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8.4 Hva var omstilling – og hva var omstillingens bakside?
No apêndice da terceira edição está o prólogo da segunda, como já dissemos. Nesse prólogo, por sua vez, está a advertência da primeira publicação da gramática. Nesse escrito, composto por quatro parágrafos, o primeiro e o segundo parágrafos tratam da divisão do assunto em duas partes. A primeira parte é uma sinopse reduzida das gramáticas vulgares, “trata perfunctoria ou detidamente das materias conforme se julgou necessario e exige por parte dos leitores o conhecimento prévio da grammatica elementar descriptiva” (RIBEIRO, 1889a, p. 323) 11.
Ribeiro nos esclarece que o texto dessa parte de sua obra foi baseado nas gramáticas que circulavam na época (“vulgares”).
A segunda parte,
porém, ás mais vezes escripta em caracteres de corpo menor, encerra o texto critico, declarações e desenvolvimentos de maior difficuldade de interpretação. Puz todo o cuidado em que fossem as partes ambas expurgadas de conjecturas, de doutrina controvertida ou ainda de algumas verdades averiguadas que exigem notavel esforço de comprehensão (Idem, p. 324).
Essa segunda parte do texto da gramática traz a elaboração de críticas, declarações e explanações as quais julgou serem necessárias. Ribeiro refere-se à caracterização do tamanho menor da fonte desse texto da segunda parte, feita para diferenciar o propósito e o conteúdo de tal texto. Ressaltamos o fato de que essa diferença é mantida na terceira edição da gramática, que temos em mãos, e esclarecemos que tomamos o cuidado de exprimi-la sempre que nos referimos a determinado trecho do texto de Ribeiro.
O autor declara, ainda, ter posto todo o cuidado “em que fossem as partes ambas expurgadas de conjecturas, de doutrina controvertida ou ainda de algumas verdades averiguadas que exigem notavel esforço de comprehensão” (Ibidem). O que nos leva a crer que Ribeiro se esforçara por dar um caráter didático à obra e garantir ao leitor a compreensão da mesma.
Em seguida:
Logo de começo me lembrou dar mais avultado incremento á parte historica; mas a poucos passos que dei reconheci que era de melhor parecer voltar ao intento primitivo, mas moderado e mas modesto (Idem, p. 324).
Vemos que o texto de Ribeiro demonstra sua preocupação em se posicionar quanto às posturas que assume em relação à produção da gramática. Um discurso que se pretende engajado, ao marcar o grau de envolvimento em relação ao que diz nessa advertência prévia da primeira edição de sua Grammatica Portugueza (3º anno), quando o autor lança mão de estratégias modalizadoras por meio das atenuações e ressalvas. Exemplos: “conforme se julgou necessario” (RIBEIRO, 1889a, p. 323), “a poucos passos que dei reconheci” (Idem, p. 324).
É possível confirmarmos essa postura também no parágrafo seguinte, que encerra a advertência:
A minha intenção foi a de escrever um livrinho útil e claro que desaffrontasse a glottologia elementar do imminente descrédito que, a olhos profanos, parece entre nós ameaçal-a. O critério historico, por já ser novidade, não necessita dos calamitosos excessos de alguns dos seus propugnadores. Tudo o que ha, houve, e vem de longe; é tempo de olharmos para atraz, de desabusarmos-nos dos nossos defeitos de revolucionarios. Hoje, com alegria o digo, é já impossivel desterrar o critério philologico do estudo das linguas, realisado o triumpho, convém que uma temperada sensatez o consolide tanto quanto podem desacredital-o os desconcertos de varios devotos errados (1889a, p. 323)
Na primeira frase desse parágrafo, Ribeiro justifica seu feito pela defesa em favor da glotologia e contra o descrédito dela, que afirma existir. Em seu Diccionario
grammatical, também lançado em 1889, define o termo glotologia como “nome dado por alguns philologos á sciencia da phonetica ou phonologia”, e afirma que “outros generalisam o termo para a sciencia geral da grammatica”. Acrescenta que “glossologia é termo preferível” (RIBEIRO, 1889b, p. 196).
Nesse encerramento da advertência, trata ainda do critério histórico, lançando uma crítica quanto ao excesso cometido por alguns em relação a esse critério, mas não apresenta os nomes aos quais caberia seu julgamento. Refere-se, por fim, ao critério filológico, afirmando a impossibilidade de tirá-lo dos estudos de língua. Feliz, diante desse triunfo, coloca-se como gramático que não só consolidará tal êxito diante de qualquer descrença como também o fará com uma “temperada sensatez”. Seu discurso parece
demonstrar um autor que busca a larga aceitação de sua obra ao se apresentar ao leitor, com toda polidez, como autor consciente, crítico, e seguro de seu feito.
Nessas palavras finais, Ribeiro trata de termos que causaram embates nos estudos linguísticos na época: linguística, glotologia e filologia. Quanto à abrangência dos termos, vemos, a seguir, o que seu Diccionario grammatical apresenta.
De tudo porém, parece que a opinião victoriosa ou pelo menos a que conta maior numero de adeptos é a que considera linguistica como a sciencia dos factos da linguagem espontânea, popular, em todos os idiomas e a philologia como a sciencia dos factos litterarios e eruditos que se referem ás linguas. A philologia abrange a crítica, o commentario dos textos antigos, a historia das linguas, principalmente naquillo que ellas possuem do elemento litterario e culto; a
linguistica apenas estuda a linguagem como expressão do pensamento, como fórmula exterior articulada da intelligencia humana em acção. O termo linguistica é usado especialmente pelos franceses e corresponde a denominação de Sciencia
da linguagem de uso commum entre os inglezes. A palavra glottologia tem a significação mais restricta e estuda a linguagem apenas quanto aos fatos physiologicos, ás alterações dependentes dos orgãos vocaes. Estas definições, porém, não estão sufficientemente fixadas, por nenhum uso de grande generalidade entre os escriptores e é bem provavel que ainda durante muito tempo continue a confusão (RIBEIRO, 1889b, p. 274).
Em nota, expande sua explicação:
Na Allemanha (e raro na França) o termo philologia designa quasi toda a cultura de lettras, artes, costumes, diplomaticia, epigraphia, etc. [Vide S. Reinach. Man.
phi. class.] A vasta extensão do termo philologia foi limitada por um adjectivo:
philologia comparada e nesse estado não differe essencialmente da linguistica (Idem).
Ribeiro expõe a problemática existente na época quanto aos termos e prevê a longevidade de tal situação. De fato, confirmamos sua previsão quanto à extensão dessa questão, uma vez que tais conceitos ainda se encontram no rol das discussões dos estudos de língua.