Um claro exemplo das consequências no plano social, especialmente à população de menor renda, da realização de megaeventos pode ser verificado nas cidades-sede das Copas do Mundo. Nelas, em virtude das obras de infraestrutura para a realização dos jogos, o aprofundamento dos processos de diferenciação e segregação socioespaciais aparecem como nítida tendência.
Em relação à Copa do Mundo de 2014, cujas subsedes serão doze capitais brasileiras, entre elas São Paulo72, ao mesmo tempo em que o lucro esperado pela FIFA (Federação Internacional de Futebol) é de 3,8 a 3,9 bilhões de dólares (1,6 bilhões de dólares apenas em ingressos), a previsão de despejos devido às obras é de mais de 300 mil famílias até 201473. Além da expulsão de famílias, haverá restrições radicais às atividades que serão desenvolvidas nos arredores do estádio, nos chamados “territórios FIFA”, em uma clara higienização social.
71 Tradução nossa do original em francês: “Initiés par les pouvoirs publics, ou par le secteur privé, et bien
souvent dans une articulation des deux, les mécanismes récents d’affectation et de réaffectation des espaces urbains touchent les populations selon des modes différenciés. Déjà mises à distance, des populations entières sont davantage évincées, déplacées, ségréguées à des fins de revalorisation de l’image des métropoles”.
72 Há um material extenso sobre Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, com destaque para as desapropriações e
despejos no Rio de Janeiro. Nosso foco aqui foi São Paulo.
73 Informações respectivamente citadas por Kazuo Nakano e pelo Defensor Público Jairo Salvador de Souza, no
evento “Os impactos sociais da Copa de 2014 em debate”, realizado pela Defensoria Pública de São Paulo no dia 24 de outubro de 2011.
136 A realização desse evento justifica, no discurso, que vultosos investimentos sejam aplicados em infraestruturas em detrimento de investimentos sociais mais urgentes e inevitavelmente necessários em curto prazo (mesmo que não resolvam as contradições dos processos que os originaram) (tabela 7). Em São Paulo, haverá, por exemplo, o financiamento
público de, no mínimo, 400 milhões de reais para o estádio do clube de futebol Sport Club Corinthians Paulista para os jogos da Copa.
Tabela 7. Gastos públicos previstos com a realização da Copa do Mundo, 2011
Investimentos não vinculados às cidades-sede (Cultura: 3 milhões; Desenvolvimento Turístico: 40,1 milhões; Esporte: 29,3 milhões; Promoção Comercial e Tecnológica: 15,2 milhões). Fonte: Observatório das Metrópoles (2011).
Os discursos do crescimento, de apelo cultural e de “sacrifício coletivo”, que legitimam a realização da Copa do Mundo de 2014, defendem que uma série de projetos de requalificação e intervenções espaciais seja realizada na medida em que a “realização da Copa é, por si só, um ato extraordinário” 74
. Esses megaeventos apenas se realizam por meio de uma “cidade de exceção” conforme termo de Vainer (2011) e sobre o qual discorremos no capítulo três.
74 A Copa do Mundo, segundo o Ministério do Esporte, justifica a suspensão ou flexibilização de algumas leis
por ser "um ato extraordinário gerador de novas demandas não previstas na legislação interna do País". Material disponível em < www.copa2014.gov.br >. Acesso em 23 de jan. 2011.
137 Na cidade de São Paulo e em demais cidades-sede, moradores se organizaram em Comitês Populares da Copa para divulgar as práticas autoritárias que são realizadas visando à realização do evento:
Preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, ele fala [este Dossiê] do lado obscuro destes mega-eventos. Ele fala de dezenas de milhares de pessoas (170 mil, segundo estimativas conservadoras),cujo direito à moradia está sendo violado ou ameaçado. Ele fala de milhões de cidadãos a quem o direito à informação e à participação nos processos decisórios tem sido atropelado pelas autoridades constituídas, assim como por entidades privadas (Comitê Olímpico Internacional, Comitê Olímpico Brasileiro, comitês organizadores locais dos eventos) e grandes corporações, a quem os governos vêm delegando responsabilidades públicas. Ele fala de desrespeito sistemático à legislação e aos direitos ambientais, aos direitos trabalhistas e ao direito ao trabalho (Dossiê da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, 2011: 06).
Embora parcelas da população questionem os megaeventos e reivindiquem maior participação na elaboração e implantação desses projetos, apresentam, no geral, pouca força para o embate contra estratégias capitalistas ancoradas em consensos já bem enraizados e difundidos.
Destacamos, por fim, que apenas a possibilidade de que determinada intervenção vinculada à realização da Copa ocorra já justifica outros projetos e intervenções. A realização dos jogos da Copa no estádio do Morumbi justificou, por muitos meses, antes da decisão de qual seria o estádio que abriria a Copa do Mundo em São Paulo, parte das intervenções da Operação Urbana Butantã - Vila Sônia:
Explorar de forma abrangente as possibilidades urbanísticas vinculadas à realização de jogos da Copa do Mundo de 2014 em São Paulo. Este é objetivo central deste workshop. E significa desdobrar, articular e prolongar as exigências técnicas irrecorrivelmente ditadas pela FIFA com ações de
atualização e efetuação das singularidades e potencialidades técnicas,
sociais e ambientais que constituem o setor oeste da cidade, particularmente
Butantã e Vila Sônia. (...). A intenção de explorar, com a produção de
material qualificado arquitetônica e urbanisticamente, alguns lugares e questões mais sensíveis ao tema de realização de jogos da copa do mundo no estádio do Morumbi, se impõe, impondo a relativa redução da complexidade. Portanto, reconhecer e aceitar esta regra do jogo é uma opção a ser feita (...). As hipóteses a serem trabalhadas não são fruto de uma ideia ou proposição particular do grupo organizador ou da municipalidade: a rigor,
surgem do cruzamento das exigências da FIFA (...) com uma pauta de ações
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destacado no Plano Diretor da Cidade como “Operação urbana consorciada Vila Sônia” (grifos do autor) 75.
As estratégias capitalistas atendendo aos interesses econômicos e políticos ganham ainda mais força quando, nos chamados megaeventos, envolvem temas como o futebol e outros jogos esportivos, os quais possuem um forte apelo social e tornam ainda mais difícil desmanchar os consensos.