10. OPPSUMMERING, KONKLUSJON OG AVSLUTNING
10.3 Hva vi har lært underveis – reflection on action
Em geral, as experiências promovidas pelo uso de psicoativos são prazerosas e paradoxais pelos mais diversos motivos, segundo nos mostra as observações de Carneiro [ 2005] . Uma primeira aproximação à realidade dos sonhos, assim, surge com a idéia de que os estados alterados promovidos pelas substâncias psicoativas anelam-se ao campo das manifestações oníricas, através de uma das características que os sonhos apresentam, de que podem desagregar, enrijecer e até suprimir os laços do tecido simbólico ou da organização lógica típica do estado de vigília. Podem tornar relativas, desse modo, as construções verbais e correlações imagéticas que sustentam os diferentes tipos de raciocínio [ numérico, espacial, verbal, temporal] , promovendo certa aleatoriedade nas associações entre estímulo, percepção e suas interpretações. Isso se traduziria por uma alteração das disposições gerais do psiquismo e do corpo sem que esteja necessariamente condicionada ao estado de sono. Por fazer do sentido uma contingência, realiza função compensatória aos sofrimentos e perdas derivados dos esforços de manutenção das responsabilidades sociais e dos estados emocionais cotidianos.
Algumas substâncias [psicolépticos 26] apresentam a capacidade de induzir ou reproduzir o estado de sono, interferindo quimicamente nas conexões sinápticas, inibindo a atividade do sistema nervoso central [ SNC] e levando facilmente à experiência de embriaguez oniróide. Outras substâncias [psicoanalépticos] , pelo fato de excitarem o SNC, facilitam as atividades intelectuais ou cognitivas, podendo gerar ao longo do tempo um excedente fantástico similar às produções delirantes encontradas nos quadros de paranóia. Há psicoativos poderosos [psicodislépticos] que alteram de tal modo disposições psíquicas e atividade do SNC que todas as relações entre estímulos, percepção, interpretação da vivência e dos acontecimentos, estruturas de identidade, tornam-se obscuros e aleatórios. Produzem estados em que podem ocorrer fenômenos alucinatórios, juízos delirantes e composições aleatórias, muitas vezes similares às manifestações oníricas e quadros psicóticos. Sem estabelecer uma classificação dos diferentes tipos de substâncias existentes e seus efeitos, o que não constitui objeto dessa pesquisa, considera-se também que alguns produtos farmacológicos produzidos em laboratório hoje em dia exercem indubitável atração ao consumo. Pelo que representam no sentido de suprimir determinadas carências orgânicas e afetivas, certos medicamentos com alto poder de sedução e resolução vendidos nas drogarias induzem de certa forma estados psicoativos.
Além dos efeitos característicos das substâncias sobre o sistema percepção- consciência, podemos também considerar as vinculações que elas mantêm junto ao universo afetivo dos usuários, tornando-se por esse motivo objeto privilegiado de consumo e hábito para as pessoas. As respostas afetivas daqueles que utilizam um psicoativo qualquer são pouco previsíveis, segundo a qualidade do produto consumido e uma série de outros fatores determinantes relacionados à disposição psíquica. Podem precipitar estímulos heterogêneos, por razões emocionais, tendências anti-sociais, identidades de grupo, incluindo desde uma curiosidade pela experimentação até quadros de habituação, tolerância e dependência química. Entre os profissionais que trabalham em institutos de psiquiatria, considera-se muitas vezes que não é possível realizar um diagnóstico clínico de personalidade ou do quadro nosológico enquanto o indivíduo internado está sob efeito da substância. Primeiramente realiza-se o processo de desintoxicação para depois elaborar as hipóteses diagnósticas, através de entrevistas e outros procedimentos. I sso demonstra em que ponto o uso de determinados psicoativos pode alterar, acossar, ou até mesmo suprimir, a estrutura ou organização simbólica, a afetividade e a capacidade de verbalização. Demonstra também como podem interferir na concepção particular de
26 Os termos psicolépticos, psicoanalépticos e psicodislépticos designam a classificação farmacológica das
substâncias quanto às ações específicas sobre o sistema nervoso central [SNC]. Correspondem, respectivamente, aos efeitos depressores, estimulantes e perturbadores do SNC.
relacionamento humano, referências de identidade e reações passionais, predispondo a manifestações sentimentais, amorosas e agressivas, e formas diversas de isolamento. Essas seriam outras vinculações possíveis entre psicoativos e trabalho de deformação do sonho, na medida em que podem encobrir idéias e respostas latentes ou manifestá-las de modo inapropriado, a serviço do recalcamento.
Sabemos que o uso de substâncias que alteram a consciência encontra rejeição ou resistência por parte de indivíduos e grupos. O fato de que interfere nas disposições emocionais e orgânicas provoca desconfiança e medo em grande número de pessoas, fomentando a criação de dispositivos de controle no âmbito das sociedades. Algumas substâncias são proscritas, e seu consumo está subordinado a severas penalidades nos códigos civis. São rapidamente associadas à criminalidade, à violência, à degradação física e moral, e também à insanidade mental. Por outro lado, determinadas substâncias psicoativas ganharam status social ao longo de séculos, são fabricadas e consumidas livremente, sujeitas apenas às regras de mercado internacionais e às receitas tributárias das nações. Ainda que se reconheça no seu consumo os mesmos riscos das primeiras, são largamente utilizadas, encontram apoio nas estruturas governamentais e legislativas, e garantem franca distribuição e difusão através de publicidade nos meios de comunicação. Apesar dos riscos relacionados à saúde, o consumo de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, tornou-se historicamente um hábito polêmico e desejado nas mais diversas sociedades. Respondendo a um apelo diretamente vinculado ao universo da fantasia e do gozo sem sentido, os psicoativos garantem satisfação compensatória aos moldes da gratificação alucinatória manifesta através dos sonhos. Justamente por proporcionar prazer ao usuário e por se imiscuir nos vários discursos condizentes com as transformações culturais dos últimos tempos, qualificamos a farmacotimia social como um dos sintomas típicos da modernidade.