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3.2 Renteparitet

3.2.4 Hva andre har funnet om udekket renteparitet

Comecemos pela tradição grega. Para Platão, a alma estaria ligada à racionalidade absoluta, e o corpo é que seria suscetível ao abalo das emoções. Sábio seria aquele que conseguisse controlar/eliminar suas paixões a fim de atingir o Bem ideal, que estaria vinculado à razão. Segundo Meyer (2003), Platão recorre, nos diálogos de Fedro, a uma alegoria para exemplificar tal defesa:

A alma é comparada a animais atrelados, conduzidos por um cocheiro que tenta harmonizar os puxões dos cavalos que se lançam em direções opostas. Eles simbolizam de fato o apetite sensível e a força de resistência a esse apetite, enquanto o cocheiro representa o julgamento da razão sã43. (MEYER, 2003, p. XXI).

No raciocínio platônico, a razão tenderia, portanto, para um Bem, e o conhecimento deste levaria naturalmente a praticá-lo, porque ninguém seria mau voluntariamente. O mal seria fruto, portanto, da ignorância, da ausência da razão, puro produto da paixão, cega e automática, como a sede que induz a beber. O sábio contemplaria o Bem e conseguiria dominar ou eliminar suas paixões, tal qual na metáfora transcrita. Em conclusão, para Meyer (op. cit., p. XXIII), Platão apregoa que “a paixão é o que faz com que eu ignore; a razão, que eu conheça; e a força de vontade, que eu possa aprender.” Trazendo à memória o fato de que Platão centra-se na defesa do logos apodítico – o que deve ser necessariamente verdadeiro, ou demonstrável, ou que admite certeza para além de qualquer dúvida, portanto vinculado à razão e ao saber –, o pensamento platônico acaba por excluir do que considera como válido as dimensões do crer, como o contingente, o possível, o verossímil (lembremo-nos da crítica à retórica sofística, vista como engodo), a doxa e, por consequência, as paixões.

A esse respeito, cabe lembrar que, em sua República, Platão baniu os poetas que seriam, a seus olhos, culpados de atiçar emoções prejudiciais à serenidade racional da cidade. O ideal do cidadão seria realizado por meio de uma temperança inabalável diante das circunstâncias. Toda palavra proferida, toda relação social deveria ser estabelecida com comedimento e controle dos sentimentos, visando a uma atitude de rigor moral face ao mundo (LE BRETON, 2009, p. 114).

43 É interessante perceber que o caráter pejorativo que cerca as paixões já é perceptível na formação

morfológica/etimológica de alguns termos de emoção. A razão é “sã”, é sadia; as emoções são paixões doentias, o que resultará em termos semanticamente negativos, como “patologia” e “patético”.

Ainda na tradição grega, Aristóteles, discípulo de Platão, é certo, dedicou o segundo tomo da Retórica exclusivamente às paixões, mas também centrou seu olhar filosófico sobretudo no logos, na racionalidade. Dessa maneira, acabou por se diferenciar de seu mestre por acreditar que as emoções deveriam ser ao menos conhecidas a fim de que se pudesse controlá-las. Afinal, as paixões seriam parte da natureza humana, mas seu domínio seria fundamental à educação do homem: “A razão é uma paixão refletida, portanto contida, subordinada a um fim pensado”. Saber reconhecer e orientar as paixões, efetuando um controle harmonioso das disposições emocionais, seria, nesse sentido, uma possibilidade de conhecimento de si e dos outros a favor do bom convívio social, o que traria uma finalidade ética às paixões. Meyer (2003, p. XXXVI), no entanto, dá mais ênfase ao olhar receoso do pensador frente a elas: “Aristóteles, que entretanto admite as paixões e não as condena a priori exceto por seus excessos, não as aprecia verdadeiramente.”44.

Outra corrente filosófica que fará um grande uso da dicotomia proposta por Platão é o estoicismo. Este se comporta como uma grande escola datada mais ou menos entre os séculos dois e três antes de Cristo. A partir de Brun (1986) e Gourinat & Barnes (2013), pode-se perceber que uma das principais características do estoicismo se reflete no conceito de Apatia45. Para o estoicismo, haveria uma razão universal que coordenaria o mundo, de forma que todas as coisas seriam regidas por ela. Dessa forma, o homem sábio seria aquele que compreende o estatuto dessa razão universal e, por isso, não se perturbaria com aquilo que não pudesse ser mudado por ele. Se a razão universal coordena todas as coisas, o papel do sábio é o de se render a essa razão no que concerne às coisas fora de seu alcance. Dessa forma, o ideal sábio estoico seria aquele que teria conseguido dominar as suas paixões e não se deixar influenciar por nada que lhe fosse externo. As emoções devem ser dominadas por meio da razão, pois, apenas a partir desse domínio, é que seria possível alcançar a “ataraxia” ou “tranquilidade de alma”. Enquanto a alma se perturbasse nos redemoinhos das emoções, nunca seria possível se voltar para a tentativa do conhecimento dessa razão que coordena as coisas. Para Zenão46, as paixões são “como movimentos irracionais e antinaturais da alma.” (LE BRETON, 2009, p. 115). A apatia se constitui como um grande muro para o sábio estoico, de forma que nada exterior lhe atinge. As emoções estão todas domadas, e ele pode

44 Mais adiante, no Capítulo 3, retornaremos a Meyer quando estivermos contemplando as paixões em sua

abordagem linguística/discursiva/neorretórica, e veremos de que maneira ele relê os escritos aristotélicos a fim de apresentar as emoções como estratégias de persuasão e de regulação de distâncias entre os sujeitos.

45 Do grego a-pathós, ou simplesmente “sem paixão”.

alcançar a tranquilidade de alma e se submeter à razão universal que tudo coordena. Sabe-se que essa doutrina estoica influenciou bastante, por exemplo, o pensamento cristão medieval e toda a sua conhecida proposta de abnegação do corpo.