À teoria dos estoicos – de que o cosmos é perfeito e harmonioso – corresponde a ética de ajustar-se ao cosmos.126
Cícero, que viveu por volta de 106-43 a.C., foi o grande divulgador da ética estoica. Para ele, virtude é viver de acordo com a natureza, o que significa servir ao interesse geral da coletividade.127 A lei natural, nesses termos, está acima dos costumes e das leis dos povos e, assim, independe da vontade popular.
Essa visão antiga é completamente diferente da que muitos têm atualmente, nas democracias. Hoje, é a vontade do homem que tem prevalecido em qualquer reflexão, e não a ordem natural. Por isso é que adotamos o princípio da maioria para eleger nossos representantes que irão fazer nossas leis. Duvidamos de que a natureza em si seja boa. Daí não a tomarmos como paradigma ético. Preferimos criar leis racionais.
126 Antes dos estoicos, existia a escola dos cínicos. Estes serviram de inspiração àqueles. “Cínico” é uma palavra, hoje, ligada a coisas negativas. Quando se diz que alguém é “cínico”, diz-se que age sem verdade, sem princípios, sem valores, sem respeitar o outro, sem ética etc. Mas na Grécia antiga era diferente. Os cínicos eram moralistas exigentes. Do grego Kynokós (Kyon, cão e ikos, sufixo), o termo era utilizado para os que pregavam uma vida segundo a natureza, e não aceitavam os padrões sociais impostos, caçoando das convenções sociais artificiais. “Por isso, eram facilmente comparados a esses cãezinhos que nos mordem os calcanhares ou latem perto de nós para melhor nos aborrecer”. Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 48.
Crates, um dos mais eminentes cínicos, foi o mestre de Zenão (criador da escola estoica). Eram muitas as atividades práticas para chocar. Por exemplo, expor um peixe morto na ponta de um cordão, fazer sexo explícito em plena praça da cidade, etc. Pode-se imaginar o quanto sofriam de gozação por viverem fora dos padrões sociais estabelecidos. “O próprio Crates, num outro estilo, mas inteiramente conforme à natureza, não hesitava em fazer amor em público com Hipárquia, sua mulher. Na época, assim como hoje, as pessoas ficavam muito chocadas. No entanto, por mais estranho que pareça, isso era conseqüência direta do que se poderia chamar de ‘ética cosmológica’: a idéia de que a moral e a arte de viver devem tirar seus princípios da harmonia que rege todo o cosmos.” Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 49. Cabe destacar que, a radicalidade dos cínicos, no sentido de viver segundo os padrões da natureza, amainou-se no estoicismo, transmutando-se.
127 Cícero bem explica este pensamento enaltecedor da natureza em sua obra Dos Fins dos Bens e dos
Males (III, 73). Para ele a natureza constitui “o mais belo dos governos”. Apud Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 49. “Aquele que quer viver de acordo com a natureza deve partir da visão de conjunto do mundo e da providência. Não é possível emitir juízos verdadeiros sobre os bens e sobre os males sem conhecer todo o sistema da natureza e da vida dos deuses, nem saber se a natureza humana está ou não de acordo com a natureza universal. E não se pode ver, sem a física, que importância (e ela é imensa) têm as antigas máximas dos sábios: ‘Obedece às circunstâncias’, ‘Segue Deus!’, ‘Conhece-te a ti mesmo’, ‘Nada em excesso!’ etc. Somente o conhecimento dessa ciência pode nos ensinar o que pode a natureza na prática da justiça, na conservação de nossas amizades e de nossos apegos...”. Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 49.
Mesmo assim, destaca Bryan Magee: “A ética estóica sempre foi considerada impressionante e admirável, mesmo por gente que não concorda integralmente com ela. (...) Ela teve influência indiscutível sobre a ética cristã, que começava a se difundir na época em que Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio escreveram”.128
Para Cícero, como vimos, o que sintetiza a virtude é a prática da justiça de acordo com a natureza, ou seja, em prol da coletividade e não dos interesses meramente individuais. Diz ele que as virtudes “nascem de nossa inclinação natural a amar o próximo, a qual é fundamento do direito”.129
Esse direito natural, fundado no amor ao próximo, também não vê fronteiras entre os seres humanos, pois a lei natural irá reger as relações entre os familiares, entre os concidadãos, bem como com os estrangeiros.
Como diz Comparato:
Essa idéia, expressa em fórmula admirável que Cícero não se cansa de repetir, é como um Leitmotiv de toda a sua ética. Ela foi, na verdade, um princípio fundamental da filosofia estóica. A nossa vida desenvolve-se, por assim dizer, encerrada em um conjunto de três círculos concêntricos. O menor deles é formado pelos cidadãos de uma mesma cidade, o círculo médio corresponde à nação e o maior de todos é a sociedade universal do gênero humano.
Aí temos, com antecipação de mais de vinte séculos, o que só começou a existir, e ainda hesitantemente, após os horrores da Segunda Guerra Mundial, com a definição dos primeiros crimes contra a humanidade e o reconhecimento de que, doravante, o próprio gênero humano em sua totalidade, além dos indivíduos e dos grupos sociais, é também sujeito de direitos.
O amor como fundamento do direito autêntico; a existência de uma sociedade de todos os homens, unida pelo princípio da fraternidade universal: quem não percebe que essa visão ética, embora formulada antes do nascimento de Jesus Cristo, já exprime a própria essência da mensagem evangélica?130
128 História da Filosofia, tradução Marcos Bagno − São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 47. 129 Apud Fábio Konder Comparato, Ética, p. 113.
O que se pode perceber da ética estoica é que, não obstante ser aristocrática e hierarquizada, é bastante inclusiva: tudo tem o seu lugar na natureza e lá deve permanecer para manter a harmonia do todo. O homem não está só no universo estoico. Pelo contrário, ele é ele mesmo parte do todo, parte da natureza e com ela se confunde. Mas cabe ao homem “conhecer a si mesmo” e encontrar o seu devido lugar na sociedade.
Como lembra Ferry131, hodiernamente são os ecologistas que se aproximam muito do pensamento estoico. O cosmos para eles é a ‘biosfera’. São os ecologistas defensores dos direitos humanos, assim como os antigos socialistas.
As democracias atuais são pautadas no homem como o centro de todas as coisas (antropocentrismo). Nós, adeptos do chamado Capitalismo Humanista, como já vimos no marco teórico desta tese, adotamos o antropofilismo em vez do antropocentrismo, que é o homem no centro difuso das coisas, o que se aproxima bastante da visão dos estoicos e dos antigos mitos gregos sobre a harmonia do cosmos, o que não significa dizer que o Capitalismo Humanista seja adepto das sociedades do tipo escravagistas e estratificadas.