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Neste item apresentamos exemplos de verbos que sofreram o processo de gramaticalização:

- A música veio mesmo a calhar, pois ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudades de tudo... Ando meio desesperançado. (Um Rosto Inesquecível, p. 09)

- ANDAR: indica uma ação, mas, ao lermos os exemplos acima, constatamos que o autor emprega o verbo andar expressando outros sentidos nas construções linguísticas, não indicando, portanto, o deslocamento no espaço, mas mostrando o estado de espírito em que se encontra o locutor. Assim, ele perde seu caráter de verbo de ação e passa a funcionar como verbo de ligação com o valor semântico de estado.

- É terrível quando a mulher cessa de te amar. Você vira um corpo sem órgãos, você vira também uma mulher abandonada. (O Mundo Hoje É Travesti, p. 16)

- VIRAR: indica uma ação e significa colocar-se em direção ou posição oposta à anterior. No exemplo, o autor usa o verbo virar com o sentido de transformar-se totalmente, mostrando uma mudança radical e não simplesmente a alteração de posição

de um objeto ou pessoa, refletindo o estado de espírito do locutor no momento da enunciação. Assim, ele perde seu caráter de ação e passa a funcionar como verbo de ligação com o valor semântico de estado.

- O homem quando conquista, acha que não tem mais de se esforçar e aí, dança. (O Mundo Hoje É Travesti, p. 17)

- DANÇAR: é um verbo de ação, significando movimentar o corpo seguindo um ritmo. Nos dias atuais é muito comum ouvir alguém dizendo que outra pessoa dançou, ou seja, não conseguiu o que queria, fracassou, portanto as pessoas usam o verbo dançar com o sentido de insucesso. Logo, esse dançar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor é de ordem intelectual.

- Nos meus 20 anos, meu ídolo era o James Bond, bonito, corajoso, entendendo de vinhos e de aviões supersônicos, comendo todo mundo, de smoking. Mundano? Sim, mas mesmo o Bond se esforçava, pois tinha a missão de salvar o ocidente. Era um trabalhador que merecia as louras que papava. (Nosso Macho Feliz É Casado Consigo Mesmo, p. 20)

- COMER: este verbo de ação, no sentido literal, indica ingerir alimentos. No exemplo, o autor não o emprega com o sentido de pôr alimento na boca, mastigar e em seguida engolir, mas, sim, de praticar o ato sexual, tendo, portanto, um valor metafórico. O mesmo sentido é atribuído ao verbo papar que também não é usado com o sentido de ingerir ou comer alimentos, como usualmente ocorre na fala infantil. Esse deslocamento do sentido dos verbos revela o ponto de vista do enunciador sobre a personagem James Bond, herói de filmes de aventura, como o garanhão que tinha grande sucesso com as mulheres.

- Meu homem feliz intui confusamente que a aventura da verdadeira solidão é apavorante. Daí, ele evita que qualquer profundidade existencial possa pintar, que a ideia de morte e finitude apareça à sua frente, senão sua “liberdade” ficaria insuportável. (Nosso Macho Feliz É Casado Consigo Mesmo, p. 22)

- PINTAR: indica uma ação e significa representar figuras com traços e tintas, colorir, mas tem sido muito utilizado com outro sentido informal de acontecer ou ocorrer. O autor utiliza-o com o sentido mostrando uma mudança em seu valor semântico refletindo alguma coisa que possa acontecer para o locutor no momento da enunciação. Assim, ele perde seu caráter de “ação” e passa a funcionar como verbo de ligação com o outro valor semântico de acontecimento, surgimento de algo para o locutor.

- Confesso, Juliana, com todo o respeito, que imaginei cenas eróticas comigo mesmo, com outros e nada senti... Pensei: “Estou decadente, ou as uvas estão verdes...” Mas, não, não era isso. Bateu-me mesmo uma certa tristeza. (Meditações Diante do Bumbum de Juliana, p. 30)

- BATER: indica uma ação que significa dar pancadas ou golpes em algo ou alguém. No exemplo, o autor utiliza o verbo bater com o sentido de surgir em sua consciência de forma repentina, não indicando, portanto, aplicar golpes em alguém, mas mostrando o estado de espírito em que se encontra o locutor. Assim, ele perde seu caráter de verbo de ação e passa a funcionar como verbo de estado, com o valor semântico de entristecer- se ou tornar-se triste.

- E agora tem outro rolando, chamado “Faz parte”, onde o falso “eu” humilha aquele rapaz que ganhou o Big Brother. (O Chato É Antes De Tudo Um Forte, p. 44)

- ROLAR: é um verbo de ação, significa fazer girar, rodar, mas nas conversas diárias é comum ouvirmos as pessoas utilizando esse verbo com o sentido informal de acontecer, ocorrer, realizar-se que é o sentido utilizado pelo autor e que faz parte do uso comum no dia a dia. Logo, esse rolar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor é de ordem intelectual.

- Eu sou do tempo em que as namoradas não davam. (O Amor Nos Anos 60, p. 67)

- DAR: é um verbo de ação que significa entregar, presentear, colocar à disposição, mas o autor o emprega com o sentido de entregar-se sexualmente, tendo, portanto, um valor

metafórico. Esse deslocamento do sentido do verbo revela o ponto de vista do enunciador em relação à prática sexual que hoje acontece descompromissadamente.

- Namorávamos em qualquer buraco: terrenos baldios, cantos da praia da noite; eu confesso que já “amassei” uma namorada dentro de uma grossa manilha encalhada na praia de Ipanema. (O Amor Nos Anos 60, p. 68)

- AMASSAR: este verbo de ação, no sentido literal, significa transformar em massa, dar pancadas, bater, achatar por pressão ou esmagamento, encher de dobras, rugas, amarrotar. Mas o autor utiliza-o com o sentido de ligar-se a alguém intimamente por meio de atos voluptosos, ou seja, bolinar, com valor metafórico. Esse deslocamento do sentido do verbo revela a concepção que o enunciador tem do ato sexual.

- Um comuna amigo meu traçou um funcionária do Consulado americano, a quem ele obrigava a chamá-lo de Fidel Castro (esse nome já foi até ministro...) (O Amor Nos Anos 60, p. 70)

- TRAÇAR: este verbo ação, no sentido literal, significa descrever, desenhar, representar por traços, projetar, planejar. No exemplo, o autor não o emprega com nenhum desses sentidos, mas, sim, com o de praticar o ato sexual (copular), tendo, portanto, um valor metafórico. Esse deslocamento do sentido do verbo revela um ponto de vista depreciativo do enunciador quanto às relações sexuais.

- Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora tudo é um “enorme presente”, na expressão de Norman Mailer. E esse “enorme presente” nos faz boiar no tempo parado, mas incessante, num futuro que “não pára de não chegar”. Antes tínhamos os filmes em preteo-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. (Nossos Dias Melhores Nunca Virão?, p. 74)

- BOIAR: esse verbo de ação significa flutuar no líquido prendendo-se ou não em uma bóia, pode inclusive ser usado com o sentido informal de não entender nada ou de não perceber algo, que é o sentido que o autor atribui ao verbo boiar no exemplo, ou seja, o

autor emprega o verbo com valor metafórico, refletindo o estado em que do locutor encontra-se no momento da enunciação.

- ... vi a precariedade de minha pobre família da classe média, tentando exibir uma felicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino cumprido feito um bambu no vento, já denotando a insegurança que até hoje me alarma. (Nossos Dias Melhores Nunca Virão?, p. 75)

- FEITO: é o particípio passado do verbo de ação fazer, mas o cronista usa-o com o sentido de comparação. Logo passa a funcionar como conjunção comparativa, com o valor de “como”. Nessa ocorrência, temos a passagem de um elemento lexical que se torna gramatical, sofrendo, portanto, a descategorização.

- Meus amiguinhos lutavam contra essa desilusão, mais ou menos como hoje os velhos comunas não desistem do socialismo e vivem acusando o Lula de ter ficado “neoliberal”. (Nunca Acreditei Em Papai Noel, p. 100)

- LUTAR: é um verbo de ação, significando combater, pelejar, brigar e também despender forças para atingir um certo objetivo como ocorre no texto sob análise. As crianças buscavam superar uma experiência desagradável. Logo, esse lutar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor é de ordem intelectual.

- Inventaram uma figura tropical que nunca colou: O Vovô Índio. (Nunca Acreditei Em Papai Noel, p. 101)

- COLAR: é um verbo de ação que significa grudar com cola, copiar de outro. Nessa passagem, o autor usa o verbo colar com o sentido de aceitar. É usado no sentido metafórico. Logo, esse colar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor é de ordem intelectual.

- Meu avô, malandro e macho, pegou a bengala e cobriu-os de porrada. (A Casa De Minha Mãe Nunca Ficou Pronta, p. 106)

- COBRIR: é um verbo de ação que significa encobrir alguma coisa, alguém ou a si mesmo, mas, ao lermos o exemplo acima, constatamos que o autor emprega o verbo cobrir ligado à palavra „porrada‟, expressando outro sentido nessa construção linguística, e indicando, surrar ou bater com muita intensidade usando algum objeto. Assim, o locutor, no momento da enunciação, discute e dá uma surra com a bengala em outra pessoa. Assim, o verbo cobrir ganha outro valor semântico, qual seja, o de bater intensa e fortemente em alguém com um objeto. A escolha dessa expressão, por parte do locutor, reforça a macheza da personagem.

- Quando peguei coqueluche, ele me levou num avião bimotor a quatro mil metros de altura. (Meu Pai Foi Um Mistério Em Minha Vida, p. 121)

- PEGAR: é um verbo de ação que verbo significa segurar, agarrar, prender, mas o autor faz uso do verbo pegar com o sentido de contrair, não indicando, portanto, pegar, segurar ou agarrar alguma coisa, mostrando uma ação realizada pelo locutor de maneira abstrata, ou seja, com sentido metafórico. Assim, ele perde seu caráter de verbo de ação e passa a funcionar como verbo de estado com o valor semântico de contrair uma doença.

- Queriam-me diplomata? Ah... hoje eu poderia ser um pobre itamarateca alcoólatra... Fui ser nada, maluco, comuna da UNE; depois, por acaso, acabei cineasta... - Um dia, nasceu-me a primeira filha. Foi um momento de vida e luz mas, logo depois, meu pai caiu doente, com uma enigmática infecção pulmonar, que não passava. (Meu Pai Foi Um Mistério Em Minha Vida, p. 123)

- ACABAR: é um verbo de ação que indica chegar ao fim, terminar. Constatamos que o autor emprega o verbo acabar expressando outro sentido nessa construção linguística, não indicando, portanto, o termino de alguma coisa, mas significando tornar-se. Assim, ele perde seu caráter de verbo de ação e passa a funcionar como verbo de ligação com o valor semântico de estado.

- CAIR: é um verbo de ação uma ação, que significa ir de cima para baixo, ir ao chão. No texto, porém, constatamos que o autor emprega esse verbo não mais indicando, essa ação mas, com o sentido de ficar. Assim, ele perde seu caráter de verbo de ação e passa a funcionar como verbo de ligação com o valor semântico de estado.

- “Antigamente, quando eu era pequenino...” – com essa frase mágica eu corto qualquer choro de meu filhinho. (Antigamente, Quando Eu Era Pequenino, p. 145)

- CORTAR: é um verbo de ação que significa separar, dividir. Porém, o locutor usou - o com o sentido de interromper, parar ou cessar. Foi empregado com sentido metafórico. Logo, esse cortar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor é de ordem intelectual.

- De repente, explode uma briga no fundo. (Vamos Beber No Passado Para Esquecer O Presente, p. 157)

- EXPLODE: é um verbo que significa causar explosão, detonar, estourar, portanto é um verbo de ação. No texto, foi usado com o sentido de começar, iniciar uma manifestação súbita, ou seja, a briga começou repentinamente. Logo, esse explodir é figurado e o locutor utilizou-o para mostrar que a briga “estourou” subitamente.

- O travesti nu em Copacabana desafia todos os pudores. Quem está nu ali na esquina, o homem ou a mulher nele? Ninguém está nu, pois ele viaja na identidade e se disfarça o tempo todo; por isso, pode ficar nu na rua – ele não é ninguém, ele não aspira a um “eu” fechado, ele é um “eu” contemporâneo, ele é descentrado, movente, ele é “sujeito” moderno. (O Travesti Está Na Terceira Margem Do Rio, p. 172)

- VIAJAR: este é um verbo de ação que significa fazer uma viagem, transitar por um caminho, mas o autor o emprega com o sentido sofrer alucinações, tendo, portanto, um valor metafórico, não indicando, portanto, o deslocamento no espaço, mas mostrando que a personagem pode transitar entre dois lados o do homem e o da mulher, ou seja, ora ele esta de um lado, ora está do outro lado. Assim, ele não perde seu caráter de verbo de ação, mas ele adquire novo valor semântico. Esse deslocamento do sentido do verbo revela o ponto de vista do enunciador.

- Aproxima-se a hora da liberdade, a hora em que vou quebrar todos os recordes e pular para outra vida. (O Grande Sucesso Do Herói Sem Coração, p. 174)

- QUEBRAR: é um verbo que significa fragmentar, despedaçar, romper, portanto é um verbo de ação. Mas, no texto, foi usado com o sentido de superar, ultrapassar. É usado com sentido metafórico. Logo, esse quebrar é figurado e a “ação” realizada pelo locutor mostra sua determinação em realizar algo.

- Osama e seus asseclas não “esquentam”; têm o rosto suave e frio dos loucos sem dúvida. (Um Asteróide De Deus Caiu Sobre O Ocidente, p. 185)

- ESQUENTAR: esse verbo significa aumentar ou fazer aumentar o calor. Mas constatamos que o autor emprega o verbo esquentar expressando estar preocupado ou angustiado com alguma coisa, não indicando, portanto, o aumento de calor, mas mostrando o estado de espírito em que se encontram as pessoas a quem o locutor faz referência. Assim, ele perde seu valor semântico de aumentar o calor e passar a significar não se preocupar.

- Osama fraturou a globalização. Interrompeu um eufórico processo de uniformização. (Um Asteróide De Deus Caiu Sobre O Ocidente, p. 188)

- FRATURAR: é um verbo que significa partir, produzir rachadura, portanto é um verbo de ação, mas, no texto, foi empregado com o sentido de produzir uma rachadura na globalização. Foi usado em sentido metafórico, uma vez que essa expressão indica a forma figurativa de se referir ao abalo causado pelo presidente americano.

Nas ocorrências analisadas, verificamos que os verbos sofrem constantes mudanças em suas funções e em seus sentidos originais, ou seja, constatamos que alguns verbos plenos assumem a função de conjunção, de verbos de ligação ou de verbos auxiliares e essa inovação de funções e produção de sentidos constantes se dá na língua em uso no dia a dia na interação comunicativa. Por exemplo, a forma verbal feito é o particípio passado do verbo fazer, mas, no caso analisado desempenha a função de conjunção comparativa, com o valor de “como”, tendo sofrido portanto, o processo de gramaticalização. De acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002), o Princípio da descategorização está presente nessa mudança, ou seja, a palavra perdeu sua categoria original, passando do nível lexical para o gramatical. Com base em Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirmar que, também o Princípio da

sintagmatização e reanálise está presente, pois o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpreta os elementos que o compõem e essa reorganização estrutural do enunciado implicou uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada e o Princípio da Continuidade e Gradualismo, uma vez que a língua passou por inovação em sua estrutura por meio da interação durante o processo de comunicação, a qual ocorreu gradualmente.

Nos exemplos em que aparecem os verbos de ação: andar, virar, dançar, pintar, bater, boiar, acabar, cair, viajar e esquentar verificamos que tornaram-se verbos de ligação. Assim, eles perderam seus valores semânticos originais e passaram a indicar outros valores semânticos, conforme verificamos em nossa análise. Tendo ocorrido, portanto, em todos os exemplos de acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002) o Princípio da descategorização, ou seja, a palavra perde sua autonomia, por conta do processo de gramaticalização, no caso dos verbos podemos dizer que eles perderam sua autonomia, vindo a obter outros sentidos além do seu sentido original. Segundo Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirma que, nestas ocorrências, aconteceu o Princípio da sintagmatização e reanálise, pois a reanálise é um mecanismo de mudança pelo qual o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem, essa reorganização estrutural do enunciado pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada e o Princípio da Continuidade e do Gradualismo, pois a gramaticalização inovou a estrutura das línguas durante o processo de comunicação na interação entre os usuários.

E por fim, nos exemplos em que o autor faz uso dos verbos: fraturar, cortar, explodir, comer, dar, rolar, amassar, quebrar, traçar, lutar, colar, cobrir e pegar, constatamos que o autor utiliza-os com o sentido metafórico, com o sentido que é comum ouvirmos em conversas informais, portanto podemos dizer que são verbos que indicam uma ação figurada realizada pelo locutor. Tendo ocorrido, portanto, em todos os exemplos de acordo com P. J. Hopper (apud POGGIO 2002) o Princípio da descategorização, ou seja, a palavra perde autonomia, por conta do processo de gramaticalização, no caso dos verbos podemos dizer que eles perderam sua autonomia, vindo a obter outros sentidos além do seu sentido original e o Princípio da Persistência, pois, quando uma forma se gramaticaliza, alguns traços do significado lexical original aderem à nova forma gramatical, ou seja, há a permanência de vestígios do significado lexical original. Segundo Ataliba T. de Castilho (apud POGGIO 2002), podemos afirma

que, nestas ocorrências, aconteceu o Princípio da sintagmatização e reanálise, pois a reanálise é um mecanismo de mudança pelo qual o falante reorganiza a estrutura do enunciado, reinterpretando os elementos que o compõem, essa reorganização estrutural do enunciado pode implicar uma modificação das fronteiras entre elementos do léxico na língua falada e o Princípio da Continuidade e do Gradualismo, pois a gramaticalização inovou a estrutura das línguas durante o processo de comunicação na interação entre os usuários.

O autor, conhecedor do funcionamento da língua para mostrar todas essas transformações faz o seguinte movimento: transfere-se da sua posição, da sua condição de conhecedor da norma padrão da língua, logo, assume-se como um enunciador não letrado, projeta como é que ela é nos meios em que as pessoas não têm domínio da norma padrão e, por fim, apresenta-se como um locutor, que tem um comportamento semelhante às pessoas que não têm o domínio da norma padrão da língua. Fazendo esse movimento, o autor consegue mostrar nos textos escritos todas as mudanças existentes na língua em uso comum no dia a dia, todas as transformações pelas quais a língua está passando, utilizando formas lingüísticas que circulam em sociedade.

Percebemos também que nesses exemplos existe um locutor que representa o “eu” na enunciação, é o responsável pelo discurso, ou seja, é uma figura constituída marcada internamente no texto e há também a representação de um locutor-enquanto- pessoa, representado pela pessoa do mundo que se apresenta no discurso como sendo sua origem.

A seguir mostramos exemplos de gramaticalização dos advérbios.