capital. Iriam ser impactados um total de 13 municípios. Por outro lado, obviou-se um mandato constitucional acolhido na Lei sobre Política Pública Ambiental de 2004. O mesmo dispõe que prévio à adopção de qualquer medida de caráter legislativa, os proponentes devem preparar uma Declaração de Impacto Ambiental (DIA). Isto, em base ao predisposto na ordem de emergência assinada dias antes.
Desde o início do verão de 2010, alguma coisa andava mal. Casa Pueblo tinha recebido uma visita inesperada do Secretário do DRNA. Tinham se passado dois anos exatos desde que a agência governamental não cumpria a sua parte do contrato de manejo conjunto para o Bosque do Pueblo. Os pagamentos assignados para a custosa manutenção e desenvolvimento da reserva simplesmente deixaram de chegar. Tinham assumido as responsabilidades de forma completa, incluindo as partes do contrato que diziam respeito às autoridades.
Isto para demonstrar a capacidade que podem ter as comunidades em autogestão. Mas o funcionário não foi para atender este assunto. Solicitaram uma reunião para fazer una solicitude não usual.
Me dijeron, vengo a pedirle ayuda porque hay un tubo. No me dijo que era el gasoducto. Nos dijeron, hay un tubo que pasa por el Bosque del Pueblo. Son tres cuerdas que vamos a impactar y yo: por aquí no pasa nada. Me contesta que son solo 3 cuerdas y que estaban dispuestos a añadirnos 25. Insistió en que las repondrían “3 x 25”. (MASSOL- GONZÁLEZ, 2012).
Na reunião, não houve acordos nem endossos. Porém, os funcionários acederam a deixar os planos e o material que tinham sobre o projeto para que fosse analisado. Em uma segunda visita, desta vez com consultor principal de Via Verde, lhes foi insinuado aos líderes, que o problema do dinheiro estava resolvido e que o “cheque” estava no Departamento da Fazenda, em vias a ser enviado à CP. Os membros de todos os núcleos
da organização já tinham tomado uma decisão e a sua resposta foi: “Nem por 100. Nas lutas não se pode perder nada do conquistado”.
Sabiam que se avizinhava uma batalha incerta e a conferência de imprensa do governador no dia 9 de agosto de 2010, acabou por confirmar-lhes todos os seus medos. Se a mineração a céu aberto significava uma ameaça grave para todo o território porto- riquenho; este conflito no mínimo, parecia reviver feridas do passado.
Em similitude com outros conflitos considerados “socioambientais”, uma agência publicitária desenhou e pôs em operação uma custosa campanha mediática que “educava” sobre os benefícios diretos que seriam obtidos. O gasoduto, “melhoraria substancialmente a qualidade de vida de todos os porto-riquenhos e lhes devolveria a esperança de progresso a nosso povo”. O seu custo seria de $350 milhões, mas o que importava eram os “milhões que permaneceriam no bolso dos consumidores”. Não havia outro mecanismo fatível para oferecer alívio imediato aos cidadãos60.
“Parecerá una pista de aterrizaje de aviones, será algo bien moderno y elegante”, se preocupaba por insistir el gobernador61.
As reações por parte da cidadania não se fizeram esperar. Naquele momento, uma greve universitária acabava de arroupar o país. O sistema universitário público não esteve isento da emergência fiscal e praticamente todos os setores da instituição voltaram-se para a rua em manifestações massivas. Por primeira vez na história, uma assembleia geral de professores aprovou um voto de greve e uma moção que pedia a destituição do presidente da universidade e da presidenta da Junta de Síndicos, o corpo da reitoria que dirige os assuntos de todos os recintos. A isto se soma o fato de que em assembleias gerais, os estudantes e professores dos 11 recintos, também aprovaram os votos para a greve que durou mais de dois meses. A situação a nível nacional chegou a tal ponto, que o Ex-Secretário do Departamento do Trabalho, Román Velasco, expos que era evidente que a greve da UPR tinha se tornado em uma greve nacional em contra da administração pública do governador Fortuño62.
60 END, Declaraciones de Miguel Cordero (Director de la AEE) a la prensa. 9/08/10 61 ODS, Publicación 11/08/10, p.10
A tensão geral era evidente. As comunidades que já tinham sido aterrorizadas durante dois anos com o antigo Gasoduto do Sul agora reviviam todos os seus pesadelos. Organizações ambientais de todo o país puseram o grito no céu. Como passariam um tubo por toda a zona do karso? Por outro lado, o conflito começou desde muito cedo a criar amplas divisões dentro do PNP. Prefeitos afiliados ao partido que administrava os municípios por onde passava “a rota” não tinham sido levados em conta, obviando a maior estrutura de participação política em Porto Rico. A maioria das comunidades e dos povos ameaçados apresentavam as taxas mais altas de pobreza. Era evidente que o governo ia perdendo popularidade e já se discutia o “custo político” que isto pudera trazer ao partido nas próximas eleições que se fariam no ano 201263.
Montanha dentro em CP o panorama era muito diferente. No ano 2007 tinha sido consolidada uma estrutura legal El Fidecomiso de Casa Pueblo (O Fideicomisso da Casa
Pueblo), que protege todos os seus bens, propriedades e projetos em perpetuidade. A
medida surge como forma de assegurar transições de liderança no futuro e como recurso para proteger as áreas de alto valor ecológico através de iniciativas de autogestão e não governamentais. Os principais líderes tinham uma preocupação genuína pelo futuro em longo prazo dos trabalhos por eles realizados com tanto esforço. As novas alianças e os colaboradores em distintas redes lhes permitiu criar um grupo de supervisão técnica e científica dos trabalhos no bosque e núcleos para o manejo da nova e consolidada reserva Bosque Modelo das Terras Adjuntas (BMTA).
O manejo da “Casa”, onde funcionam os percursos históricos, os serviços à cidadania, a biblioteca e o centro de investigação, a venda de artesanato e café, o mariposario, a estação de rádio e o cultivo de hidropônicos, a recepção de milhares de pessoas mensalmente, entre outras coisas, também continuavam em pé. Os mais velhos sempre faziam lembrar os jovens que a maioria dos grupos que lutam por batalhas específicas, muitas vezes desaparecia uma vez que o problema principal era resolvido.
Para eles, a evolução institucional era constantemente necessária caso a organização desejasse continuar contribuindo com a comunidade e instigando mudanças dentro da sociedade. O fato de que tivessem conseguido manter-se durante tanto tempo
63 END, Creen que alcaldes huyen del ‘Tsunami de 2012’; Sin fronteras el malestar.
era evidência que a mudança interna para a transformação social pode funcionar. Os novos planos consistiam em incrementar o crescimento de forma horizontal nos seus projetos.
Com novas estruturas de trabalho, o BMTA permitia, sendo que hoje em dia fomenta, que os cidadãos e as suas famílias possam converter-se em gestores econômicos locais independentes com os recursos da própria reserva. Tinham a tarefa de reunir os pequenos agricultores, pequenos comerciantes, jovens e outros segmentos da população para organizar um plano, uma forma de utilizar os recursos do bosque, a energia renovável e o modelo participativo para encontrar soluções econômicas para o povo. Era a tarefa novel de definir uma agenda desenhada de forma local e autônoma em conjunto com outros setores64.
Uma dolorosa tragédia familiar semeou uma pequena esperança que pronto iria florescer e ajudaria a encontrar os caminhos para chegar aos seus objetivos. Com a morte inesperada de Ariel Massol Deyá, o mais novo dos quatro filhos do casal Massol-Deyá, surgiram mudanças, também inesperadas. O jovem agrônomo, trabalhava diariamente na casa junto aos seus pais e era visto como “o que ia continuar o trabalho”. Todos os outros irmãos colaboravam em projetos importantes desde os seus lugares respectivos. De adolescentes participaram de cheio não somente na campanha contra a mineração, senão, na campanha para deter as simulações de guerra da Marinha em Vieques, na campanha em contra do recrutamento militar nas escolas, múltiplas atividades de reflorestação e educativas. Enquanto que um documentava as atividades, outro ajudava a desenhar a arte gráfica. Mais tarde, os dois mais novos se decidiram pelas ciências ambientais, um deles agronomia e o outro, microbiologia. De alguma forma u outra e, apesar das responsabilidades que cada um dos irmãos tinha com os seus empregos e vidas pessoais, nunca deixaram a participação comunitária65.
“Quando chegou o do gasoduto”, a vida dos dois irmãos que lhe seguem a Ariel, tomou um rumo completamente diferente. Cury, o mais velho dos dois, foi professor de
64 MASSOL et.al., (2008), p.2-‐15.
65 Conversación-‐entrevista con Axel (Cury) Massol Deyá mientras viajábamos por
todo Adjuntas repartiendo las invitaciones a los comerciante para participar del Parrandón de Navidad, actividad de celebración por la victoria en el conflicto del Gasoducto. 04/12/12.
arte, durante mais de duas décadas na Escola Roberto Clemente no estado de Chicago. Ali, no famoso bairro boricua de Humboldt Park tinha os seus filhos, mas logo percebeu alguma coisa. Embora sempre tinha viajado com regularidade a visitar os seus pais e participar de algumas atividades, as visitas mais recentes fizeram-lhe ver que agora faltava alguém que o ajudasse, em especial à sua mãe, Tinti. Ela é a gestora e coordenadora de tudo relacionado ao funcionamento da casa, as visitas e das contas tal como vimos no segundo capítulo. Tinham passado uns 10 anos, quando se retirou também do magistério, tinha decidido que organizar a estrutura econômica do projeto era fundamental. Por isso, estava ali 7 dias por semana, preenchendo livros e registros, documentando e quadrando tudo o que fosse necessário. Estes arquivos históricos e financeiros são feitos “a mão”, os que estão visíveis na biblioteca ocupam o espaço de um estante completo. Depois de meses de iniciado o conflito, Cury decide tornar a viver em Porto Rico e passa a inserir-se na complexa e longa lista de tarefas que têm com a casa e o bosque. Percebeu que tinha muitos trabalhos e projetos nos que poderia estar. O verão de 2011, trouxe os seus dois filhos; Axel, o menino que sobe a Olímpia toda em 20 minutos se o deixam e Alixa, uma menina que vem a Porto Rico para poder ajudar os seus avós e parar o gasoduto.
Houve certo consenso entre a comunidade. Continuavam chegando todos os dias à porta voluntários, colaboradores, cidadãos procurando informações e serviços, grupos comunitários formando alianças, difusão de projetos, causas e atividades locais através da rádio e centenas de grupos escolares. Havia uma equipe de trabalho formada, as lideranças do projeto do ICBC e a estação de rádio começavam a melhorar a sua programação e a ganhar a audiência local, a gestão do bosque crescia e entre todos eles se ajudavam. O núcleo de pessoas que trabalham diariamente na organização pode ter de 15 a 20 pessoas. Todos de Adjuntas ou da região do BMTA (nem sequer estamos contando os colaboradores, visitantes ou voluntários), eles têm diferentes profissões, ideologias políticas e as suas próprias redes, mas sobrevivem de forma digna com o trabalho que ali fazem. Uma das claves estava no modelo da autogestão, tudo é voluntário e cada um faz o que pode e como pode. Sobrevivem os que sabem manter compromissos e conhecer a comunidade, isto os manterá preparados para defendê-la.
O panorama pode, em um inicio parecer estranho. A imagem de uma ilha caribenha, como tantas outras da região, um paraíso turístico e fiscal, dominado por um sistema de corrupção, colonialismo, alta dependência e exploração (portanto, contaminação) dos seus recursos, não pareceria ser o lar das pessoas e tudo o que se passa na CP. Para eles, é um assunto prioritário a educação das próximas gerações. A forma em que se projeta a situação econômica para o futuro, especialmente para as classes mais excluídas do sistema financeiro-político, não é nada alentador. Se a isto lhe for acrescentado, a falta de recursos vitais que encontramos no bosque como água, energia, medicina e alimento, se torna evidente qual é a verdadeira crise. Por tudo isso, e provavelmente muitíssimas coisas mais, estavam dispostos a defender com as suas vidas as terras e o que tanto tempo tinha tomado em ser construído. Seguem as minhas notas de campo elaboradas durante a estadia na CP e que mostram qual foi a resposta da comunidade.