10 Samlende diskusjon, konklusjoner og anbefalinger
10.4 Anbefalinger
10.4.4 Hva må gjøres?
É nessa dialética que se fundam as imagens críticas, que são imagens em tensão. Por isso Benjamin, ao descrevê-las, trata-lhes como sendo a dialética em suspensão. Tendo em vista que cada imagem, em sua cognoscibilidade, é um misto de presente e rememoração, seu caráter dialético está na relação entre presente e passado. A imagem fugidia do passado é detida pela imagem dialética, que faz aparecer em si o tempo detido. Sua pretensão, assim, é a de captar o tempo. Nelas, a dialética está na imobilidade – uma tensão onde um termo não se reduz ao outro – e é essa harmonia de contrários que cria a conexão, forma-se uma constelação entre o ocorrido com o agora. Passado e presente reluzem conjuntamente na imagem. Como em um lampejo, ambos se encontram irredutíveis um ao outro, fazendo com que elas, as imagens, sejam sempre tensas, sempre em crise.
Vale insistir que a imagem dialética consiste na tensão temporal de imagens, na qual presente e passado se explicam mutuamente em tempo de magia, não em linearidade temporal em que um momento sucede ao outro. Ao contrário, a história, que reluz na imagem, não consiste na disposição sequencial e retilínea de eventos – concepção, diga-se de passagem, homogênea, vazia e progressiva. Antes, como diz Benjamin, “A história se decompõe em imagens, não em histórias” (BENJAMIN, 2007, p. 518). Na dialética da imagem o passado reluz no instante da rememoração. Sua ressurreição no presente como imagem o reabilita, torna- se a presença de uma ausência. Ele é salvo da morte a que estava condenado, o esquecimento. O passado é redimido no presente da imagem dialética.
A noção de história segundo Benjamin, não sendo a retilínea construção de um transcorrer temporal vazio, mas de imagens, implica na sua compreensão como produto da memória. A legibilidade do passado está na relação com o presente como a do presente para com o passado porque na imagem dialética passado e presente se encontram, formando uma constelação. Tal legibilidade precisa ser entendida não como necessidade, porque não é um que ilumina o outro, mas ambos se iluminam. Também não formam síntese, mas aparecem irredutíveis um ao outro como num relâmpago – trata-se de uma relação de disjunção que não se resolve, o que lemos a partir dialética kierkegaardiana e sua visão de que a existência não é um “e – e”. O esplendor temporal, a força da memória, gera um tecido de recordações e palavras que chamamos imagens. Qualquer conceito que se possa extrair de tais imagens deve ser entendido como um modo do pensamento teórico de entender a imagem combinando seus distintos elementos. “As ideias se relacionam com as coisas como as constelações com as estrelas” (Idem, 1984, p. 56).
As constelações estelares são lidas nas junções que se fazem dos pontos luminosos no céu. As constelações que compõem as imagens dialéticas são lidas nos ordenamentos que se fazem da relação de tudo o que a memória evoca, das descontinuidades de que se forma a história. As imagens abrigam o tempo, são sua estatificação. No seu interior, está todo o devir. Por isso são efêmeras, frágeis, fluídas; porque se compõem de temporalidade. Mas têm densidade porque guardam em si toda a história. São como gravuras perceptivas que se modificam com outras experiências. A um só passo, movimento e estatificação. A cada olhar, a imagem dialética é reconhecida e carece ser interpretada, porque é a mesma e não é. A tensão que põe a dialética em imobilidade faz com que o olhar deslize entre presente e passado e estabeleça por si as conexões. O deslizar, portanto, o movimento, é fruto da mesma tensão que estatifica – mas ainda assim, sem formar uma mediação sintética no sentido hegeliano.
Na imagem dialética, diferentes tempos se encontram, são conjurados em uma imagem- recordação. Esse encontro surge em um átimo de tempo, em um instante efêmero. E o instante é um misto de eterno e temporal ou uma eternidade habitada pelo devir. O instante é uma fratura no tempo, o que faz da história um descontínuo. Não é um somatório sintético (et-et), mas disjunções (out-out). Entretanto, é o que possibilita tanto o paradoxo da imagem dialética como um lugar ao passado constituindo a tradição. O passado é o que volta ao presente por força do recordar. Sua relação com o presente é dialética, mas dialética de tensão, porque ambos não se misturam, mas se encontram. No rio do tempo há um turbilhão que irrompe com o curso das coisas e revolta as águas. A gênese das imagens dialéticas é esse redemoinho.
Benjamin apresenta uma síntese desse pensamento no seguinte parágrafo:
Não é que o passado lança sua luz sobre o presente ou que o presente lança sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal e contínua, a relação do ocorrido com o agora é dialética – não é uma progressão, e sim uma imagem, que salta. – Somente as imagens dialéticas são imagens autênticas (isto é: não-arcaicas), e o lugar onde as encontramos é a linguagem. Despertar. (Idem, 2007, p. 504).
O agora da imagem, o instante, é concebido em Benjamim como um diferencial de tempo capaz de contrair e recolher a totalidade temporal. Nela, presente e passado aparecem simultâneos, entrando o tempo em repouso. A ruptura temporal se dá desde dentro e é dessa ruptura que surge o novo, o mundo que constitui a imagem dialética. Esta é real somente no instante. É o encontro entre passado e presente, no seu interior, que a gera. O que corresponde a dizer que ela é gerada por aquilo que abriga, que é contendora e conteúdo. Só a partir disso se pode entender a historicidade como ruptura, em um tempo que corresponde a um fractal, cuja
característica fundamental é a da autossimilaridade, na qual cada parte repete o todo. O instante abriga a totalidade da história e a história se compõe de rupturas.
A legibilidade da história está toda na imagem, uma vez que a memória, produtora da história, dá lugar a imagens, compostas de recordações e palavras. Na imagem está a ideia do mundo. Ela é gerada pelo mundo que gera. Como uma meia que, enrolada sobre si, guarda a si mesma, também a imagem guarda o mundo (Idem, 1987, p. 39-40). A imagem é ponte que estabelece ligação entre uma dupla distância, a verdade da coisa em si e o como ela se apresenta, a percepção do sujeito e a significação que dá ao percebido. Nela, tudo isso se imbrica, evocando o sistema cultural e significante que a gera, mas que por ela é guardado. A ponte é originária na imagem dialética.