A Psicologia Transpessoal entende a pessoa humana como sendo fruto de uma trajetória, um cruzamento de diversos fatores, segundo Stanislav Grof:
Se você me perguntar como eu definiria o ser humano, (..) diria que somos objetos newtonianos, feitos de células, tecidos, órgãos etc. Mas também somos campos de consciência sem limites, e esses são dois aspectos complementares. 79
Ao primeiro estado do ser, Grof chama de estado hilotrópico (que tende à parte), associado à consciência habitual, cotidiana. Nas ciências psicológicas, seria associado ao ego tal como descrito pela Psicanálise; na Física, equivalente à física newtoniana; em geometria, às três dimensões euclidianas; na filosofia, ao cogito caretesiano. Ao segundo estado, de consciência sem limites, chama estado
holotrópico (que tende ao todo), associado à consciência expandida, à
sincronicidade tal como descrita por Jung, ao êxtase místico; associado ao Self, tal como descrito pela Psicologia Analítica ou pela Psicossíntese de Roberto Assaglioli, ou ainda pela Psicologia do Espectro de Wilber; em Física, equivalente à física quântica; em geometria, às multi-dimensões dos buracos negros, aos universos paralelos; em filosofia, à Filosofia Perene tal como descrita por Aldous Huxley.
Em definição mais técnica, Grof usa os termos“pequena personalidade” e “personalidade profunda”:
Por milhares de anos, místicos, filósofos e poetas descreveram os seres humanos como possuidores de dois componentes essenciais: existimos simultaneamente como indivíduos limitados, que se identificam intensamente com nossos corpos, nossas vidas e o mundo material, e como entidades espirituais que são ilimitadas, universais e eternas. Vivemos com um paradoxo: somos ao mesmo tempo humanos e divinos, limitados e eternos, parte e todo. Somos tanto a pequena personalidade quanto a Personalidade mais profunda. 80
A pequena personalidade é a identidade pessoal centrada no ego, definido como
um senso de “si mesmo” reconhecido como “eu”; é limitada no tempo e no espaço e compreende o mundo que podemos ver, degustar, tocar, ouvir e cheirar (como sendo) o mundo real. 81
Já a Personalidade mais profunda está conectada com o Criador, o Poder Superior, o Mistério da Vida (ou, nos termos de Eliade e Vernant) com as Potências. Essa força, parte de cada um de nós, é também acessível a cada um de nós, não necessitando de intermediários:
Não se trata de olhar para fora de nós, para alguma entidade vaga e distante que seja crítica e severa. A espiritualidade tem a ver com a nossa íntima e particular conexão à essência ilimitadae constante que reside dentro de nós. 82
No mesmo sentido de Grof, Ken Wilber utiliza os termos pequeno self
(identificado ao ego) e grande self (identificado ao Espírito). Vivemos as duas coisas: o pequeno self é o que pega o carro, enfrenta o “rush” e faz as compras. O grande self é aquele que está consciente de que há algo mais no Universo além da matéria, que somos mais do que a nossa percepção cotidiana nos diz. O homem, para Grof como para Wilber, é o resultado desse cruzamento entre esses dois planos, é o homem hilo-hotrópico:
A pessoa humana é um extenso campo de consciência de proporções infinitas que manifesta-se debaixo de um estado pessoal, individual e
80 Christina GROF, Sede de plenitude, p. 34. 81 Ibid., p. 63.
material (estado hilotrópico) e de um estado transpessoal, cósmico e espiritual (estado holotrópico).83
Essa totalidade é corpo físico, razão, emoção e espiritualidade: cruzamento e travessia na busca de integração. Insistimos na expressão busca de integração porque para a Psicologia Transpessoal a percepção do continuum do espectro da consciência pode não estar desperta, e o individuo fixar-se num nível específico como se ele fosse o único real e possível. A pessoa “realizada” seria aquela que reconhece e integra todas as suas possibilidades. Grof está ciente das dificuldades dessa tarefa de integração, daí ter cunhado a expressão holotrópico – em direção a, que tende ao todo – pois entende que a própria totalidade talvez seja sempre uma busca.
Esse “ser humano total” incluiria, além dos domínios pessoais, também as dimensões transpessoais, ou seja, o que está relacionado com o que se vive além do ego pessoal: as dimensões morais, éticas, sociais, políticas e espirituais, que é onde a definição de Grof harmoniza-se com a de Mauss:
A pessoa humana também vive hilotropicamente no mundo, na história e na cultura. Constrói com suas ações estruturas sócio-políticas e sofre influências de tais estruturas, que refletem o estágio de amadurecimento da consciência (..) Transformar tais estruturas requer ação no exterior – no social, no econômico, no político e no ecológico – mas não só. Requer trabalho interior : auto exploração, auto- conhecimento (...) trabalho exterior e interior precisam ser simultâneos.
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Portanto, estamos a definir “pessoa” como sendo uma totalidade, fruto do cruzamento de diversas dimensões que confluem para o ser humano. Numa síntese elegante proposta por Grof, a pessoa humana seria uma parte, um dos nós numa
rede de eventos interconectados, sendo a rede a totalidade. Por totalidade aqui
devemos entender não apenas a totalidade do psiquismo humano (pequena e mais profunda personalidades) mas a totalidade do mundo em que os humanos estão imersos: o mundo material, a família, a sociedade, as estruturas sociais, econômicas e políticas, o Universo como um todo, inclusive os possíveis universos
83 Elydio dos SANTOS NETO, Educação transpessoal, p. 213. 84 Ibid., p. 218.
paralelos, as Potências, ou seja, a pessoa humana como um nó da rede da totalidade absoluta, que o inclui e que o transcende absolutamente, totalidade que influi em cada respiração ou movimento de cada ser humano, mas que também é afetada por cada uma dessas respirações ou movimentos. Segundo Ken Wilber, a
pessoa humana, nessa vasta totalidade, não é dada a priori, mas é algo que deve
ser construída, algo que constrói-se a si mesmo, partindo da percepção de si, incluindo os outros ao seu redor e sua inserção social, até à percepção de seu lugar na vasta teia do Universo; a pessoa se faz na longa travessia que é a aventura humana.