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10 Samlende diskusjon, konklusjoner og anbefalinger

10.2 Den sjette prioriteringen: En eksperimenterende etos

Segundo Octavio Paz, grande poeta e ensaísta mexicano, uma imagem consiste em uma unidade simbólica que preserva em si uma pluralidade de significados. Ela os abarca ou reconcilia sem suprimi-los e, por isso, não necessariamente opera síntese no sentido da dialética hegeliana. Muito embora o autor trate predominantemente da imagem poética, é esta, antes de tudo, imagem. Aquilo que ela tem de específico não exclui o que traz de comum com outras imagens como as da percepção. Por isso, sua definição é útil para a compreensão de toda e qualquer imagem. Sobre sua constituição, afirma Paz:

Quando percebemos um objeto qualquer, este se nos apresenta como uma pluralidade de qualidades, sensações e significados. Esta pluralidade se unifica, instantaneamente, no momento da percepção. O elemento unificador de todo este conjunto de qualidades e de formas é o sentido. As coisas possuem um sentido. Mesmo no caso da mais simples, casual e distraída percepção dá-se uma certa intencionalidade, segundo demonstraram as análises fenomenológicas. Assim, o sentido não só é o fundamento da linguagem como também de toda apreensão da realidade e, ao mesmo tempo, outorga-lhe unidade. Até aqui o poeta não realiza algo que não seja comum ao resto dos homens. (PAZ, 1976, p. 46)

O símbolo homogeneíza em si significante e significado mantendo-se ambivalente. Ou seja, pode abrigar diversos significados, às vezes díspares. No campo simbólico as águas de um poço diferem das águas de uma poça22. E uma imagem é sempre símbolo à medida que contém essa diversidade de significados, realidades indiferentes ou distanciadas entre si, aos quais, sem suprimir, abarca ou reconcilia, aproxima ou conjuga. A pluralidade do real é submetida à unidade sem que seus elementos percam seu caráter concreto e singular. Visão muito próxima à de Durand tratada no primeiro capítulo.

O método das ciências tende a uma redução quantitativa. Os elementos de uma imagem perdem seu caráter concreto e singular, suas qualidades e autonomia, empobrecendo-se e sendo mutilados. Assim, um quilo é sempre um quilo independentemente de o serem de plumas ou de pedras. A pluralidade de significados que uma pedra possui (pedra de tropeço, pedra angular, pedra fundamental etc.) é reduzida ao seu aspecto de peso – mensurável, quantificável. No que concerne às próprias imagens, o símbolo de uma pedra não perde sua polivalência e, nem por isso, sofre obrigatoriamente uma transmutação qualitativa. O símbolo da pedra não é necessariamente uma síntese, no sentido hegeliano, de todos os seus significados. Cada um pode permanecer em sua concretude e singularidade no mesmo símbolo.

O poeta nomeia as coisas: estas são plumas, aquelas são pedras. E de súbito afirma: as pedras são plumas, isto é aquilo. [...] Enfim, apesar de muitas imagens se desdobrarem conforme a ordem hegeliana, quase sempre se trata antes de uma semelhança do que de uma verdadeira identidade. No processo dialético pedras e plumas desaparecem em favor de uma terceira realidade, que já não é nem pedras nem plumas, mas outra coisa. Mas em algumas imagens – precisamente as mais altas – continuam sendo o que são: isto é isto e aquilo é aquilo; e ao mesmo tempo, isto é aquilo: as pedras são pluma, sem deixar de ser pedras. O pesado é o leve. Não há a transmutação qualitativa que a lógica de Hegel exige, como não houve a redução quantitativa da ciência. Em suma, também para a dialética a imagem constitui um escândalo e um desafio, também viola as leis do pensamento. (Ibidem, p. 38-39).

Os elementos de uma imagem se apresentam simultâneos, omitindo, desse modo, os princípios de não-contradição dialético e o de processo que implicaria alguma linearidade. Disso decorre que a leitura de uma imagem deve ser feita em uma perspectiva não-linear, mas uma que vagueia sobre seus diferentes significados e a eles retorna – porque a imagem não deixa de ser, ao mesmo tempo, todos os seus significados sem se ater univocamente a um23. A

22 Já se tratou desse tema na p. 24.

23 Talvez caiba aqui a noção de leitura circular ou de eterno retorno como desenvolve Flusser e se dirá mais adiante.

coexistência de contrários é dinâmica e necessária, de modo que os diversos elementos têm sua independência ao mesmo tempo em que se complementam mutuamente, como ocorre na relação em que “a afirmação só o é diante da negação” (Ibidem, p. 41). Não só há esse princípio de contradição complementária, mas também de identidade entre os contrários, em que isto é aquilo.

No caso das imagens humorísticas, Octavio Paz reconhece seu caráter paradoxal. Tomando como referência a estrutura dialética, afirma que nelas o terceiro termo de uma relação dialética não é produzido. Primeiro e segundo termo aparecem irredutíveis um diante do outro, permanecendo o que são – o que ele caracteriza como imagens altas. Elas são e não são, ao mesmo tempo, cada um de seus componentes. São todas e poder-se-ia dizer que não são individualmente nenhuma de suas partes. A contradição inerente às imagens de humor assinalaria “o caráter irreparavelmente absurdo da realidade ou da linguagem” (Ibidem, p.39). O que não se trata de ausência de sentido.

Como as imagens possuem um caráter de expressão da experiência do mundo que o sujeito faz, encontrarão no mundo representado seu sentido – em um nível de autenticidade ou verdade psicológica. Trazem também um sentido objetivo por constituírem unidades em si mesmas. Possuem realidade, consistência e lógica própria, válida em seu próprio universo de significação. Seu sentido encontra-se nelas mesmas, em como aparecem, caracterizando sua verdade como estética ou relativa à sua própria existência. Ainda que análogas aos objetos da percepção, aquelas são independentes em relação a estes. Por fim, o terceiro nível de sentido encontra um dado de revelação. Não só se fundamentam no mundo, mas dizem algo do mundo. Não só se formam na representação humana, mas revelam algo do sujeito que as representa. As imagens sempre dizem algo, do mundo e de nós, que revela o que somos.

Se o mundo da representação é constituinte do sujeito que o representa, formando com ele uma unidade, e o faz por imagens, trata-se da imagem uma unidade que reconcilia a existência e a subjetividade. Recompõe a unidade do real sem eliminar a tensão entre o mundo objetivo e subjetivo. Reconciliação que elimina a distância entre imagem e sua significação. O sentido da imagem passa a ser ela própria, ela é aquilo que representa. Por isso o paradoxo que a constitui é sentido em si. Daí o absurdo das imagens humorísticas – que poderiam se afigurar como ausência de sentido ou um non-sense – serem sentido em si mesmas, deslizando na pluralidade de seus elementos; cuja contradição se afigura à razão como falta absoluta de sentido. Mas é aqui que ele, o sentido, se encontra. Paz nos dá uma definição dessa operação ao falar sobre os tipos de imagem:

Certo, nem em todas as imagens os opostos se reconciliam sem destruir-se. Algumas descobrem semelhanças entre os termos ou elementos de que se compõe a realidade: são as comparações, segundo Aristóteles as definiu. Outras aproximam “realidades contrárias” e produzem assim uma “nova realidade”, como diz Reverdy. Outras provocam uma contradição insuperável ou um sem-sentido absoluto, que denuncia o caráter irrisório do mundo, da linguagem ou do homem (a esta classe pertencem os disparos do humor e, já fora do âmbito da poesia, as piadas). Outras no revelam a pluralidade e interdependência do real. Há, enfim, imagens que realizam o que parece ser uma impossibilidade, tanto lógica quanto linguística: as núpcias dos contrários. Em todas elas – apenas perceptível ou inteiramente realizado – observa-se o mesmo processo: a pluralidade do real manifesta-se ou expressa-se como unidade última, sem que cada elemento perca sua singularidade essencial. (Ibidem, p. 49).

A unidade que a imagem reconcilia em si, entre o mundo representado e o mundo da representação, é função “magicizante” do mundo, porque retoma a experiência pré-analítica da realidade. Se a razão se atém às distinções e à pluralidade do real, operando analiticamente, a magia da imagem recompõe a unidade primordial entre o homem e o mundo. Faz necessário, agora, adentrar no mundo mágico da imagem visual.