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Como já enfatizamos, Wilber acredita que a consciência deve estar sempre em evolução e que a regressão a níveis inferiores sempre causará um estado patológico. Ora, para Grof os eventos mais importantes da historia humana acontecem no que chama de “dinâmica perinatal”, os eventos relacionados à gestação e ao parto. Para ele, reviver esses eventos é necessário para adentrar os reinos transpessoais e espirituais. Nos termos de Wilber, Grof é um regressivo reducionista. Essa a polêmica que nos propomos a destrinchar.

Para Grof, não faz sentido concordar com a Psicanálise que o primeiro grande evento da vida de uma pessoa seja a primeira mamada, pois essa pessoa viveu nove meses no útero materno, passou pela experiência poderosa do nascimento biológico, foi pesada, lavada, vacinada, vestida e finalmente apresentada à mãe. Antes de pensar na relação primitiva da criança com o seio é preciso olhar para a relação da criança como o útero materno e a grande transformação que é o nascimento:

Uma transição radical, de uma forma aquática de vida cujas necessidades eram continuamente satisfeitas pela circulação placentária, para o stress extremo emocional e físico da luta de nascimento, e então para uma existência radicalmente diferente como um organismo que respira ar, é um acontecimento de grande importância que abarca até o nível celular. 120

A força desses eventos geram o que chamou “matrizes perinatais”, a fôrma matricial de padrões de experiências que ocorrem tanto nas crianças quanto nos adultos. As experiências perinatais convertem-se em matrizes por vários motivos: porque são os primeiros eventos da vida de cada ser humano; porque envolvem

eventos dramáticos, como a ameaça concreta de morte; porque estão acontecendo para um ser que não possui linguagem, portanto, não passam por análise lógica nem classificação em qualquer local da consciência. As experiências perinatais são uma massa de sensações poderosas que tornam-se o “núcleo” ou “matrizes” de vivências do mesmo tipo, que se agregam por similitude e são constantemente “revividas” a partir de gatilhos disparados em eventos do cotidiano. A essa

agregação de memórias agrupadas em “complexas constelações dinâmicas” 121 Grof

chama “sistemas coex” (sistemas de experiências condensadas), postulando que memórias emocionalmente relevantes não são armazenadas no inconsciente de maneira isolada, mas aglutinam-se a partir de um núcleo comum. O primeiro e mais importante núcleo agregador de experiências são as vivências perinatais. As coex podem incluir / atravessar todas as camadas da consciência simultaneamente, a partir de um núcleo carregado de carga emocional que é o atrator / agregador de

todas as experiências de mesmo tema (vivências, sonhos, leituras, músicas,

paisagens, sons etc). O acesso a uma coex pode ser feito a partir de qualquer uma de suas camadas. Assim, uma música, um sonho ou um toque na pele podem ser o detonador de toda uma série complexa de memórias, imagens e sensações físicas.

Esse reviver atualizado não constitui uma regressão da energia a níveis primitivos da psique, pois, formadores da psique, esses eventos basais são portanto, sempre atuais. Um dos objetivos da psicoterapia seria reviver os eventos perinatais e liberar a energia investida na manutenção desse trauma. A energia liberada poderia ser investida pelo indivíduo em novos aspectos do seu desenvolvimento que, para Grof, incidiria principalmente no campo da espiritualidade.

Para Grof, a consciência humana não pode nunca ser considerada rudimentar ou primitiva pois, se o Espírito está encarnado na matéria, esse Espírito não é passível de evolução: ele é o que é, sempre foi e sempre será o mesmo. Portanto, a consciência é desde sempre um complexo multifacetado e multi-nível, e a evolução apenas faz com que esses muitos níveis se ativem. Não partimos do urobórico em direção ao pessoal e depois ao transpessoal, mas todos os níveis possíveis estão presentes o tempo todo: a questão do desenvolvimento é a questão de ativação de níveis sempre existentes:

todo o espectro da consciência está sempre disponível, plenamente formado, mas submerso. 122

Portanto, Grof não concorda com a falácia pré-trans. Embora admita que há uma diferença entre pré e transpessoal, pensa não se tratar de algo mecanicamente separado e sem possibilidade de reunião. Para ele, na verdade, a reunião entre pré e transpessoal fica evidente nos pacientes psicóticos.

Há grandes diferenças entre Wilber e Grof: o primeiro é um teórico formado em química, que decidiu debruçar-se sobre a consciência humana graças às próprias experiências meditativas; Grof é psiquiatra que trabalhou junto a inúmeros pacientes. Olhos teóricos, olhos práticos. O psicólogo clínico é alguém que permanentemente está checando se a teoria funciona na prática. Grof, desde a década de 60 do século XX, viajou o mundo todo, trabalhando intensamente com pacientes dos mais diversos tipos: “saudáveis”, neuróticos, psicóticos, e, em muitas ocasiões, místicos das mais diversas confissões religiosas; pessoas em estados ordinários e em expansão da consciência; foi residente em hospitais psiquiátricos, visitou roças de Candomblé e centros de Umbanda em São Paulo e Rio de Janeiro; tomou ayahuasca no Brasil, peiote no México, fez retiros zen no Japão e meditação shivaísta com Swami Muktananda. Suas observações partem de dados práticos que conduziram ao uma tentativa de rever e ampliar o conceito de psicose, criando o

termo “emergência espiritual”. 123

Grof não se encontra isolado em sua abordagem das psicoses como crise que pode ser construtiva e demonstra particular afeição pelo trabalho do psiquiatra John Perry que, utilizando conceitos da Psicologia Analítica, demonstrou como os delírios aglutinam-se em torno de arquétipos, mitos e rituais arcaicos.

O conceito de emergência espiritual tenta englobar o aparecimento de conteúdos caóticos ou psicóticos com a presença de conteúdos espirituais / transpessoais. Emergência, no caso, é usado tanto para significar o aparecimento desses conteúdos na psique, vindos do inconsciente pessoal e coletivo, como

urgência, na acepção médica da palavra.

122 Stanislav GROF, A psicologia de espectro de Ken Wilber, p.24. 123 Stanislav & Christina GROF, Emergência espiritual, Cultrix, 1992.

Grof observa que psicóticos podem apresentar insights espirituais genuínos, ao passo que místicos podem ativar complexos regressivos. Para Grof, entender corretamente as psicoses, o misticismo e suas inter-relações mútuas exige uma cartografia da psique ainda mais expandida que a apresentada por Wilber, incluindo os domínios das experiências perinatais e o reconhecimento de que o ser humano é completo desde seu mais remoto início, desde a concepção, inclusive podendo ter memória desses eventos.

A questão de ser o cérebro mielinizado ou não (fator crucial para o estabelecimento das redes neurais que permitem o funcionamento da memória) para Grof é irrelevante por dois motivos: a) na prática, encontrou experiencialmente milhares de pessoas com livre acesso a essas memórias primitivas e b) mesmo que o organismo não tenha condições de lembrar, o Espírito lembra.

Mais ainda: a nível energético, Grof acredita que a energia flui livremente pelo sistema humano (cérebro, corpo, mente, psique, espírito); que essa energia move- se em todos os sentidos ao mesmo tempo, o que inclui tanto “evolução” quanto ‘regressão”; e que pode eclodir / aflorar em qualquer ponto do espectro a qualquer momento, sem obrigatoriedade de sentido unilateral.

O ponto critico aqui é que as experiências “regressivas” freqüentemente parecem ser uma parte integral da abertura espiritual, e não apenas as experiências pré-natais e perinatais, mas também as experiências ancestrais, raciais, cármicas, filogenéticas, e até mesmo aquelas que alcançam muito mais longe na historia do Cosmo. Parece pouco relevante se interpretarmos este fato como a consciência transpessoal reentrando nessas estruturas arcaicas, como Ken prefere descrevê-las, ou se nós o interpretamos como uma manifestação do potencial transpessoal inerente a essas estruturas. Desde que (...) toda a criação e toda a evolução na natureza e no cosmo é, em última análise, criada pela involução da Consciência Absoluta, eu não vejo nenhuma necessidade de tratar esses elementos como inerentemente diferentes do domínio espiritual. O fato de que a inteligência criativa superior guia o processo criativo e se manifesta em todos os seus níveis, certamente deixa aberta esta possibilidade. 124

Isso explicaria porque pessoas submetidas a procedimentos de expansão da consciência (como drogas psicodélicas, respiração holotrópica, meditações) acessam conteúdos corporais, emocionais, prototípicos e arquetípicos

simultaneamente numa mesma sessão. Por exemplo: o caso de Norbert 125, que,

vivenciou profunda dor no peito e ombro, combinada com uma sensação de asfixia. Essa sensação corporal trouxe a memória de uma situação de quase morte, quando, aos 7 anos de idade, um túnel de areia desabou sobre ele. Em seguida, a experiencia ampliou-se para reviver o nascimento biológico, quando seu ombro ficou preso no osso púbico da mãe, gerando asfixia e dor no ombro. Finalmente, num nível ainda mais profundo, ele era um soldado do exército de Cromwell, que teve o ombro perfurado por uma lança, caiu ao solo e foi pisoteado no peito por um cavalo.

A evolução espiritual não segue uma trajetória linear direta (...) mas envolve um movimento de consciência combinado regressivo e progressivo. 126

Ao conceito wilberiano de escada da transcendência, Grof opõe que a abertura espiritual freqüentemente segue uma trajetória espiral, durante a qual a consciência pode até mesmo dobrar-se sobre si própria, tocando o passado e então novamente se desdobra num novo presente. A escada, para Wilber é um conceito crucial, pois apenas um espaço que desenvolve-se lentamente, tanto na humanidade como no ser humano, permite a emergência de um “espaço

intersubjetivo construído” 127 onde ocorram as experiências mentais. Para Grof, o

espaço inter-subjetivo é sempre existente em latência, pois é o dom da encarnação do Espírito; pode emergir a qualquer momento, eclodindo como um relâmpago, que é a manifestação do Espírito na matéria; o desenvolvimento é apenas o emergir dessas estruturas sempre existentes nos seres vivos.