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Frivillige organisasjoners betydning for demokratiet

A grande sabedoria da filosofia cristã está no amor. Mas o que é o amor?

Os antigos gregos − como lembra André Comte-Sponville num ensaio que publicou sobre o amor158 − destacavam três tipos de amor: Eros; Philia e Ágape (este, na verdade, surge com a doutrina cristã).

Mas, antes de entender quais são as diferenças entre esses três tipos básicos de amor, cabe esclarecer que o amor é uma virtude e, diferentemente dos direitos e dos deveres, que estão no âmbito das vontades, o amor está no âmbito dos sentimentos.159

As vontades são passíveis de regulamentação. Pode-se proibir ou estimular vontades. Mas com os sentimentos isso não é possível. Não se pode obrigar alguém a amar algo ou alguma coisa. Quando existe amor, não há que se falar de direitos ou de deveres, o amor está acima deles.

Visto que o amor, enquanto sentimento, não pode ser algo obrigatório, pode o Direito (que é a moral instituída pela sociedade) obrigar à fraternidade? A fraternidade é um tipo de amor e, como tal, pertence ao âmbito dos sentimentos, e não das vontades. Assim sendo, impossível obrigar as pessoas a sentir amor ao próximo. Entretanto, a fraternidade traduzida em ação, ou seja, a fraternidade, enquanto atos revestidos de bondade, pode, sim, ser objeto de normas jurídicas.

Tomemos um exemplo banal: não podemos obrigar nossos filhos a gostarem de cenoura, mas podemos obrigá-los a, mesmo não gostando, comerem cenouras. Não se pode obrigá-los a gostar de cenoura porque os gostos, assim como os sentimentos, quedam fora do campo de regulamentação, mas a ação de comer as cenouras, esta, sim, é passível de regulamentação.

158

Le sexe ni la mort: trois essais sur l’amour et la sexualité. − Paris: Éditions Albin Michel, 2012. 159 “Or, ce qui pose problème ici, c’est que l’amour, qui est parfois une vertu, ne saurait être um devoir. Pourquoi? Parce que, explique Kant, très proche ici de l’expérience commune, <l’amour est une affaire de sentiment et non de volonté>. Or, un sentiment, cela ne se commande pas... Kant écrit encore: <Je ne peux aimer parce que je le veux, encore moins parce que je le dois; il s’ensuit qu’un devoir d’aimer est un non-sens.>” André Comte-Sponville, Le sexe ni la mort, p. 20.

É o que se passa, por exemplo, quando falamos de generosidade160. A generosidade é uma virtude que surge quando não há o amor. Ou melhor: a generosidade é o ato de amor para com aqueles por quem não sentimos amor. A moral serve, pois, para impor o amor entre aqueles em que este sentimento não existe naturalmente. “L’amour indique la direction; et la morale, le chemin”.161

Hodiernamente vivemos na “era dos direitos e dos deveres”, mas poucos são os que tratam das virtudes. A Liberdade que se propõe neste trabalho é aquela que estimula as virtudes do indivíduo, sobretudo o amor. Mais que a liberdade dos direitos e dos deveres, trata-se, também, da liberdade da virtude, daí porque se basear no belo, no justo, no sábio e no fecundo. Buscaremos demonstrar neste ensaio que a liberdade deve ser, também, o veículo propulsor para o desenvolvimento das virtudes humanas.

Mas voltemos aos três tipos de amor – Eros, Philia e Ágape –, que vulgarmente são conhecidos como amor-paixão (amor-apego); amor-compaixão e amor a Deus, respectivamente.

O amor-paixão é tido como pernicioso, possessivo, patológico e ciumento. No oposto completo encontra-se o amor ao próximo, a compaixão, um dos mais nobres sentimentos para a doutrina cristã. Por fim, num estado equidistante dos outros dois amores está o mais importante, o amor em Deus, a fé.

Eros é comumente confundido com o desejo sexual, mas cabe esclarecer que, para os antigos gregos, Eros estava ligado ao amor-paixão, ao amor-posse. Platão, em O

banquete162, traz sete discursos sucessivos sobre o amor – o discurso de Fedro, o de Pausânias, o de Erixímaco, o de Aristófanes, o de Ágaton, o de Sócrates e o de Alcibíades −, dos quais se destacam, segundo Comte-Sponville163, sobretudo, os de Aristófanes e Sócrates.

160 “Reprenons l’exemple de la générosité. Le mieux, c’est d’aimer et de donner par amour. Mais quand l’amour n’est pas là, nous dit la morale, il te reste à donner à ceux que tu n’aime pas. C’est où intervient la générosité, vertu morale, vertu du don. Quand tu n’est pas capable de donner par amour, agis comme si tu aimais: donne à ceux que tu n’aimes pas! À défaut d’aimer, fais au moins semblant: sois au moins généreux!” André Comte-Sponville. Op. Cit. p. 30.

161 “O amor indica a direção; e a moral, o caminho”. Id. Ibid., p. 29.

162 Platão. O banquete. Tradução de Heloisa da Graça Burati – São Paulo: Rideel, 2005. 163 Ibid. p. 41/42.

Aristófanes socorre-se do Mito dos Andrógenos para justificar seu entendimento sobre o amor. Trata-se de uma visão bastante romântica e idealizada de amor, como iremos verificar. Já Sócrates (bem como Platão) possui uma visão mais realista e pessimista deste sentimento.

Segundo o mito utilizado por Aristófanes para explicar o amor, no início da humanidade o homem era um ser muito forte e completo: tinha quatro pernas, quatro braços, quatro olhos e dois sexos. Eram seres muito fortes. Afinal, tinham todas as nossas capacidades em dobro. Diz a lenda que eles tentaram subir até os deuses do Olimpo. Foi aí, então, que Zeus, o deus supremo do Olimpo, separou os homens pela metade. Contudo, eles perderam não só sua força, mas também sua completude. A humanidade passou a ser composta por seres incompletos.

Desse episódio surge a ideia do amor como o encontro de partes de uma mesma alma separada por Zeus. É a ideia da alma-gêmea, aquele amor que é completo na vida e na morte. Comte-Sponville destaca que são quatro as principais características do amor, segundo Aristófanes: a exclusividade, a perpetuidade, a felicidade e a fusão.164 Portanto, para Sponville, “le discours d’Aristophane est faux, mensonger, illusoire: c’est du pipeau!”165

Contrapondo-se ao pensamento de Aristófanes, Platão traz o discurso de Sócrates, para quem o amor é uma invenção das mulheres. Quando diz que é uma invenção das mulheres, Sócrates não diz que o amor não existe, apenas aponta que sem as mulheres ele não existiria.

Para Sócrates de Platão, ao contrário de Aristófanes, o amor não é completude, mas, sim, falta. Isso porque, para Sócrates, o amor é desejo, e apenas desejamos aquilo que nos falta, pois se algo não nos falta, não há porque desejar e, portanto, não há porque amar. Nesta fórmula: amor = desejo = falta, Sócrates de Platão exprime uma visão realista e verdadeira da paixão amorosa.

164 Id. Ibid., p. 50.

Mas é possível amar aquilo que não nos falta. Não estaremos, entretanto, diante do amor-paixão (Eros). Será, então, outro tipo de amor, o qual os antigos gregos denominavam philia. Quanto a este amor, como lembra Comte-Sponville, podemos nos socorrer em Aristóteles e em Spinoza.

Spinoza concorda com Platão que o amor é desejo. Entretanto, para Spinoza, o desejo não é falta, mas, sim, poder. Para ele o desejo é uma potência, uma força interior e, como tal, pulsa, vibrante. Comte-Sponville exemplifica dizendo que o amor de Platão é como a fome, é estático, na medida em que só existe na falta; ao passo que o amor para Spinoza é o apetite, ele é o desejo em ação.166

Já falamos de eros, já falamos de philia. Falta-nos esclarecer o que se entende por amor ágape.

Sobre ágape, Sponville explica que,

(...) d’ailleurs inconnu des Grecs classiques (on ne le trouve ni chez Platon, ni chez Aristote, ni chez Épicure), mais très présent dans le Nouveau Testament, où il designe l’amour du prochain (celui dont on n’est ni l’amant ni l’ami), ce qu’on peut appeler, par esprit de synthèse et malgré l’apparent pléonasme, l’amour de charité.167

Ou seja, a caridade, ou melhor, o amor-caridade, apenas surgiu com a teologia cristã. Não era esse tipo de amor conhecido pelos antigos, como Platão, Aristóteles e Epicuro.

O amor ágape é o amor de Deus, trazido até nós pelas palavras de Jesus Cristo. Mas, aqueles que não acreditam em Deus, como alerta Comte-Sponville, podem se socorrer da filosofia de Simone Weil.168

166 Le sexe ni la mort, p. 87.

167“(...) desconhecido dos gregos clássicos (não o encontramos nem em Platão, nem Aristóteles, nem em Epicuro), mas muito presente no Novo Testamento, onde surge o amor ao próximo (aquele que não é nem amante nem amigo), o qual se pode chamar, por espírito de síntese e apesar do aparente pleonasmo, o amor da caridade”. Ibid., p. 19.

168 “On pourrait dire d’agapè, ce serait même le plus simple, que c’est l’amour selon Jésus-Christ. Pour rester dans le register philosophique, je dirais plutôt: agapè, c’est l’amour selon Simone Weil”. “Nós

Amar de forma caridosa é deixar de exercer todo o seu poder para deixar espaço para que o outro também se desenvolva. Trata-se de um amor completamente diferente do amor-eros, que é possessivo.

O amor de Deus fez permitir a existência da humanidade. Ou seja, a humanidade apenas existe porque Deus deu espaço para tanto. E Ele somente deu espaço para tanto no momento em que permitiu a existência do mal. Isso porque sem a existência do mal, não há que se falar em existência da humanidade. Somente Deus é perfeito. Se a humanidade fosse perfeita, ela seria Deus e não a humanidade.

Foi preciso, pois, que Deus recuasse (foi preciso que ele não exercesse todo o seu poder) para deixar o homem existir, ser e se desenvolver. Daí porque a máxima de Deus é permitir aos homens o livre-arbítrio. Os homens são livres para escolher entre o bem e o mal.

Com os cristãos, a virtude passa a ligar-se a uma qualidade da ação, diferentemente do que ocorria com os antigos, para quem a virtude era um dado natural: ou nascia com virtude ou não se a possuía.

Deus permitir a existência do outro como ele é (imperfeito) é amor fraterno (carité). Permitir, pois, o exercício do livre-arbítrio do outro é amor caridade, é amor ao próximo, é o amor de Deus e o amor a Deus.

Veremos mais à frente neste estudo que os iluministas do século XVIII se aproveitaram muito dos ideais cristãos para o desenvolvimento do sistema democrático, bem como do sistema capitalista. Mas cabe ressaltar, desde já, que acreditamos que os iluministas não compreenderam muito bem a mensagem sagrada. Eles confundiram felicidade com progresso. Eles ignoraram que a felicidade decorre da liberdade, do exercício do livre-arbítrio, e este somente pode se desenvolver num ambiente em que lhe seja concedido espaço. O progresso iluminista não veio acompanhado de ágape; o progresso decorrente do sistema capitalista, implantado desde o século XVIII, não gerou

podemos dizer de ágape, ser ele mesmo mais simples, o amor segundo Jesus Cristo. Para ficar no registro da filosofia, eu diria mais: o amor segundo Simone Weil”. Ibid. p. 118.

mais espaço para o exercício da liberdade; pelo contrário, ele criou uma liberdade meramente formal, perante as leis. O sistema capitalista, tal como foi implantado, não permitiu e não vem permitindo o desenvolvimento do ser humano para o exercício da liberdade integral, do livre-arbítrio. A ditadura do mercado não oferece opções. O que se quer destacar é que só o progresso não foi suficiente para trazer à sociedade mais amor ao próximo, que é o amor pregado por Jesus Cristo, mais liberdade e mais felicidade. Pelo contrário, o sistema capitalista vem demonstrando que escravizou a todos numa sociedade consumista, selvagem, sem valores e que, a cada dia, vem destruindo não só o Planeta como também o próprio homem. Podemos dizer que o sistema capitalista que vem sendo aplicado às sociedades modernas estimula o amor- apego, aquele amor possessivo, que não permite que o outro exerça seu livre-arbítrio, por medo de perder seu poder, seu amor.

Ferry explica que o repúdio cristão ao amor-apego é bastante próximo dos ensinamentos budistas e estoicos:

(...) o estoicismo, que nisso se aproxima do budismo, considera o medo da morte o pior entrave à vida bem-aventurada. Ora, essa angústia evidentemente não deixa de ter ligação com o amor. Podemos dizer que existe uma contradição aparentemente intransponível entre o amor, que leva quase que obrigatoriamente ao apego, e a morte, que é a separação. Se a lei deste mundo é a da finitude e da mudança; se, como dizem os budistas, tudo é “impermanente”, quer dizer, perecível e mutável, é pecar por falta de sabedoria apegar-se às coisas ou aos seres que são mortais. Não é que se deva cair na indiferença, é claro, o que nem os estoicos nem os budistas recomendariam. A compaixão, a benevolência e a solicitude para com os outros, até mesmo para com todas as formas de vida, devem ser a regra ética mais elevada de nosso comportamento. Mas a paixão, no mínimo, não é conveniente para o sábio, e os laços familiares, quando se tornam muito “apertados”, devem ser, se necessário, afrouxados.169

O amor ao próximo é o amor recomendado pela sabedora cristã, além, é claro, do principal: o amor em Deus. Essa terceira forma de amor inaugura-se com a

ressurreição. Como vimos, para os estoicos a morte nada mais é que uma passagem de um estado para o outro no cosmos. Os cristãos prometem mais: a ressurreição da alma, bem como a do corpo.

A imortalidade não é mais a do estoicismo, anônima e cósmica, mas a individual e consciente da ressurreição das almas acompanhadas de seus corpos “gloriosos”. Essa é a dimensão do “amor em Deus”, que vem conferir um sentido último à revolução operada pelo cristianismo nos termos do pensamento grego.170

A sabedoria cristã resume-se, portanto, na fé e no amor em Deus, além da prática da compaixão e da não prática do amor-apego, senão a Deus.

2.3.4A LIBERDADE NA DOUTRINA CRISTÃ