• No results found

Neste item apresentamos alguns exemplos de advérbios que sofreram o processo de gramaticalização:

EXEMPLO 01:

- Hoje há os corpos malhados, excessivamente nus, montanhas de bundas competindo em falsa liberdade, pois ninguém tem tanto tesão assim, ninguém é tão livre assim. (De Camisa Amarela, Volto Aos Grandes Carnavais, p. 60)

- ASSIM: de acordo com as gramáticas é um advérbio que significa desse, deste ou daquele modo. De acordo com o dicionário Houaiss, esse item lexical pode ser uma conjunção e também funcionar como um marcador discursivo indicando a retomada de palavra por um dos participantes da interação comunicativa, mas, da maneira como está sendo usado no exemplo, tem valor anafórico, pois o elemento faz alusão a um fato mencionado anteriormente no texto. Ocorreu, portanto, de acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002) o Princípio da Descategorização, ou seja, a palavra perdeu sua categoria e autonomia, por conta do processo de gramaticalização, adquirindo, dessa forma, um outro sentido, o que não significa dizer que ela perdeu ou anulou completamente seu sentido, mas perdeu sua autonomia, vindo a obter outro sentido além do original. Segundo Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirma que, nessas ocorrências, aconteceu o Princípio da sintagmatização e reanálise, que é um mecanismo de mudança pelo qual o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem e essa reorganização estrutural do enunciado pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada. Também o Princípio da Continuidade e do Gradualismo está presente, pois a gramaticalização inovou, gradualmente, a estrutura das línguas durante o processo de comunicação na interação entre os usuários.

EXEMPLO 02:

- Mas, você pode me perguntar, ingênuo sessentista, por que, então, eles não mudam o mundo? Bem, primeiro eles não são burros e sabem que a sociedade hoje, com sua delirante complicação, não se presta a oposições simplistas ou otimistas fáceis. (Onde Estão Os Hippies, Agora Que Precisamos Deles, p. 90)

- BEM: do ponto de vista gramatical “bem” é advérbio de modo; porém, de acordo com a visão funcionalista, essa palavra pode marcar o início de uma conversa, passando a desenvolver a função de marcador discursivo, servindo para organizar as informações e estabelecer a interação entre os falantes. Isso quer dizer que ela deixou de exercer a função de advérbio de modo e passando a exercer a função de marcador discursivo. O autor usa o bem para indicar que iniciará o discurso a partir daquele ponto. Nesse caso, a expressão indica que o falante vai retomar a fala e está indicando isso ao seu interlocutor, é uma marca de sua discursivização e não mais de um advérbio de modo, conforme podemos verificar no exemplo. Seu percurso de discursivização mostra que

“bem” passou de advérbio (nível lexical) a marcador discursivo (nível do discurso). Tendo ocorrido, portanto, de acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002) o Princípio da Descategorização, ou seja, a palavra perdeu sua categoria e autonomia, por conta do processo de gramaticalização, adquirindo dessa forma uma outra função e um outro sentido, e perdeu sua autonomia, vindo a obter outros sentidos além do seu sentido original. Segundo Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirma que, nessas ocorrências, aconteceu o Princípio da sintagmatização e reanálise, pois a reanálise é um mecanismo de mudança pelo qual o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem e essa reorganização estrutural do enunciado pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada e ocorreu também o Princípio da Continuidade e do Gradualismo, pois a discursivização inovou a estrutura da língua os processos comunicativos na interação entre os usuários, ao longo do tempo.

EXEMPLO 03:

- Era um cheiro horroroso e aí não adiantava nem bater nele, a gente gritava. - Aí, quando o gambá saía, zangado, porque estava dormindo e ia atacar a gente, o Albertinho Fortuna pegava um vidro de perfume Coty e tocava nele e aí o gambá gigante ficava cheirosinho e ficava amigo da gente... E pronto... E aí, todo mundo ia dormir feito você, agora. (Antigamente, Quando Eu Era Pequenino, p. 146)

- AÍ: gramaticalmente, o item lexical “aí” é um advérbio que indica um lugar, próximo ao ouvinte, lugar ao qual se faz referência, tendo, portanto um valor dêitico espacial. De acordo com a perspectiva funcionalista, as ocorrências de “aí” no exemplo acima tem um valor sequencial, funcionando como conectivos no início das orações, tendo, portanto, a função de dar sequência a acontecimentos passados. Nesse caso, a expressão tem um valor temporal, marca de sua gramaticalização e não mais de um advérbio de lugar, conforme podemos verificar no exemplo 04. Seu percurso de gramaticalização mostra que “aí” passou de advérbio (nível lexical) a conjunção (nível gramatical, tendo ocorrido, portanto, de acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002), o Princípio da Descategorização, ou seja, a palavra perdeu sua categoria e autonomia, por conta do processo de gramaticalização, adquirindo dessa forma uma outra função e um outro sentido, e perdeu sua autonomia, vindo a obter outros sentidos além do seu sentido original. Com base em Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirma

que, nessas ocorrências, aconteceu o Princípio da sintagmatização e reanálise, pois a reanálise é um mecanismo de mudança pelo qual o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem e essa reorganização estrutural do enunciado pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada e ocorreu também o Princípio da Continuidade e do Gradualismo, pois a gramaticalização inovou a estrutura da língua em processos de comunicação na interação entre os usuários, de forma gradual.

Esses exemplos retirados do livro do Arnaldo Jabor mostram-nos que os advérbios estão sujeitos a mudanças linguísticas determinadas pelas escolhas que o falante faz durante a fala, ou seja, o usuário da língua durante o processo de interação comunicativa negocia o sentido com o ouvinte e tende sempre a usar expressões novas. Esse fato acontece porque existe o falante que tem liberdade na construção de seus enunciados, porque é ele quem faz escolhas que levam a resultados de sentidos e a efeitos pragmáticos.

Da mesma forma que é o falante que faz suas escolhas e com elas contrói sentidos, não podemos deixar de dizer que ao fazer determinadas escolhas que melhor se encaixem na interação comunicativa, o falante o reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem para alcançar o sentidos desejado, afim de que seu interlocutor o compreenda. Podemos destacar que nesses exemplos existe um locutor que representa o “eu” na enunciação, é o responsável pelo discurso, pois, é uma figura constituída, porque marcada internamente no texto e há também a representação de um locutor-enquanto-pessoa, representado pela pessoa do mundo que se apresenta no discurso aparece no discurso como sendo sua origem. (ORLANDI 2008, p. 64)

A reorganização estrutural do enunciado que caracteriza o fenômeno da reanálise pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada. Ao optar por determinadas mudanças, o falante vai criando novas funções para formas já existentes e novas formas para funções já existentes, é a noção de gramática emergente, mostrando que o sistema linguístico está em constante transformação. De acordo com Saussure (apud MARTELOTTA 2011, p. 16), “É na fala que se acha o germe de todas as modificações: cada uma delas é lançada a princípio por um certo número de indivíduos antes de entrar em uso”.