Diante da demanda que o próprio campo trazia aos atores, a adoção ainda aparecia enquanto uma possibilidade distante no cotidiano das ações estatais. A valorização dos laços sanguíneos e da família biológica não era uma simbologia dominante apenas entre os pelos técnicos sociais, mas também pelos próprios pais na busca por uma criança “idealizada”. Para Abreu (2002), é característica dos anos 90, a maturação de um desejo de adoção por crianças menores, que fossem parecidas com os pais e saudáveis. Essa demanda estava relacionada principalmente com o fato que grande parte destes pretendentes à adoção atravessam problemas de esterilidade, nunca tiveram filhos, ou mesmo tinham a intenção de maternar/paternar um bebê e passar por todos os estágios do seu desenvolvimento. Esta noção, todavia, será referendada no campo adotivo não apenas na década de 90, mas se espalhará também pelos anos 2000.
Em meu trabalho junto ao Juizado da Infância e da Juventude de Fortaleza, era bastante comum recebermos pretendentes à adoção que reafirmavam esse desejo pela criança “bebê”, no intuito de “ninar” e de perpassar todos os estágios de seu desenvolvimento. Neste contexto, dificilmente os atendimentos junto aos pretendentes à adoção, em que realizava em conjunto com a assistente social do núcleo de adoção e manutenção de vínculo do referido órgão, conseguiam modificar esse perfil, e quando alguma mudança ocorria, esta era muito pequena (eram comum os casos em que após a entrevista os pretendentes aumentavam de 0 a seis meses para no máximo um ano a idade da criança a ser adotada).
Na década de noventa, os estudos e conclusões a respeito das adoções de crianças maiores (adoções tardias), de crianças com deficiência e de etnias afro- descendentes (não encontrei textos do período que trabalhassem, como hoje já existem referências, à adoções de crianças indígenas) recebiam simbologias que reforçavam a não escolha por crianças “fora do perfil padrão” como na fala do psicólogo João Seabra Diniz:
“A idade mais conveniente para a adoção é, sem dúvida, o mais precoce
possível” da parte dos pais parece que estes a poderão considerar mais sua se a tiverem desde os primeiros anos de vida. Da parte da criança, reduzindo o período de tempo anterior à adoção, reduzem, em princípio, as possibilidades da existência de traumatismos que possam repercutir em sua evolução” (1994, p.110).
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O temor que envolvia a adoção, perpassada por noções de separação e sofrimento alocava um pensamento social onde havia ainda uma centralidade no desejo paterno, um temor quanto a possibilidade de problemas futuros ligados ao filho adotivo, incentivando assim a adoção mais precoce possível. As simbologias quanto à idade não existiam apenas para referendar o desejo por um bebê. Um campo se constrói principalmente a partir das relações entre seus membros e na disputa simbólica entre imaginários diferenciados. Neste mesmo espaço, temos em destaque a fala da assistente social, Martha Casseli:
“Em minha experiência com a adoção das crianças que ultrapassaram a primeira infância, apesar de algumas dificuldades, a adaptação ou a fusão com a família, se realizou admiravelmente bem. Nos casos em que surgiam problemas, com alguma exceções, foram resultado de uma dificuldade com os adultos, fruto de sua inexeperiência, e de uma falta de orientação adequada” (1994, p. 143).
Um ponto interessante desse processo diz respeito aos embates próprios entre os membros do serviço social e da psicologia, que apresentavam muitas vezes visões contrastantes de uma mesma problemática relativa à adoção. Apesar de não ter vivenciado efetivamente a realidade das equipes multidisciplinares da década de 90, enquanto estagiário do núcleo de adoção de fortaleza, sempre presenciava discussões e divergências entre as duas profissões, principalmente daqueles profissionais mais antigos na instituição. Estes embates estão ligados aos habitus de ambas as profissões, que se inserem com arcabouços diferenciados no campo social e pautam suas visões sobre a temática com profunda relação aos seus pertencimentos de classe e dos grupos de classe que se constroem durante a formação profissional. Como veremos no próximo capítulo, o protagonismo da psicologia e do serviço social no campo adotivo sofrerá alguns revezes nos anos 2000, culminando numa maior apropriação dos psicólogos e um distanciamento dos assistentes sociais dos movimentos nacionais de adoção.
Em relação às adoções de crianças de etnias afro descendentes, haviam poucos estudos ou debates na década de 90 que dessem conta desta relação. Na maioria das vezes o que se instaurava no discurso era uma preocupação e uma consideração de que esse tipo de adoção acometeria os pais a um processo de enfrentamento de uma realidade de preconceito por parte das
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famílias, torando assim uma adoção complicada como afirma a psicóloga Maria José Pereira:
“para que a adoção colorida,seja bem sucedida,deve existir por parte dos pais (brancos) firmeza e maturidade e amor que permitam seu filho enfrentar a sociedade hipócrita” (1991, p.222).
Ainda no esteio de que as adoções “difíceis” requerem uma família adotiva preparada, diferenciada, e capaz de lidar com sofrimento e preconceitos, ressoa de modo ainda mais complicado à adoção de crianças com deficiências físicas ou “mentais”, como no texto inglês compilado pelo psicólogo Fernando Freire:
“[...] durante toda a vida dos adotados, terão (os adotantes) de compartilhar seus sofrimentos físicos e anímicos, e, as vezes, sua morte precoce.” (1994, p.187)
Os primeiros discursos relativos a esse tipo de adoção davam conta da dificuldade e do temor que os pais adotivos tinham em realizá-las. Os casos em que essas adoções ocorriam, geralmente, não se direcionavam para casais brasileiros e sim estrangeiros, que possuíam um perfil de adoção bem mais abrangente e efetivavam mais comumente adoções ditas “difíceis”, colocando os membros do poder judiciário em grande disputa simbólica: devemos deixar nossas crianças serem levadas ao exterior ou promover essas adoções entre os casais brasileiros? Essa questão se torna fundamental para entender o campo adotivo na década de 90 uma vez que sobre ela, novos atores sociais entrarão em cena, modificando o campo adotivo e construindo perspectivas novas para a adoção no Brasil.
2.4.4 Entre a legalidade e a ilegalidade: o dilema das adoções à brasileira e das