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Hva er pedagogisk omsorg?

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Na intensidade de reflexões postas nessa análise, há de se ater para a presença de inúmeras contradições e divergências nas condutas dos profissionais. O que não nos permite, portanto, traçar caminhos lineares que indiquem uma perspectiva ética e uma outra não ética no cuidado a pacientes em processo de finitude, além de impedir que sejam estabelecidos julgamentos morais e classificações sobre tais posturas. Há, destarte, o estabelecimento de um jogo de diferenças no qual a hierarquia presente nas práticas de cuidado em saúde é derrubada e invertida, dando espaço e visibilidade a outras propostas de atuação sem, no entanto, tomá- las como soberanas e indiscutíveis.

O jogo, possível somente através da perspectiva da desconstrução, impossibilita a totalização do pensamento e o enquadre limitante do fenômeno. Tal como discorrido por Pedroso Junior (2010), o uso de termos imprecisos, tais como "nem um .... nem outro", "ao mesmo tempo", "por um lado. . . por outro...", foi constante nesta análise e nos apontava sempre para situações de imprecisão e indeterminação quando trazia, por exemplo, em um mesmo

discurso, nas condutas de um mesmo profissional ou de uma mesma equipe, concepções diferentes e até conflitantes que abalavam a possibilidade de totalização.

Lévinas (1982) opõem-se à busca pela totalidade e considera os grandes sistemas filosóficos e científicos, cujo objetivo é conhecer e abarcar tudo, uma forma de violência que tenta anular a diferença e instalar o império do mesmo a partir da relação com o igual e da negação do infinito. O infinito, deste modo, é a relação com o diferente e o não conhecido, não podendo ser totalizado. O diferente mostra-se através de um rosto não fenomênico e nos convoca a uma responsabilidade absoluta e intransferível. Indica-se, deste modo, a existência de práticas no cotidiano das equipes acompanhadas que tomam essa dimensão como orientadora e coadunam com modos de cuidado que têm uma perspectiva ética fundamental: ser com e para o outro. Questiona-se, no entanto, o que possibilita tal indicação? Em uma seara em que foi estabelecido um jogo não hierárquico e não classificatório entre as condutas, como é possível falar em um cuidado ético? O que caracteriza tal cuidado?

A partir da realização de práticas que versam sobre inúmeros modos de cuidado, concebe-se que a possibilidade de testemunho demarca a diferença entre condutas que coadunam com a perspectiva ética de ser com e para o outro daquelas baseadas em questões estritamente técnicas, autoritárias, protocolares e distanciadas.

Para Kupperman (2012; 2016), a produção do trauma psíquico está mais relacionada ao abandono, à indiferença ou ao não reconhecimento do outro em relação ao sofrimento vivenciado, do que necessariamente com a experiência traumática em si. O sujeito, após viver uma experiência difícil e potencialmente traumática, se volta ao outro na intenção de encontrar alguém que testemunhe a sua dor. Ressalta-se que esta procura não ocorre com o objetivo de esquecer ou se livrar do fato, mas de ter, no outro, a segurança para lidar com a situação; pois é a partir deste que o significado para a experiência traumática pode ser elaborado.

Deste modo, o abandono e a desautorização do sujeito em sofrimento tornam-se a principal fonte de trauma24, apontando-nos uma importante consideração: é preciso estar

24 É mister ressaltar uma importante diferença teórica em relação ao conceito de trauma. O traumatismo em Lévinas

(1980; 1982) se dá na afetação pelo outro, tem um caráter de positividade e constituição subjetiva, pois refere-se à chegada do outro que vem de fora e rompe com a soberania do eu. O outro que me afeta, me afeta por ser um outro e me afeta ainda mais por ser um outro em sofrimento. Deste modo, no sentido levinasiano, o profissional é traumatizado pelo paciente – outro -, e por isso tem que escutá-lo em seu sofrimento. Já nas discussões de Kupperman (2012; 2016), o paciente produz um trauma psíquico pela ausência de cuidado quando se encontra em sofrimento e, portanto, necessita da presença e da dedicação do outro para lidar com tal situação. O trauma aqui toma uma conotação negativa e patológica. Colocada essa diferença conceitual, destaca-se que a discussão importante à nossa análise se refere à noção de testemunho, demarcando pontos de convergência entre as teorias.

disposto e aberto a testemunhar o sofrimento do outro sem, contudo, desconsiderá-lo ou feri- lo. Para Kupperman (2016, p.16),

De fato, a indiferença do outro frente ao sofrimento do doente é traumatizante por impedir o suporte, o enquadre e o compartilhamento afetivo capaz de promover sentido às experiências vividas pelo sujeito em estado de sofrimento. Justamente por isso o cuidado é a contrapartida clínica para as situações potencialmente traumáticas provocadas pelo processo de adoecimento [e de morte].

O autor ressalta, então, a importância da alteridade na vivência e elaboração de experiências dolorosas e indica que o cuidado, através do acolhimento e da hospitalidade, é fonte produtora de vida com capacidade para vivificar uma experiência mortal. Sendo, pois, “esse testemunho o que permite que o sofrimento provocado pelo processo de adoecimento, na maior parte das vezes surpreendente para o paciente, não configure uma situação apassivadora e impeditiva de elaboração” (KUPPERMAN, 2016, p.13). É preciso, deste modo, que haja alguém que escute, acredite e ajude o sujeito a representar seu sofrimento para se evitar a irrupção do trauma em seu aspecto patogênico (KUPPERMAN, 2012).

A morte do outro, que é anterior à minha e a única que me importa e que me diz respeito, é um evento de extremo sofrimento para quem a vivencia e a acompanha e é, ademais, a exigência máxima de responsabilidade. Tal responsabilidade para com o outro é o testemunho do Infinito (POIRIÉ, 2007). “Quando, na presença de outrem, digo <<Eis-me aqui>> é o espaço por onde o Infinito entra na linguagem, mas sem se deixar ver. Por não ser tematizado, não aparece (...)” (LÉVINAS, 1982, p.98). O testemunho, em Lévinas, representa a extrema obediência às ordens do outro, sem necessitar da externalização ou verbalização de tal ordem. É uma ordem que vem de cima, do além de mim em uma dimensão anárquica e imemorial, e não pode ser significada, é o Dizer sem o Dito, é a resposta endereçada ao outro, em resposta a ele, sem necessitar de ordem alguma.

Para Melo (2003, p.143), “a sinceridade do testemunho implica, então, na adesão à ordem sem convertê-la em palavra”, e é, desta maneira, pura humildade e obediência. Assim, o testemunho manifesta-se pelo não aparecimento e pela não indiferença. Ele não é representável, pois aponta para a dimensão do Infinito longe de toda tematização, mas no Dizer sem Dito, ele impossibilita a surdez, ele anuncia sua presença e, assim, ele convoca e intima. “O eis-me como resposta é o próprio testemunho do Infinito, uma resposta que não alcança a tematização, mas que é testemunho” (CARRARA, 2012, p.98).

Lévinas (1982, p.98) enfatiza “que o sujeito que diz <<Eis-me aqui>> dá testemunho do Infinito”. No sentido levinasiano, eu testemunho o Infinito através da minha

responsabilidade para com o outro e, na perspectiva de Kuppermann, eu testemunho o outro pela via do sofrimento. Em ambos os contextos, o eu está incumbido de uma resposta endereçada ao outro: testemunhar de forma ética e responsável. O testemunho é ético e dota o Infinito de significância quando se refere a um sujeito que suporta tudo, sofre em nome de todos os outros e está encarregado dele, assujeitado a ele.

Assim, em comunhão com as discussões de Kuppermann e Lévinas, a possibilidade de testemunho tem duas dimensões: é uma exigência ética através da responsabilidade absoluta de estar-com o outro e que não necessita de chamado ou de indicações, pois é um comando anterior a existência do próprio sujeito; e possibilita que a pessoa em sofrimento vivencie suas dores e eventos difíceis tendo no outro o suporte para a significação de tais situações. Essas duas perspectivas indicam, destarte, o ponto de convergência que permite pensar a relação entre ética e cuidado independente da conduta tomada ou da normativa em que esta esteja orientada: estar-com-o-outro na sua dor, no seu sofrimento, na sua doença e na sua morte, dizer-lhe sim.

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