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Analys av Organisatoriskt stöd

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Outro tipo de exercício básico nos processos do Núcleo Bartolomeu, é chamado simplesmente "depoimento" e é feito nos começos de processos para se encontrar as personagens, motes, linhas filosóficas e históricas dentro do tema que será desenvolvido no espetáculo a ser montado, ou em qualquer momento em que se necessite desatar algum "nó dramatúrgico", filosófico ou ideológico em relação à narrativa. O que o ator-MC busca na elaboração do seu depoimento é observar a realidade e dela "recortar" o que se relaciona com a personagem ou instância que irá representar. Aqui temos, como na função social do MC, a "representação" cumprindo um papel central na construção dos imaginários a serem apresentados. Daí a necessidade da consciência do ator-MC sobre qual é a "força" que está representando, que papel social cumpre e a que grupo social ela "dá voz". O depoimentos das personagens são pontos de partida que, com a intervenção da dramaturgia, se tornam ação cênica e formam o corpo da encenação.

Assim como no processo de Bartolomeu, que será que nele deu, em

Acordei que sonhava, independente de qual personagem iriam representar,

os atores trouxeram depoimentos de todas as personagens, na busca daquele que melhor representasse o discurso do coletivo naquele momento.

No caso do príncipe Segismundo, personagem que representei no espetáculo, o estofo para o depoimento veio de um campo específico no qual eu estava inserida. Na época da montagem participava do projeto Espaço Arte

da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo onde dava aulas de dança para menores em “liberdade assistida”64 nos bairros Jardim Ângela e Heliópolis, bairros periféricos de São Paulo. Ao entrar em contato com as histórias dos alunos, a identificação com o depoimento que inicialmente estávamos pensando para Segismundo se deu instantâneamente, e foi à aquele grupo que escolhi dar voz em meu depoimento. Entre uma aula e outra conversávamos sobre música, dança, sobre a cultura hip-hop, casos amorosos e sobre mazelas e dificuldades que eram enfrentadas naquelas comunidades e nos corredores da FEBEM65, onde a maioria estivera presa. A observação e diálogo com os alunos, o corpo, a voz, a cadência, o olhar e o vocabulário que eram vivenciados durante aquela troca de experiências, iam compondo o gestus social, que se materializou no depoimento da personagem. Paralelamente, outra "fonte" determinante para a composição do discurso, do timbre, da prosódia e da caracterização para esse depoimento foi o contato e estudo do conteúdo de raps nacionais, principalmente os do grupo Racionais MCs e de Mano Brown, um de seus líderes.

E assim, com todos esses recortes reunidos e dispostos em forma de narrativa, sentado no topo de uma das escadas com a luz baixa, de tôca e um moletom preto onde lia-se a palavra "CRIME", com a fala rítmica e compassada, o depoimento da personagem Segismundo, (que ali chamou-se "Sérgio"), foi dado:

"Meu nome é Sérgio, tenho 21 anos, no momento me encontro privado da minha liberdade no P-5 da Casa de Detenção e vim aqui pra contá a minha história. Não sei onde eu nasci, mas deve ter nas escada de algum hospital do interior, ou em qualquer desses buraco que quem não tem escolha nasce. Ou morre. Até os 6 anos eu morei no SOS Criança, e depois fui transferido pra

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Liberdade assistida, conhecida como L.A., é uma medida sócio-educativa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. A medida existe no Brasil desde 1927 (Código Melo Matos) com o nome de “liberdade vigiada”. Em 1979, o novo Código de Menores mudou sua denominação para liberdade assistida. A medida se aplica a jovens autores de ato infracionais com o fim de acompanhá-los, auxiliá-los e orientá-los. Embora seja um projeto que visa a integração social, muitas críticas são feitas com relação a maneira como é realizada: desde o despreparo dos orientadores que lidam com os jovens até os princípios norteadores que são baseados na imposição de uma conduta social “normalizadora” de comportamentos.

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Em 2006 a Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM) mudou de nome e passou a se chamar Fundação CASA (Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo

FEBEM, onde eu fiquei até os 18. E foi o lugar onde eu aprendi metade das coisa que eu sei até hoje. Tipo regras. Tipo se você cagueta o irmão, cê morre, se cê fala suas vontade, cê apanha. Se você cola nos ladrão mais véio, aprende o que precisa pra quando sair. Se você for esperto no mundão, se dá bem. E se for esperto na FEBEM, pode sair pra se dar bem no mundão.(...) Eu fiquei com uns cara numa goma no Capão e em pouco tempo eles me chamaram pra trampá com eles. A primeira casa que eu fiz foi fácil. Eu só ficava vigiando enquanto os outros três entravam.(...) eu fiquei comendo Mac Donald’s e jogando playstation a semana inteira, e ainda deu uma grana pra comprá vários barato que eu via no centro e ficava babando pra ter. Mas o mais foda mesmo foi a primeira casa que entrei (...) Não tive a menor dúvida, rasguei os gibi, uma pá de roupa, joguei aquele puta aparelho de som no chão, a TV. Quebrei aquele porta-retrato com a foto do boyzinho, a mãe, o pai, o cavalo e o troféu de 1o lugar. E vinha na minha cabeça: Porque que eu não tive isso? O que que eu fiz pra não merecer isso? Parecia que eu tava com o demônio dentro de mim e eu só parei com os gritos dos cara lá embaixo “Vâmo embora , vâmo vazá”(...) Um dia veio uma psicóloga, assistente social, essas porra aí, com o diretor e começaram com uma conversa mole de “que nós estávamos pagando uma dívida com a sociedade” E a dívida que a sociedade tem comigo? Quem vai pagar?”66

A partir da proposta inicial da direção, esse depoimento foi o ponto de partida para o que se tornaria depois a personagem Segismundo, um misto de MC, rapper, menino, homem, poeta, bandido e herói que dialeticamente trazia a força e a fragilidade de quem esteve legado ao esquecimento e ao abandono, e ainda assim inventou condições de sobrevivência.

No trabalho do ator-MC em seu depoimento da personagem, tudo é levado em consideração: seu estado antes de entrar em cena, a voz, a respiração, a caracterização, a postura corporal que se torna gestus social, o ritmo, o encadeamento das ideias, a função social representada, a consciência de classe. Todos esses fatores fazem sentido e se resignificam à medida que se apresenta a relação dessa personagem com o mundo no qual está inserida, já que o depoimento é sempre dado em relação à algum fato, à alguma personagem, à uma situação específica. Essa relação é uma importante característica do teatro épico que, como enfatiza Brecht (1967, p. 83-84),

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Texto meu que encontra-se no caderno de registros de textos dos atores, compilados durante o processo de montagem de Acordei que Sonhava.

"O teatro épico está interessado, antes de tudo, no comportamento que os homens adotam uns diante dos outros, sempre que forem comportamentos significativos social e historicamente (típicos). Desenvolve cenas nas quais as pessoas se comportam de forma que as leis sociais a que estão sujeitas vêm à luz.(...) O comportamento humano é mostrado como alterável; o próprio homem como dependente de certos fatores sociais e econômicos e, ao mesmo tempo, capaz de alterá-los." (BRECHT, 1967, p. 84).

No depoimento, a forma e o conteúdo se apoiam, e a lógica do raciocínio nunca chega desacompanhada da teatralidade. Em certos casos, um depoimento pode até estar totalmente desvinculado das características físicas de um ator, por exemplo, desde que o discurso se sustente em forma e conteúdo. Nesse sentido, um depoimento marcante, que é usado como exemplo até hoje nos processos do Núcleo, foi o da MC Mariana Lima, que participou do processo de pesquisa Acordei que Sonhava e, como os atores, preparou depoimentos de diversos personagens. Num dado momento ela foi solicitada a trazer o depoimento da personagem General Clotaldo, algoz e "carcereiro" de Segismundo, que no enredo da peça é quem o vigiou durante os vinte anos que esteve preso na torre e único ser-humano com qual ele teve contato durante esse período. Nesse caso, o ponto de partida e o discurso para esse depoimento não foi ebuscado a partir do trabalho de campo, mas da leitura de um livro sobre Ernesto Geisel, contendo uma longa entrevista com o general. Vestindo uma farda militar, botas, com a cabeça raspada, fala impassível e ritmada que não se alterava nunca, e com respostas infalíveis, rápidas e ponderadas, a figura instaurada por aquele depoimento conseguiu levar os perguntadores da “roda-viva” à raias do desespero à medida em que respondia com argumentos baseados no pensamento dos que defendiam a ditadura militar no Brasil, com lógica e retórica brilhantes, às perguntas feitas por nós. O efeito daquela personagem foi devastador. Pela primeira vez um depoimento se instaurava com tamanha força que se tornava impossível qualquer indiferença ou omissão no posicionamento dos presentes. Os maiores crimes e atrocidades eram defendidos com inteligência, clareza e educação exemplares, e, não fosse o caso de termos consciência da recente história do Brasil, seríamos capazes de aplaudir o maravilhoso projeto de desenvolvimento proposto ao nosso país por aquela figura e seus aliados. À

medida que íamos realmente nos desesperando e nos abalando emocionalmente, falávamos mais alto e gesticulávamos, quase ao ponto de xingarmos, o "general", por sua vez, mantinha a tensão no seu grau máximo, fixando-se como um firme ponto de oposição que mantinha a tensão da ação: falava mais baixo, permanecia quase imóvel, mantinha o ritmo lento da sua fala e em nenhum momento demonstrava medo. Ao final, ficamos todos surpresos com o nível de conflito real gerado e com o poder do um raciocínio, de uma personagem, de um depoimento, quando alinhado em sua forma e conteúdo, quando tão bem "encaixado" no "suporte" que o representa. O que presenciamos, em cena, foi um gestus social em sua plenitude. Na montagem essa personagem foi representa da por Claudia Schapira, que aproveitando todo o impacto desse depoimento e mesclando-o às suas próprias referências (a ditadura na Argentina, seu país natal), criou um general Clotaldo que evocava a presença de uma figura verossímel que poderia ser um policial militar, um carcereiro de presídio, um oficial a serviço da ditadura militar brasileira ou de qualquer país da América do Sul.

Este processo foi desenvolvido durante meses até o fechamento das personagens e do texto. Diante dos resultados colhidos durante os anos de pesquisa que se seguiram no Núcleo, a metodologia desse exercício foi se aprimorando e com ela a qualidade dos depoimentos das perguntas feitas ao depoente, visto que fomos entendendo melhor o papel de quem faz as perguntas e, já que se trata de um jogo cênico, qual a maneira de jogá-lo melhor a fim de que sejam feitas as perguntas que, ao mesmo tempo que "testem" o raciocínio cênico de quem está em foco, criem condições propícias e acolhedoras para que a proposta do “depoente” seja realizada da melhor maneira possível e seus pontos fortes possam sobressair.

Paralelamente aos depoimentos, durante todo o processo de pesquisa do espetáculo, o texto foi todo dividido em pequenas cenas levantadas em inúmeras versões, e estas por sua vez também serviram como material para a dramaturgia, bem como para os próprios depoimentos que se seguiram.

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