Os contos presentes em Delta of Venus apresentam temas considerados transgressores ou, de acordo com a definição de Maingueneau (2010), são classificados como pornografia interdita.
Maingueneau (2010) aborda a literatura pornográfica e propõe que a mesma não seja analisada pela crítica tradicional, já que ela costuma ser considerada como paraliteratura. O autor entende a paraliteratura como “uma produção em série que visa provocar no leitor um efeito previamente determinado, permitindo-lhe fugir por um momento para um universo paralelo, liberado das restrições do mundo ordinário” (p. 15).
Por ser considerada paraliteratura, a literatura pornográfica, segundo o autor, pode também ser tratada como discurso pornográfico, da mesma forma como existe o discurso político, o religioso e outros. Essa outra forma de se referir à literatura pornográfica surge por existir detalhes a serem observados para a classificação de uma obra como pornográfica. Maingueneau diz que a literatura pornográfica é composta por obras cuja temática, por completo, é desenvolvida sobre o tema, diferente das obras que possuem apenas passagens pornográficas.
O autor comenta também a diferença entre o obsceno, o pornográfico e o erótico. A obscenidade são as transgressões da sexualidade, e o autor deixa claro que essa definição pode variar de acordo com a cultura e o contexto histórico. O obsceno está mais presente na oralidade, embora o autor pontue que nada impede que as histórias, canções ou brincadeiras depravadas sejam compiladas em um livro. Já o erótico e o pornográfico são uma dupla, o primeiro é considerado superior por não descer ao nível do segundo, mas a pornografia não existe sem o erotismo. Maingueneau define o pornográfico como o discurso da verdade, enquanto o erótico “tapa o sol com a peneira” (p. 17), este é uma pornografia envergonhada.
Maingueneau divide a pornografia em canônica, tolerada e interdita. A pornografia canônica é compatível com os princípios gerais da convivência em sociedade e não inclui o perverso ou bizarro. O sadomasoquismo é um exemplo de comportamento que não faz parte da pornografia canônica; no entanto, ao longo do tempo, podem existir modificações do que é aceitável ou não dentro desse tipo de pornografia. O autor cita como exemplo a homossexualidade e diz que, atualmente, é normal e em um passado recente foi fortemente repreendida.
Enquanto isso, a pornografia canônica está dentro da normalidade e da legalidade e faz parte do princípio de satisfação compartilhada, a pornografia tolerada também faz parte do mesmo princípio e é legal, mas não se enquadra no conceito geral de normalidade e, por isso, não é tão difundida quanto a canônica, ela possui um público específico e marginal. Diferente dos outros dois tipos de pornografia, a interdita não se encaixa em nenhum dos conceitos mencionados, representa práticas que não são realizadas com o consentimento de todos os envolvidos no ato, como a pedofilia e o estupro.
Por ser um tema bastante visual, com suas descrições minuciosas que fazem o leitor se sentir um voyeur, a pornografia foi transposta do meio impresso para o audiovisual. A produção começou entre os anos 1960 e 1970 e hoje prevalece sobre a literatura pornográfica. O gênero criou um universo, e os seus produtos são vendidos em lugares especializados, os sex-shops. Não foram somente os produtos e a lojas que se especializaram
no gênero, mas o cinema também. Em 1975, 75% das salas de cinema na França eram reservadas para exibição de “filmes adultos”. Com o passar do tempo, o número de filmes distribuídos em videocassete aumentou e hoje em dia o mercado da pornografia está disponível em sites da internet.
Maingueneau chama a atenção também para que observemos quem escreve o texto pornográfico e aponta para a crescente presença das mulheres nesse tipo de escrita. A pornografia tradicional é assunto de homens, enquanto a “literatura feminina” acaba se encaixando na literatura sentimental. O autor aponta que “aquelas [autoras] que pretendem manter-se no quadro da escrita pornográfica tradicional tendem a se reportar ao filme pornô” (p. 121), enquanto outras, quando querem escrever textos do gênero, o modificam. Ele também aponta que existem maneiras de se considerar a pornografia no ponto de vista feminino e que uma delas é a de se adotar uma posição diferente, separando a pornografia tradicional, masculina, da feminina.
Linda Williams (2004), em seu livro Porn Studies, também comenta o erro em se separar o pornográfico, como algo ruim, do erótico, considerado bom. Ela diz, assim como Maingueneau, que não existe pornografia sem erotismo, portanto não há razão em julgar os dois separadamente.
Williams ainda comenta sobre o erro de se relacionar a pornografia e o estilo
hard-core ao público masculino, enquanto o soft-core porn e o erotismo, quando
mencionados, serem imediatamente ligados ao público feminino.
Anaïs Nin constrói personagens pedófilos, necrófilos e mutiladores de genitália, o que se enquadraria na definição de pornografia interdita apresentada por Maingueneau; ademais, como já dito, a autora descreve relações incestuosas e inúmeras orgias.
Mesmo escrevendo sobre esses temas controversos, a autora exibe uma escrita metafórica e, em seus diários, defende uma ‘escrita feminina’, o que a fez receber diversas críticas, principalmente do Colecionador. Até mesmo em seus contos de temas perversos, Nin mantém a mesma escrita metafórica em seu texto, exemplo disso é o órgão feminino que é sempre comparado a uma flor, e o lubrificante que sai dele é comparado ao mais doce mel. Em sua maioria, os contos têm mulheres como protagonistas. Dentre os 15 contos, 5 trazem nomes de mulheres nos títulos: “Mathilde”, “Lilith”, “Marianne”, “Elena” e “Linda”; ademais, “The Veiled Woman”, que conta a história de uma mulher que, através de um intermediário, paga homens para terem relações sexuais com ela. A escrita metafórica de Nin foi o que caracterizou sua literatura como erótica, além de apresentar o ponto de vista feminino.
Johansen (2004) fala sobre a literatura pornográfica sem tocar no termo ‘erótico’. Sua preocupação está em analisar a evolução narrativa de um texto pornográfico. Ele comenta, em seu texto Literature Pornography and Libertine Education, que, muitas vezes, o desenrolar da literatura pornográfica é considerado monótono, o que não é exclusivo da literatura em análise. Ele diz existir sempre as mesmas dualidades nos textos pornográficos, dor versus prazer e violência versus excitação. E diz ainda como a história avança, como a personagem vai se desenvolver, batalhando contra seus desejos retraídos, encontrando alguém que lhe faça experimentar novas sensações e, por fim, assumindo suas vontades e conhecendo, por conta própria, o que tem vontade, o que lhe desperta prazer.
É possível observar alguns pontos apresentados por Johansen nos contos de Anaïs Nin. Por exemplo, em “Elena”, pode-se perceber toda a trajetória descrita por Johansen no desenvolvimento da personagem. Mas não se pode afirmar que as narrativas que são apresentadas ao leitor, em Delta of Venus, são monótonas. Várias personagens descritas por Anaïs fogem do roteiro estabelecido pelo pesquisador. Em “The Veiled Woman”, a personagem principal, desde o início, sabe o que gosta e o que quer e se satisfaz em seus encontros furtivos com homens desconhecidos. O prazer da leitura não está somente em ver o crescimento e desenvolvimento da personagem, mas em viver, por algumas páginas, através dos olhos, do corpo e da pele dela.