• No results found

Klassesystemet i endring

In document Downton Abbey som samtidsspeil (sider 55-58)

Em “O bico da Cegonha” (2002), Abreu discorre sobre “uma emissão de tevê muito reveladora”, onde profissionais do Direito foram interpelados a se pronunciar sobre adoção no Brasil numa série de entrevistas à Rede Cultura de Televisão. Esta emissão é considera pelo autor como emblemática, pois foi discutido

o grande tema do momento, a “adoção a brasileira” 82, trazendo para o embate

simbólico membros do judiciário que eram contrários a prática (que como vimos durante este capítulo foi uma das principais razões de colocação do Estado como grande intermediador das adoções) e pessoas oriundas da sociedade civil que creditavam à adoção uma noção que sobrepujava a legislação, sendo um ato de “boa fé” e assim, não passível de ser criminalizado. A confusão perante essas duas visões se interpôs sobre todos os programas, dividindo juristas e sociedade civil quanto a punição, ou não desse tipo de prática situando falas onde “o crime é visto como uma ação para apressar a adoção e sobretudo um ato “nobre”, “caridoso”, motivado pelo desejo de “salvar uma criança” (p.48).

Essa simbologia originou proposições, inclusive dos próprios juristas, no sentido de afirmar que, mesmo sendo contrário a lei registrar uma criança como filha biológica de forma “direta”, se fosse por uma “boa causa” isto poderia ser relvado pela própria justiça. A legalidade social e a ilegalidade andavam de mãos juntas, e

tornava-se bastante claro a dificuldade de “disciplinar a prática” (ABREU, 2002).

Se no final dos anos 90, o poder judiciário era o principal responsável pelas posições oficiais da adoção, pelas polêmicas, e apresentava um discurso ainda muito contraditório sobre o que deveria ser uma adoção e como ela deveria ser materializada, doze anos após, em uma nova emissão de tevê reveladora, temos uma sobreposição da fala jurídica ao discurso da sociedade civil organizada, demonstrando um levantamento de um novo “poder” de nomeação oficial da adoção no Brasil e novos atores na tentativa de regulação das condutas adotivas nacionais.

114

O dia 25 de julho de 2012 era uma data muito esperada para os membros da Rede Globo de Televisão. Neste dia, estreou o programa “Encontro com Fátima Bernardes”, onde a apresentadora em questão, até então famosa na mídia por apresentar o “consagrado” Jornal Nacional, iria iniciar um quadro novo na emissora, onde seriam debatidos assuntos considerados importantes pela empresa, objetivando participação do público e promoção de debates e discussões. O tema proposto para o primeiro programa foi a prática da adoção no Brasil. No objetivo de

“discutir um tema tão importe para a população brasileira”83, foram convidados para

o programa diversos pais adotivos para verbalizar sua experiência com a adoção. Dentre estes pais, destacam-se a participação e grande espaço de fala de Sávio Bittencourt e Bárbara Toledo, ex e atual presidente da ANGAAD.

A oportunidade de expressão junto a um dos principais programas televisivos da emissora de maior audiência no país denota uma nova força ao movimento de adoção nacional quanto à construção do discurso oficial adotivo brasileiro. Não foram membros do poder judiciário, nem mesmo, legislativo os convidados para dar início a este processo. A colocação da fala da sociedade civil organizada como central pode ser vista dentro de um processo de pressão de indivíduos ligados a esses grupos na tentativa de angariar maior espaço na construção simbólica do desejo social adotivo brasileiro. As falas pronunciadas nesta série (que durou toda a primeira semana do programa) encontram-se afinadas com aquelas produzidas no ENAPA de Brasília e nos últimos anos.

Os programas foram divididos obedecendo uma lógica que é a mesma lógica de apresentação dos ENAPAs. As primeiras falas foram de membros dos GAADs, ressaltando a adoção enquanto uma possibilidade de veiculação real, o “DNA da Alma”, como afirmou Sávio Bittencurd, que se instaura na relação entre pais e filhos criando laços afetivos que, muitas vezes “se sobrepõem aos laços biológicos”. Em seguida foram apresentadas diversas falas de pais adotivos, principalmente daqueles que realizaram adoções difíceis, bem como situações de crianças e adolescentes nas instituições de acolhimento e a necessidade de mudança dessa realidade.

“Precisamos, Fátima, mudar essa realidade. É importante termos um espaço assim, junto a vocês da mídia, pois é dessa forma também que

115

procuramos, os Grupos de Apoio à Adoção, esclarecer os pais e pretendentes que as adoções são possíveis e que essas crianças em acolhimento institucional precisam, mesmo, de uma família” (Sávio Bittencourt, no programa Encontro com Fátima Bernardes, 2012).

É importante situar que essa série de programas tem relações diretas com o ENAPA de Brasília em 2012, realizado apenas dois meses antes. Durante o encontro nacional, o mesmo Sávio Bittencourt, quando perguntado sobre a função da mídia em relação à adoção, fez severas críticas a emissora a qual prestou entrevista neste dia 25: “é impossível admitir que uma empresa como a Globo, geradora de opiniões, possa colocar em suas novelas casos como aqueles que vimos na novela das nove”. O ex presidente da ANGAAD referia-se a fala de um personagem “Jorginho” da novela, “Avenida Brasil” que, ao saber que sua mãe havia mentido quanto a sua suposta adoção (aferiu a ele que era adotivo sem que o fosse), recebeu de uma das outras personagens a seguinte frase “também foi criar filho dos outros, só pode dar nisso”. Esta frase causou impacto no movimento nacional de adoção, que se posicionou junto a Rede Globo no sentido de pedir uma resposta pública à fala, vista como preconceituosa por inferir na adoção um aspecto de negatividade.

Como resposta, a Rede Globo enviou um vídeo onde a atriz responsável pela fala contestada se posicionava em prol a adoção de acordo com os aspectos socialmente aceitos pelo campo, ressaltando-a como uma possibilidade de filiação válida (todavia, a atriz recusou-se durante a gravação em vestir a camisa do movimento nacional de adoção). Toda essa relação com a mídia foi bastante discutida no encontro, inclusive, sendo apresentando como um dos encaminhamentos a construção de uma nova frente de ação junto às empresas televisivas no intuito de afinar os discursos com aqueles proferidos pelos membros

dos GAADs e disseminar a “nova cultura adotiva”.

Esse processo impele à análise de que, imbuídos por uma crescente importância no processo de nomeação oficial, os atores sociais da sociedade civil organizada começam a angariar um capital simbólico capaz de ultrapassar as

barreiras do próprio campo. Na busca por “atingir” um número maior de pessoas da

sociedade civil na construção de uma “cultura de adoção”, a efetivação de uma fala junto a Rede de Televisão “Globo”, em sua “importância jornalística nacional”, também escarna para o Estado e seus principais interlocutores a força simbólica do

116

movimento nacional de adoção: ele não pode mais ser desprezado quanto à nomeação oficial do campo, muito menos, nos processos de construção das leis e a produção de diretrizes norteadoras da prática. Apresenta ainda, em uma terceira instância, a tentativa de regular efetivamente a prática adotiva no Brasil, cuja “aplicabilidade” das leis no plano cotidiano, historicamente mostra-se deficitária e cujas contradições apresentadas na emissão de tevê de 1998, podem ser superadas caso esses protagonistas consigam conquistar, paulatinamente, o próprio Estado, a mídia e sociedade civil “leiga” para a defesa dos princípios de sua causa.

4.3.2 Entre a legalidade e a ilegalidade: o grande desafio do campo adotivo

In document Downton Abbey som samtidsspeil (sider 55-58)