No Dicionário de análise do discurso, Maingueneau (2004), ao apresentar o conceito de comunidade discursiva, afirma ser possível estender a noção de CD a toda comunidade de fala restrita. Essa comunidade de fala, de acordo com o autor, é um conceito originalmente introduzido por Hymes (1967) e caracteriza-se como uma
unidade de análise dos comportamentos discursivos, que permite caracterizar a competência discursiva dos locutores, quando estes partilham as mesmas regras de comunicação e de avaliação das trocas comunicativas. Hymes afirma, e essa é a parte que mais nos interessa, que uma comunidade de fala deve ser entendida como homogênea quando comparada a outras, mas que, por ser possível o desenvolvimento de culturas comunicativas específicas no interior de uma comunidade, ela pode também ser estudada no nível de seus subconjuntos particulares. No prefácio da tradução brasileira do livro Gênese dos discursos (2008b), uma das reavaliações que Maingueneau faz de seu próprio trabalho é que ele tratou a competência discursiva de forma muito homogênea. Essa reavaliação do autor e a proposição de Hymes, de que uma comunidade de fala pode caracterizar-se pelas diferenciações internas, são significantes para o desenvolvimento de nosso trabalho, uma vez que, nesta seção, focaremos nas polêmicas, decorrentes da heterogeneidade da competência discursiva, presentes no interior da comunidade discursiva em torno das fanfictions.
A polêmica entre shippers é um exemplo de que há diferentes maneiras de lidar com a constituição de uma comunidade discursiva. Shippers, para quem desconhece o termo, são aqueles que admiram e defendem alguns relacionamentos (releationship) entre personagens das obras fontes das fanfictions. No fandom de Harry Potter, por exemplo, já houve e ainda há diversas discussões entre os shippers Harry/Hermione e Hermione/Rony, isto é, entre os leitores que torcem para que Harry fique com Hermione e entre aqueles que torcem para Hermione e Rony ficarem juntos no final da história. Esse conflito entre shippers movimenta polêmicas na comunidade discursiva em torno das fanfictions e, por isso, é muito comum haver em sites que publicam fanfictions, como o site Floreios e Borrões, uma área denominada Shipper. Ao entrar nela, podemos filtrar as opções de fanfictions para leitura com base no casal de nossa preferência. Na imagem a seguir, por exemplo, é possível observar que as fanfictions são acessadas a partir do casal protagonista que aparece na história:
Figura 2 – Área Shipper no site Floreios e Borrões
Fonte: www.fanfic.potterish.com. Acesso em: 9 de maio de 2015.
Além disso, no menu da fanfiction, no qual há algumas informações sobre a história a ser contada, aparece detalhadamente quais pares românticos serão nela enfatizados:
Figura 3 – Menu de uma fanfiction no site Floreios e Borrões
Nem todos os sites de fanfictions possuem a área Shipper, mas, na maioria deles, os leitores têm a opção de filtrar a pesquisa de fanfictions com base no shipper, o que obriga os ficwriters, no momento de postarem suas histórias, a se posicionarem quanto a essa polêmica. O site fanfiction.net é um exemplo de site em que podemos filtrar a história com base no shipper:
Figura 4 – Quadro que permite inserir diferentes filtros de busca
Fonte: www.fanfiction.net. Acesso em: 09 de maio de 2015
Esse tipo de filtragem em diferentes sites que publicam fanfictions parece ser uma tentativa de evitar que posições diferentes afetem o funcionamento do website. Do ponto de vista discursivo, é possível supor que, ao ser obrigado a detalhar qual par romântico aparecerá em sua história, o ficwriter, e também o leitor da fanfiction, legitima sua posição quanto à polêmica dos shippers no interior dessa comunidade.
Ademais, o fato de essa polêmica ser de alguma forma institucionalizada pelas entradas que são definidas no site, isto é, o fato de os próprios websites serem organizados e estruturados a partir desse fenômeno, permite-nos afirmar que se trata de uma polêmica discursiva no sentido de Maingueneau (2008b)15, uma vez que afeta o modo de institucionalização dessa comunidade.
Essa polêmica entre os shippers aparece também como parte do enredo de algumas fanfictions. O trecho que será apresentado a seguir, por exemplo, pertence a
15 Apesar de apresentar como uma de suas facetas a intercompreensão discursiva, o aspecto da polêmica a que damos relevância, neste trabalho, é aquele segundo o qual seu movimento delimita a constituição e a identidade da comunidade.
uma fanfiction que focaliza o shipper Harry/Hermione. Nessa história, a personagem Hermione percebe que está se apaixonando por Harry Potter e decide escrever uma lista com dez razões para não se apaixonar pelo garoto:
Dez razões para não me apaixonar pelo Harry:
10 – Ele é meu melhor amigo; meu melhor amigo! Pelo amor de Mérlin!
9 – Nós nunca daríamos certo, francamente. Quero dizer, somos excelentes amigos, não há aquele tipo de tensão rondando a gente.
8 – Sobre a tensão... Você sabe, aquela atração animalesca que se sente por uma pessoa. Assustador... O que sinto por Harry não é assustador, é doce, suave, é delicado, gentil... E tem aquela sensação de segurança e conforto. Não daria certo.
7 – Sou absolutamente neurótica quanto a regras e ele não faz questão de seguí-las. Repito: não daria certo.
6 – Detesto o modo como ele despenderia ainda mais (!) os cabelos com a mão, quando está nervoso.
5 – Ele se sente desconfortável ao meu lado. Ele prefere o Ron... 4 – Friso: não daria certo.
3 – Ele sequer presta atenção em mim!
2 – Ele gosta da Gina! E eu...
1- ...Bem, eu deveria gostar do Ron. (Potter Love, Mione.10 razões para NÃO se
apaixonar por Harry Potter. Disponível em: http://fanfic.potterish.com/visucap.php?
identCap=4031&identFic=25069&tCh =11. Acesso em: 09 de maio de 2015; grifos nosso).
Notamos, no trecho dessa fanfiction, a tentativa de sua ficwriter de defender sua posição (Harry deveria ficar com a Hermione) por meio da denegação que a personagem realiza de seu sentimento, o que acaba por colocar em cena a posição de seu Outro. Ao lerem o enunciado “eu deveria gostar do Ron” como tendo sido enunciado pela personagem Hermione, por um efeito da memória discursiva, emanará, na memória dos leitores dessa fanfiction, a posição de um Outro, cuja defesa recai sobre a ideia de que Hermione é par romântico de Rony e não de Harry. A polêmica dos
shippers é, pois, institucional, visto que ela é estruturante do funcionamento dos
próprios sites e, consequentemente, estruturante da produção de fanfictions.
A posição quanto ao shipper está relacionada a outra polêmica presente no interior dessa comunidade discursiva, a saber, se uma fanfiction pode ou não alterar substancialmente a história original. As fanfictions que mantêm as características da obra original são chamadas, pelos integrantes dessa comunidade, de canons, e as que possuem pouca semelhança com aquela, em função, por exemplo, da criação de casais inconcebíveis na trama original, são denominadas fanons. Há websites, como o Sugar
Figura 5 – Critérios para a submissão de fanfictions no site Sugar Quill
Fonte: www.sugarquill.net. Acesso em: 09 de novembro de 2015.16
Nesse caso, os betareaders desse site não revisarão o texto em busca apenas de erros gramaticais ou de impropriedades textuais, mas também verificarão se a fanfiction não modificou características essenciais do texto canônico. Vejamos, a seguir, quais são as responsabilidades dos betareaders desse site e as normas que os ficwriters que pretendem publicar nele devem seguir:
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Canon. O Sugar Quill define canon como:
- Os livros de Harry Potter;
- Chats e entrevistas com J.K. Rowling; - Cartas aprovadas por J.K. Rowling; - JKRowling.com.
O Sugar Quill não considera eventos e cenários dos filmes da Warner Brothers como canon. Por exemplo, se você pensa que foi a Hermione quem disse, "Se você quer matar Harry, você terá que nos matar também!", então, leia os livros antes de submeter sua fanfiction.
Figura 6 – Responsabilidades dos betareaders e dos ficwriters
Fonte: www.sugarquill.net. Acesso em: 09 de maio de 2015.1718
Assim, ao decidirem publicar ou ler fanfictions nesse site, o ficwriter e o leitor acabam por alinharem-se, no interior da comunidade discursiva, à posição a favor das histórias que seguem, em aspectos determinados, a obra original.
17 Problemas de personagens: Fanfiction permite muito mais liberdade em relação a ficções profissionais
em termos de interpretações de personagens, mas seus produtores devem assinalar se o seu personagem de repente começa a se comportar muito estranhamente por razões não apreciáveis.
18 1. Canon. Autores cujas histórias são arquivadas no Sugar Quill devem concordar com o seguinte
regulamento:
- Nomes de personagens e lugares devem ser bem escritos (não é McGonagal, ou Serious, ou Severous, ou Hogsmeed ou King's Crosses);
- Hermione nunca, JAMAIS, foi chamada de ‘Mione nos livros. A única pessoa que a nomeia com um nome de animal é Viktor Krum. Ele a chama Herm-Own-Ninny. Ah sim, e Grawp a chama de Hermy; - Lá não deve ser mudado a cor dos olhos, cabelos, aparências ou nada mais que J.K. Rowling já especificou no canon;
- Autores devem tirar um tempo para conferir, em sites como o Harry Potter Lexicon e JKRowling.com, fatos do canon.
Ao reger os modos de entrada nessa comunidade, a polêmica canon x fanon e a polêmica dos shippers revelam-se institucionais e, portanto, caracterizadoras da comunidade constituída em torno das fanfictions. Nessa perspectiva, a fanfiction configura-se como uma prática discursiva por meio da qual ficwriters e leitores – além de outros membros dessa comunidade, como os betareaders e os webmistresses – assumem posições específicas no interior de uma CD, sendo a polêmica um dos fatores que move as práticas dessa comunidade.