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Hur det fungerar

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KAPITEL 6 - KREATIV LÖSNING

6.2 Presentation av The Amazing Race To Creativity

6.2.1 Hur det fungerar

No espetáculo Bartolomeu, que será que nele deu?, numa primeira experiência da junção do teatro com a cultura hip-hop, o trabalho com o texto foi dividido: os atores se ocuparam das cenas mais "teatrais" como diálogos e monólogos e o MC convidado, Pedro Noizyman, fez separadamente as métricas e juntamente com o DJ Eugênio Lima produziu as bases dos raps que seriam cantados por ele e das "músicas-tema" que cada uma das personagens possuía. Os raps chegaram prontos, foram aprendidos e cantados pelas atrizes juntamente com o MC.

O processo de Acordei que sonhava trouxe um avanço nesse ponto. Embora todos os atores estivessem lidando com os quatro elementos da cultura hip-hop na construção de seus personagens, optamos por apresentar Segismundo como uma personagem que se expressava por meio do rap, como força de comunicação e autorrepresentação e em analogia aos MCs e rappers que como ele, encontraram em suas próprias vozes e consciências, no ritmo e na poesia, a força motora para transcenderem a situação opressiva na qual se encontravam. No contexto musical, frequentemente o MC ou rapper é ao mesmo tempo o autor e emissor de seus raps, e no caso de Acordei que

sonhava, embora todos os envolvidos tivessem participado da concepção do

discurso das personagens e o texto final representasse à todos, ele foi sendo escrito pela dramaturga Claudia Schapira, baseando-se nas cenas criadas e no texto original, e então chegou às mãos dos atores-MCs que lhe deram voz. Pode-se aqui estabelecer uma ponte com o caso do MC Melle Mel e o emblemático rap The Message, que tomando-se as devidas proporções, é análogo à situação de Acordei que Sonhava no que diz respeito à apropriação de um discurso não autoral. Segundo relata Jeff Chang (2005), em The

Message somente o último verso da extensa letra é de autoria de Mel, mas

embora todos os MCs de seu grupo tivessem tentado metrificá-la e cantá-la no estúdio, ele foi o único que conseguiu dar voz ao rap. The Message se tornou um caso tão emblemático, e está tão “colado” à imagem do grupo

Grandmasterflash and the Furious Five e de Melle Mel, que historicamente

música inteira, pois ela já é indissociável de sua figura. É um caso em que um texto não autoral é incorporado tão organicamente pelo emissor, é tão intensamente “defendido” por ele e tem ressonância em suas ideias (já que há foi escrita por Mel),que se torna parte indissociável de sua performance e o posiciona como “guardião” emblemático de um discurso do qual ele é porta voz. Esse papel também foi conferido ao ator-MC em Acordei que sonhava, na medida em que tinha a função de transformar o texto escrito por outra pessoa em falas e músicas, observando elementos de uma estética própria do hip-hop que incluia: o rap , o canto falado, a métrica, o flow, a rítmica, o pulso, em contracena com batidas eletrônicas. Isso, em parte, já havia acontecido no espetáculo anterior, mas dessa vez não foi chamado um MC “externo" especificamente para fazer as métricas. Tínhamos inicialmente a presença da MC Mariana Lima, que embora tenha contribuído com algumas métricas e com o treinamento dos atores, não permaneceu no projeto até o seu fim, fato que acentuou ainda mais o processo de transformação do texto teatral em rap, ou, no mínimo, sua metrificação e rítmica, por parte do próprio ator-MC, o que acabou por se tornar parte constitutiva de sua performance. No caso de Segismundo, houve um processo de apropriação tanto do texto teatral que deveria soar como um rap "autoral" nascido da própria necessidade de expressão da personagem, como da linguagem do MC, já que as métricas começaram a ser feitas por mim.

Já na primeira cena do espetáculo, o texto proposto era uma metáfora do processo de criação de um rap, onde Segismundo, em meio aos ruídos da prisão e a seu desespero, inventa um ritmo que se configurava em um “alívio pra agonia”, que na pulsação e cadência da sua necessidade de expressão acabava por se tornar ritmo e poesia:

Segismundo:

Preciso entender Preciso descobrir Eu só nasci

Foi esse o meu delito, Ou algo a mais eu cometí? Vejo homens nascendo Sem pagar o preço

Do pecado original Mas pesa sobre mim Sanha tamanha Fardo especial Uma sina aumentada Exagerada

Monumental

Acima dos limites dos homens normais Da natureza, dos animais,

Vejo os pássaros agindo por instinto Abandonando o ninho

Com estranha calma

E eu que ajo guiado pela alma Tenho menos liberdade?

O peixe nasce, e sádico, sua vida me escarnece Pois ele cresce e se delicia

Rodopia entre sul e norte

E eu responsável por meu rumo e sorte Tenho menos liberdade?

Nasce o rio

Serpente inconsequente que se estende E como pixe de prata grafita a terra Habitando de água a urbana lida,

E eu homem, com direito à vida, tenho menos liberdade? E nesse estado de revolta permanente

Provocado por prisão sem precedentes, Vivo aturdido por sonoro pensamento Que arde forte,

Feito sol no firmamento Ouço ruídos,

E nesse embalo Falo,

Invento um ritmo que é alívio pra agonia

Tenho os pés sangrando de ralar Calcanhar na pedra pra rasgar O que busco é o efeito da ferida: É som que acaba por ser alento e guia. A mistura dessa dor de som e sangue É o tônico da alma do excluído Ódio que arde e grita aos 4 ventos

Como um dragão de Ogum trancado que esperava Liberdade há muito tempo. (SCHAPIRA, 2003)

A ação dramática foi determinante para a criação da métrica desse texto. Como um animal enjaulado, Segismundo se debatia no chão de sua prisão, criando um beat, uma “batida” sobre qual as palavras iam se cadenciando, num ritmo surgido a partir de uma necessidade cênica de demonstrar sua inconformidade. A forma e o conteúdo foram se entrecruzando e criando diversas camadas de significações. Após um primeiro improviso, onde essa possibilidade surgiu, o texto foi metrificado dentro de uma base de compasso 4x4 e assim que a forma foi fixada, foi devolvido à cena e impregnado da visceralidade que a teatralidade daquele momento da narrativa pedia. Diferentemente de um show de rap somente musical, onde nem sempre, mas muitas vezes não há uma preocupação específica com o entendimento de todas as palavras que são emitidas pelos MCs, os raps utilizados em um espetáculo teatral estão dentro de um contexto narrativo específico, em relação a um enredo, a outros personagens e a uma série de acontecimentos cênicos que se relacionam ente si. Portanto, a escolha do tipo de divisão métrica, e mesmo da base musical que acompanha a voz e por vezes determina o rap, leva em consideração todos esses fatores interdependentes. O rap dentro da performance poética do ator-MC é também texto teatral, condutor de narrativa, que necessita ser perfeitamente entendido para que haja compreensão da história por parte do público, portanto, fatores como a dicção, a construção de refrões utilizando-se trechos do texto que necessitam de destaque e expressões que funcionam como "marcadores de oralidade", são recursos utilizados em contracena com todo o aparato técnico, cênico e na contracena entre os outros atores. Em Acordei que sonhava o trabalho feito com o texto pelos atores-MCs e a direção, criando uma partitura, que se relacionava com a música como parte dramaturgia cênica, se firmou como um dos pontos principais dentro da linguagem teatro hip-hop.

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