afetos, mas não da autoridade e do saber, também encontra um grande expoente na cultura religiosa judaico-cristã. Para isso, basta lembrarmos que o mito cristão de Eva a coloca como aquela que foi criada – ressalte-se – depois de Adão, a partir de um “osso acessório”, para lhe servir de companhia, e se deixou ser levada pela sedução, condenando a humanidade ao pecado. Esse papel de Eva na história da criação impõe às mulheres, segundo o texto bíblico, fortíssimas restrições, tais como as dores de parto e a subjugação de seu desejo ao de seu marido. “E à mulher disse: ‘Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.’” (Gênesis 3:16)83. Dessa forma, a subjugação e a dominação dentro do contexto do Antigo Testamento se dá por “ordem divina”. Essa relação de subjugação da mulher pelo homem permeará todo o Velho Testamento e, em várias ocasiões, tal relação será relembrada pelo texto bíblico. Podemos citar como exemplo as personagens de Sara, esposa de Abraão (Gênesis 13) e Ana, esposa de Elcana, mãe de Samuel (I Samuel 1), todas estas representadas como submissas aos seus maridos e colocadas no papel de “auxiliadoras afetuosas”, mas nunca como personagens principais em suas histórias, a não ser na condição de mães. Outra questão relevante que aparece dentro do contexto bíblico do Antigo Testamento é o fato de a mulher poder ser “comprada” pelo seu marido, ou devolvida em caso de não satisfazer à demanda da casa (livro de Levíticos). Ainda no Velho Testamento, a associação do feminino com o descontrole, a desordem e a falta de racionalidade está presente no livro de Provérbios: “A mulher louca é alvoroçadora; é néscia e não sabe coisa alguma” (Provérbios 9:13).
No Novo Testamento, essa relação acessória, mesmo sendo deixada de lado na trajetória de Jesus (que, sabemos, era muito ajudado pelas mulheres que o seguiam), é retomada com grande veemência pelo apóstolo Paulo. Em várias de suas cartas, ele dá ordens incisivas sobre o “lugar” da mulher dentro da congregação: secundário e, muitas vezes, não importante. Na primeira carta aos Coríntios, ele exorta que “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem é a cabeça da mulher.” (I Coríntios 11:3). Ainda nesta carta, Paulo admoesta de forma incisiva para que “[...] as mulheres permaneçam caladas na igreja, pois não lhes é permitido falar, mas estejam sujeitas como ordena a lei. E, se querem aprender
83 Todas as citações aqui utilizadas derivam da versão traduzida da Bíblia de Estudo Scofield. Cf. seção
alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.” (I Coríntios 14:34-35). Outro exemplo de como o apóstolo Paulo entendia o papel da mulher se encontra na primeira Epístola a Timóteo: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine nem use de autoridade sobre o marido, mas que permaneça em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.” (I Timóteo 2:11-13). O papel da mulher submissa, silenciada, dócil, voltada aos afetos, à família e ao lar, mas não à voz de autoridade racional da pregação e da evangelização, é uma constante na tradição cristã inaugurada por Paulo, reforçando as raízes religiosas da hierarquia sexual84.
Ainda nos dias de hoje, no meio do protestantismo, especialmente as igrejas evangélicas pentecostais (como, por exemplo, no contexto brasileiro, a Assembleia de Deus ou a Deus é Amor), conhecidas pelo rigor nos usos e costumes prescritos a seus fiéis, parecem reforçar a leitura bíblica de subalternização do feminino. As mulheres seguidoras dessas igrejas, ainda que na contemporaneidade, são recomendadas a agirem de maneira extremamente submissa a seus maridos, a se colocarem em uma posição de cuidado do lar – mas não de decisão dentro dele –, a se vestirem recatadamente e a agirem de forma extremamente comedida. Na Deus é Amor, por exemplo, as mulheres não podem usar calça jeans, são recomendadas a não cortarem seus cabelos, a não usarem brincos ou maquiagem, tudo isso ancoradas em leituras interpretativas de certos textos bíblicos.Também algumas igrejas neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça de Deus, a Sara Nossa Terra ou a Renascer em Cristo parecem contribuir com tais representações, ainda que de forma menos incisiva. Algumas dessas igrejas até mesmo publicam obras de autoajuda dirigidas à mulher protestante85, reforçando hábitos e posturas recomendáveis à “mulher cristã” por meio de conselhos sustentados na voz de autoridade do texto bíblico.
84 Santo Agostinho, por exemplo, declararia que “a mulher é um animal que não é firme nem estável.” (apud
BEAUVOIR, 1970, p. 16). Não podemos deixar de mencionar, entretanto, que, após o Concílio Vaticano II, percebeu-se – especialmente na América Latina, Ásia e África – o advento das pesquisas filiadas à teologia feminista, as quais procuram reler os escritos bíblicos e as estruturas eclesiais a partir da ótica da mulher. Dessa forma, nota-se um crescente movimento científico de contracultura religiosa que intenta ampliar o lugar do feminino nesse âmbito.
85 Como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que tem em Cristiane Cardoso, filha do pastor-
fundador, Edir Macedo, uma de suas maiores expoentes femininas. Cristiane já publicou uma série de livros com esse intuito, como Melhor do que comprar sapatos (2006), Mulher V (2011) e Casamento blindado: o seu casamento à prova de divórcio (2012) e, atualmente, apresenta, junto a seu marido, um programa televisivo destinado a casais cristãos na rede Record, o The Love School. Por questões de extensão, não poderemos abordar detidamente suas publicações e seu programa.
Ainda passando pelo âmbito da religião, não podemos deixar de lembrar também, nesse percurso de subalternização do feminino e das emoções, do movimento de perseguição política denominado como “caça às bruxas”86. A condenação das mulheres feiticeiras, tidas como hereges, ocorreu principalmente na Europa Ocidental, desde a Idade Média até a Idade Moderna (do século XV aos séculos XVI/XVII), mais uma vez vinculando o feminino ao que fugiria da Razão e do Bem. As antigas seitas pagãs e matriarcais das quais participavam essas mulheres eram tidas como satânicas, pois pretendiam “[...] curar os corpos não somente com ervas, mas com elixires elaborados por elas e com fórmulas esotéricas” (PERROT, 2007, p. 89), constituindo uma ofensa às religiões tradicionais, mas também à razão e à medicina modernas, por suas práticas mágicas. Não por coincidência, diz-se que o momento mais forte da perseguição inquisitória às bruxas se deu entre 1550 e 1650, de forma paralela à gênese da chamada “Idade da Razão”.