“Não sei quantas almas tenho. /Cada momento mudei. /Continuamente me estranho./ Nunca me vi nem acabei./ De tanto ser, só tenho alma. /Quem tem alma não tem calma./ Quem vê é só o que vê./ Quem sente não é quem é.” (Pessoa, 1993, p.48)
Na perspetiva de Kaufamnn (2005), a identidade é “um processo que permite dar um sentido à vida” (p.17) uma vez que “cada um narra a história da sua vida, que dá sentido ao que…vive” (p.132). Na ótica deste sociólogo francês, o individuo não é uma entidade mas sim um movimento, na medida que, na sua perspetiva, “a identidade é a história de si mesmo, que cada um se conta” (p.131). Neste sentido, ao longo deste capítulo, procurarei percorrer esse caminho, descrevendo sobre aquela que considero ter sido, até ao momento, a identidade construída, ao mesmo tempo que reflito sobre as vivências e experiências que me marcaram e que, de algum modo, contribuíram para a pessoa que sou hoje em termos profissionais e pessoais.
Primeiramente, considero que uma das grandes aprendizagens que fiz, ao longo desta caminhada, foi compreender que uma grande parte da minha identidade profissional é, muitas das vezes, um reflexo da minha identidade pessoal e, como tal, estas encontram-se permanentemente ligadas uma à outra. Considero que, aquilo que somos como pessoas se espelha muito nos valores e convicções com que regemos a nossa vida pessoal, e que o mesmo acontece, com a nossa vida profissional. Neste sentido, é-me possível afirmar com certeza, que grande parte da minha ação pedagógica foi-se caracterizando por algumas das minhas características pessoais mais evidentes.
Importa salientar, que passados três anos de licenciatura e dois de mestrado que não considero ser, a mesma pessoa que aquando iniciou esta longa caminha e que, muitas das minhas convicções pessoais e também profissionais se foram redefinindo. Atualmente, considero que o facto de ser uma pessoa dinâmica que adora desafios e aprender e, que se adapta facilmente a diferentes culturas, se espelha também na minha vida profissional, na medida em que, até agora, sempre me adaptei com facilidade aos diferentes ambientes educativos que fui encontrando.
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Infelizmente, o facto de pessoalmente ser uma pessoa um pouco insegura leva a que muitas das vezes tenha que procurar estratégias para o mesmo e, não deixar, que isso me tolde o julgamento daquilo que sou capaz como profissional.
Neste sentido, um dos grandes contributos para o desenvolvimento da minha identidade profissional, sustentou-se na constante reflexão sobre a minha prática. Nem sempre, foi tarefa fácil, na medida em que questionei e espelhei diversos receios associados há minha inexperiência e que muitas vezes, levavam também, a que questionasse as minhas capacidades, como é possível ver nos seguintes excertos das minhas reflexões semanais.
Ao longo das próximas semanas continuarei a utilizar estas estratégias e se as mesmas não resultarem, encontrarei outras novas. Pessoalmente, penso que também ajudará se colocar um bocado menos de pressão em mim própria e acreditar mais nas minhas capacidades pois, como defende Powell (s.d, citado por Brickman & Taylor, 1991) “ as estratégias indicadas [a cima] se forem aplicadas de forma paciente e persistente, geram um clima no qual as crianças desenvolvem auto-domínio e aprendem a olhar para os conflitos com os outros numa óptica de procura de resolução de problemas” (p.41), sendo por isso importante que acredite que com reflexão e procura de estratégias, conseguirei melhorar a minha interação e diálogos com as crianças.
Excerto da Reflexão semanal- 4ª semana: 2 a 4 de novembro de 2016
Para tal penso que tenho que começar por colocar menos pressão sobre mim própria, tal como controlar a ansiedade que por vezes sinto quando não obtenho as respostas que gostaria, ou quando a atividade não está a correr como planeado. Sem dúvida uma das grandes aprendizagens que fiz ao longo destas intervenções é que se pensarmos, e refletirmos, sobre os nossos atos e soubermos escutar diferentes opiniões, haverá sempre espaço para melhoria e o mesmo acabará por se tornar visível nas intervenções seguintes.
Excerto da Reflexão semanal- 9ª semana: 6 a 9 de dezembro de 2016
Como Sarmento (2015) afirma, a identidade profissional “é um processo social e humano que se desenvolve na interação de cada um com o mundo e com o outro” (p.72) e, a meu ver foi através dessas interações, juntamente com os conhecimentos teóricos que adquiri e ainda tenho por adquirir, juntamente com desafios e dificuldades superadas- tanto a nível pessoal como profissional- que a mesma se foi desenvolvendo. Todavia, considero também através de uma constante reflexão, individual e coletiva, tanto com adultos como com as crianças, que considero ter formado os meus princípios e filosofias enquanto futura profissional. Considero que a experiência, o confronto com situações inesperadas, levou a uma constante reflexão e avaliação
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da minha ação pedagógica e por conseguinte, à necessidade de criação de estratégias que fossem não só de encontro às minhas fragilidades sentidas mas também e sobretudo, de encontro às necessidades do grupo de crianças.
Luís, Andrade & Santos (2015) afirmam que “pensar em uma intervenção educativa qualitativamente adequada implica vivê-la e considerá-la um caminho contínuo de reflexão- ação- transformação. Implica também um caminho de autovigilância em torno de quem somos e quem queremos ser” (p.524). Foi, então, na realização desse processo cíclico de ação, reflexão e transformação que conduziu lentamente à superação dos obstáculos que ia encontrando, e graças aos mesmos, que considero que aprendi, cresci e aprendi a ser e a estar na profissão e na vida pois, como Vieira (2010) afirma,
A aprendizagem em torno da profissão não se inicia apenas quando se entra na universidade, nem se esgota nessa etapa de formação: é antes, uma aprendizagem que acontece desde cedo, através das múltiplas experiências vividas como aluno, antes e durante o percurso académico na universidade, prolongando-se depois, na vivência quotidiana da profissão (p.41).
Na perspetiva de Luís, Andrade e Santos (2015), “uma maneira do educador se ir transformando …. É ser sensível às necessidades de autovigilância da profissão e desejar, aceitar e incluir a participação da criança no contexto educativo no qual ela se encontra inserida” (p.524). Assim, considero que essa necessidade de transformação se fez marcar por todos os contextos de Práticas de Ensino Supervisionadas que fui experienciado, tal como, o contacto com os diferentes modos de trabalhar em equipa, as diferentes famílias e grupos de criança se foram cruzando nesse caminho e que de muitas formas contribuíram na constante reformulação da minha identidade profissional, como é possível ver no seguinte excerto de uma reflexão semanal.
Desde que me lembro e decidi, que gostaria de ser educadora de infância, tornou- se hábito o comentário “que sorte! A tua profissão vai ser brincar o dia todo.”
Ao longo destes anos, tenho vindo a descobrir, que em parte, essas pessoas tinham razão. Mas, o que não sabem, e na altura também eu não sabia, é que brincar demonstra várias intenções por parte da criança, e para tal é necessária muita observação, reflexão e análise por parte do adulto.
Excerto da Reflexão semanal- 7ª semana: 22 a 25 de novembro de 2016
Esptein (2011) salienta que “intentional teaching means teachers act with specific outcomes or goals in mind for children’s development and learning” (p.1) e como tal a maneira como apoia
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a criança é fundamental para esse mesmo processo. Esta é sem dúvida uma das maiores aprendizagens que realizei ao longo deste percurso, uma vez que, perspetivando e refletindo sobre as minhas práticas em estágios anteriores, apesar de considerar a criança um sujeito competente e de direitos, não a apoiava como tal. Neste sentido, aprendi que o adulto apoia a criança e o modo como esta brinca, ao organizar o ambiente físico de aprendizagem e ao disponibilizar materiais que vão de encontro as suas necessidades e interesses. O adulto apoia nestes momentos, quando promove o ciclo de encontra-brinca-arruma e ajuda as crianças a ultrapassar os problemas que encontra durante os momentos de brincadeira e as apoia para que joguem e brinquem com intenção.
Segundo Silva (2012), “cada grupo tem características próprias, considerando-se que o ambiente educativo é, não só, constituído por equipamentos e materiais, mas também pelas relações e interações que se processam no grupo, de que fazem parte os adultos responsáveis” (p.164) e no decorrer deste Projeto de Intervenção, um dos grandes objetivos do mesmo era dar uma voz ativa às crianças, onde estas pudessem escolher e participar ativamente na reorganização do ambiente educativo. O mesmo revelou-se uma caminhada longa, que exigiu uma constante reflexão sobre a minha prática educativa, como é visível nos seguintes excertos apresentados.
O facto de se tratar de um grupo de três anos, considero que por vezes, as minhas questões são demasiado abstratas, como por exemplo, quando lhes pergunto o que gostam de fazer, ou o que gostam de brincar. Penso, que o motivo por que muitas vezes faço isso é por querer que as crianças pensem e que façam as suas próprias escolhas, e considerava que se fizesse perguntas mais concretas, poderia estar a conduzir a resposta das crianças.
Aprendi sobretudo com esse erro, que é extremamente difícil para uma criança fazer escolhas sem antes lhe ter sido dada opções e pelo que foi dito anteriormente, comecei a utilizar como estratégia, dar algumas opções de resposta às crianças, isto é, como por exemplo, comecei a perguntar se estas gostavam mais de brincar com carros ou bonecas, ou se gostavam mais de brincar com plasticina ou ir para a área da “cozinha”. Na minha opinião penso que me ajudou a comunicar melhor com estas crianças já que reparei, que ao utilizar este discurso elas se mostravam interessadas em continuar a conversa.
Excerto de reflexão semanal: 4ª semana de 2 a 4 de novembro de 2016
Na minha última reflexão, referi o facto de considerar que não dava tempo nem espaço à criança de explorar, observar e conversar sobre as imagens que viam e que começava logo por as questionar em demasia. Por isso, nesta atividade, compreendi que
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por vezes mesmo dando esse tempo, é sem dúvida necessário incentivar as crianças a verbalizar o que vêm e pensam.
Excerto de reflexão semanal: 11ª semana de 3 a 6 de janeiro de 2017
Estes excertos, demonstram assim que, foram as inquietações e dúvidas presentes no decorrer da minha ação pedagógica que fizeram com que a mesma se fosse alterando e evoluindo na medida em que procurava incessantemente estratégias para lhes dar resposta. Nesse sentido, através dessas mesmas reflexões, compreendi que uma maneira de encorajar a participação ativa da criança era dar-lhe múltiplas oportunidades de escolha, uma vez que esta “requer, assim, que a criança pense sobre as alternativas, as possibilidades disponíveis numa dada situação, e seja capaz de limitar essas possibilidades às mais importantes ou essenciais” (Lino, 2014, p.140).
Considero também, que foi através das diversas experiências e vivências que hoje em dia a minha conceção atual se prende na criança enquanto sujeito ativo do seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento do mundo que a rodeia e, como o educador, tem um papel fundamental como apoiante, na medida em que apoia e observa a criança, pois como Dewey (2002, citado por Lino, 2005) realça, “a observação das crianças e dos seus comportamentos nas diferentes actividades, [permitem] identificar os interesses e as necessidades individuais e do grupo para, deste modo, planificar actividades que envolvam e motivem as crianças e que lhe coloquem desafios interessantes” (p.77).
Em suma, termino esta etapa da minha formação, certa que a minha identidade profissional sem dúvida, se modificou bastante nestes últimos anos e que “intentional teaching does not happen by chance; it is planful, thoughtful and purposeful” (Esptein, 2011, p.1). Atualmente, graças à cumplicidade, respeito mútuo que alcancei com as crianças deste estágio, considero que superei os diversos desafios que fui encontrando e que acima de tudo a visão da minha própria ação, em alguns aspetos se redefiniu para melhor. Termino esta etapa também certa que todos estes desafios me levaram a querer saber mais, a investigar e a (re) adaptar as minhas estratégias como profissional e certa que ainda tenho bastante para aprender, mas que através da análise, reflexão e observação- ferramentas que a partir de agora serão imprescindíveis na minha ação educativa- me ajudarão a continuar a evoluir.
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